Délia, a voz e o instrumento

A voz cantada na canção popular é um equilibrista num fio esticado entre duas plataformas, a da fala e a do instrumento, num jogo em que o objetivo não é partir de um lado para chegar ao outro, mas simplesmente continuar se equilibrando. Da mesma forma, a própria canção se equilibra entre a expressão de uma ou mais idéias mais ou menos concretas expressas na letra, e o desenvolvimento da idéia abstrata contida na melodia. Entre estes dois polos a reta tem infinitos pontos, e talvez alguns atalhos.

Penso nisso ao ler o artigo de Lorenzo Mammi João Gilberto e o projeto utópico da Bossa Nova, de que já falei aqui, e ouvir o álbum Presente, da até então apenas instrumentista Délia Fischer. Instrumentista, sim, mas isto não significa uma atuação exclusiva na música instrumental. Mas, sim, é uma instrumentista que fez um álbum de canções. Penso nos dois como contraste entre a busca obstinada de João por uma comunhão entre a entonação falada e a melodia da canção, e a voz usada e pensada como mais um instrumento entre instrumentos – o que não é o caso do álbum de Délia, e, a meu ver, o seu maior acerto.

Digo isto porque é algo que já ouvi muitas vezes, de muitos cantores diferentes: a definição do uso de sua voz como mais um instrumento, de forma talvez muito humilde, mas certamente imprópria para a canção, pelos motivos óbvios de que, primeiro, a existência da letra, de uma mensagem em um idioma alheio ao musical, mas aglutinado a ele, por si só já dá à voz um lugar privilegiado na escuta; mas nem seria necessário, pois a voz humana, ao menos para um ouvinte também humano, também se destaca naturalmente em qualquer formação instrumental. Pensar a voz como um instrumento é possível; como mais um instrumento, uma balela. E o fato de Délia, exímia pianista, não ter ficado tentada a assumir este lugar impossível e ter assumido realmente seu álbum como de canções, colocando não apenas sua voz, mas também sua capacidade de arranjadora e pianista a serviço destas canções, é o seu primeiro trunfo. Que pode parecer óbvio, mas quantos erros já foram cometidos neste campo.

A bem dizer, há uma faixa de Presente que não pode ser chamada de canção, a incandescente Aracagy. De resto, mesmo a seguinte, Das águas, que não tem letra e é entoada por ela e Marcio Bahia dentro de uma piscina – e o arranjo consiste apenas nos sons que eles tiram da água – é também uma canção, e apresentada como tal – o que significa atenção à história contada por sua estrutura bastante simples. No entanto, ao ouvir o álbum, em alguns momentos me peguei deixando a letra de lado, e minha atenção escorregou sem eu perceber do significado das palavras para a sua sonoridade, numa decisão tomada pelo ouvido inconscientemente. Foram momentos em que o equilibrista pendeu mais para um lado, em que os arranjos cuidadosos ameaçaram envolver a voz além do ponto exato. Mas foram poucos momentos. Aliás, uma coisa que me chamou a atenção foi o fato de um ator, Thiago Pichhi, ser também o autor de boa parte das letras. Será que a elaboração da fala do ator, no campo da inflexão da voz falada, influenciou a criação das letras?

Mas o ponto onde o equilibrista realmente se apoia é na própria voz da Délia, que teve aulas de canto na preparação para este trabalho, mas manteve o timbre branco da voz “não preparada”, o que resultou em outro acerto, porque deste modo a voz ficou afastada da impostação característica do lugar do instrumento. Num trabalho de canções de uma instrumentista, isto serve para realçar o caráter de canção de cada uma e as aproxima do ouvinte, impedindo que o arranjo instrumental envolva a voz a ponto de nublá-la e sobrepujá-la. Nas poucas vezes que citei acima, isto esteve a ponto de acontecer, mas foi exatamente a voz cantada com timbre próximo da fala que me trouxe de volta, mesmo em letras cheias de aliterações e de sentidos mais ou menos esparsos. Claro que uma voz mais trabalhada e com uma presença mais impressiva, como é o caso da participação de Ana Carolina, também serve como antídoto para esta questão. Mas a Délia, por sua vez, como autora dos arranjos, não coloca a voz à frente do palco inteiramente, permanecendo sempre próxima da tona d’água (uma expressão cara ao álbum), dialogando com o arranjo com ainda mais propriedade que Ana.

Então é exatamente o caráter duplo do álbum, a dualidade instrumental/vocal, que dá a ele a sonoridade muito particular que tem. Em algumas canções, como Das plantas, a letra é quase um poema simbolista, quase dispensando um entendimento racional, e a participação de Hermeto Paschoal, tocando um copo d’água com a voz e depois uma escaleta, resulta quase numa outra letra em outra língua, contracenando com a original. Em outras, como O mar e a sereia, a canção se impõe e cresce nas repetições, apoiando-se no arranjo para crescer. Em algumas, Délia julga necessário dobrar ou abrir vozes, como para reforçar sua presença. Um jogo um bocado delicado.

Mais um ponto apenas: o álbum tem um conceito ligado à água, não apenas pelo fato de várias letras remeterem ao tema (entre elas as três que trago como amostra). Mas também há uma fluidez que perpassa toda a feitura sonora, da voz até os arranjos que não se prendem a nenhum clichê de gênero. Embora equilibrando-se num fio esticado, isto não significa tensão, e sim uma certa delicadeza, como quem diz: não é força, é jeito. Délia não abre mão de ser a instrumentista que é quando vai cantar, e também não permite que sua voz seja apenas um assessório em faixas brilhantemente arranjadas, mesmo quando apenas ao piano – ao contrário, ela canta com a propriedade de quem conta algo ao ouvinte. Encontrar este lugar da voz pode ter sido tarefa árdua por ser novidade na carreira de Délia, mas o resultado soa natural. O que é provavelmente o que ela almejava.

Serviço: Délia Fischer no My Space.

Aluvião – de Délia Fischer e Sérgio Natureza

Das Plantas

O mar e a sereia

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2 comentários em “Délia, a voz e o instrumento

  1. Sebastião Valente (Tim Valente) disse:

    para mim, o maior mérito na arte da Délia é que ela em nenhum momento se afasta do discurso melódico…daquilo que irá narrar a idéia pré-concebida da temática que se pretendeu abordar e construir melodias que falam por si mesmas…uma letra inconveniente pouco ajuda nesse sentido. Vejo muitas letras narrando uma coisa e a música narrando outra…os maiores cantores são reconhecidos pelo modo que emitem o discurso melódico e nunca o discurso literário que são acessórios numa canção natural….Eu não entendo nada do que a Lisa Nilsson diz em O nascimento da Vênus e no entanto me emociono….e nesse caso sim a voz de Lisa é um poderoso instrumento para o discurso da Délia…

    • Tim, não sei se concordo com a idéia de uma preponderância de um componente da canção sobre outro, mas não posso deixar de concordar que uma boa melodia já pode ser suficiente para sustentar uma letra simplíssima (que não atrapalhe) – Vinícius, poeta sofisticado e letrista simples porque tomava os atalhos, sabia bem disso – e que se o intérprete tem o sentido da melodia no seu canto, a letra pode até ganhar sentido a partir disso. É um negócio meio misterioso. É por isso que eu gosto tanto… Abraços e volte sempre.

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