Litoral e Interior, ou quando o mar encontra o sertão

O sertão vai virar mar e o mar vai virar sertão! A profecia atribuída a Antônio Conselheiro impregna o imaginário do Brasil há mais de um século. Não é à toa, por vários motivos e pontos de vista, das injustiças sociais, de uma religiosidade entranhada em nós que vai aos poucos passando do catolicismo para as igrejas neopentecostais, de esquina ou não, mas primordialmente porque este país tem muito, muito mar, e mais sertão ainda.

Assisti semana passada ao show de Sérgio Santos no Quintas no BNDES, do álbum Litoral e Interior. Fora o quarteto fenomenal que o acompanha (André Mehmari no piano, Rodolfo Stroeter no baixo, o inacreditável Tutty Moreno na bateria e Teco Cardoso nos sopros), fora os excepcionais violão e voz do Sérgio e da alegria quase infantil com que tocam – e que é perceptível também nas gravações em estúdio, em que o baixo ficou a cargo também de Zeca Assumpção, seriam suficientes as canções.

Litoral e Interior é um álbum conceitual, como era o anterior, Iô Sô, construído sobre o congado mineiro, ou Áfrico, sobre o histórico da presença negra no Brasil. Desta vez, ele ancora a sequência do repertório em três temas instrumentais, resumidos na última canção, que Mônica Salmaso canta: Mar, montanha e sertão. O que na fala apocalíptica do Conselheiro era confronto entre um Brasil que se voltava para fora e outro para dentro, aqui torna-se encontro, trajetória. Mas uma trajetória, embora na direção idêntica à histórica, muito mais sutil. Não se trata de fazer um inventário de ritmos ou de manifestações. Há frevo, há ciranda, há baião, há toada, mas o foco não está simplesmente em ressaltar esta diversidade, mas em explorar as possibilidades desta diversidade numa sonoridade sólida e homogênea, em que as particularidades se revelam aos poucos, em camadas a serem degustadas devagar.

Na verdade, me parece que não apenas os álbuns, mas toda a obra de Sérgio é conceitual, de certa forma, e pode ser resumida no título de um de seus primeiros álbuns: Mulato. Mulato como o próprio Sérgio é seu trabalho, a mescla que ele produz entre influências culturais com o pé firmemente fincado em Minas – não tivesse ele aparecido pela primeira vez na magistral Missa dos Quilombos, de Milton Nascimento – mas também musicais num nível mais refinado. Em determinados momentos, o violão de Sérgio soa como o de Dori Caymmi – arranjador orquestral de canções de Litoral e Interior; em outros, os scats no samba lembram o mineiro/carioca João Bosco; em outros ainda, o samba tem a levada típica de Joyce – e aí Tutty Moreno, marido dela, deita e rola na bateria. Cada uma destas nuances se destaca em determinados momentos, como ondas que se destacam no movimento da maré, ou como uma montanha que se sobressai na serra – para usar imagens caras ao conceito do álbum – de maneira que parece ao mesmo tempo pensada e espontânea, como uma consequência natural do desenvolvimento da canção – e mesmo os temas sem letra são pensados como canções, um pouco menos os três que fazem a condução do roteiro.

Não é que eu vá cair em qualquer tipo de determinismo racial ou genotípico, claro. Mas, embora o próprio Sérgio afirme que o álbum trata de dicotomias, o que se ouve é sempre uma aproximação entre diversos. Ou, como ele mesmo diz, O que esse disco quer falar é um pouco sobre convivência. E a existência de Sergio e de sua música é fruto de um amadurecimento de país que é também dele próprio. Litoral e Interior é, com efeito, obra de maturidade, com canções de melodia trabalhadíssima, rítmica elaborada, improviso jazzístico, e nada que pareça forçado, ao contrário: são coisas de ofício longamente exercido, buriladas, curtidas, maturadas no tempo. O tempo da carreira do Sérgio, mas também o tempo em que se misturaram nos diversos territórios brasileiros – no chão, nos sons, nos genes, na pele – culturas e as vertentes diversas, ora vindas de dentro, ora de fora, de terras variadas. O resultado disso tudo só pode ser rico, muito rico.

O que me lembra enviezadamente da miséria que criou Canudos, Antônio Conselheiro e a frase síntese do enfrentamento e da incompreensão de opostos que geraram e geram esta miséria. Aqui, as diferenças se completam sem sem necessariamente perderem identidade. Mais adequadamente, se contemplam, e desta contemplação se geram novas identidades. Numa citação alheia, mas a propósito: miséria é miséria em qualquer canto, riquezas são diferenças. Sérgio afirmou numa entrevista:

O que realmente me estimula é deixar alguma coisa. Tenho muita vontade de que daqui a 200 anos alguém pegue e fale: ‘Poxa, no passado havia um cara chamado Sergio Santos que pensava a música desta maneira’.

Assim como Sergio se alimenta de coisas que tem 200 anos ou mais para pensar a música e deixá-la para adiante, sua música por si também pensa o Brasil. Provavelmente por isso ficará.

Litoral e Interior

Lá vem Chuva – com letra de Paulo Cesar Pinheiro

Ciranda

O serviço, então:

Sergio Santos no Myspace
Sítio eletrônico do Sergio Santos, que, não sei por que cargas d’água, não está atualizado com este álbum – mas tem os anteriores, excepcionais.
Litoral e Interior no sítio da Biscoito Fino, que o comercializa.

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