Música para reouvir, por Luiz Tatit

Às vezes fico me perguntando se não trato demais de música velha neste blog, e se não tendo a ignorar um pouco a imensa e variada produção atual. Por outro lado, não faltam blogs por aí apontando as novidades mais recentes da música brasileira e mundial, que acabam se tornando velhas quase que instantaneamente, após um ou – se é muito interessante – duas audições. Na contramão desta tendência, faço questão de falar aqui de canções que merecem ser ouvidas muitas e muitas vezes, independente de terem sido feitas esta semana ou há cem anos. Fiz este blog porque acredito no reouvir, fundamentalmente.

Este artigo de Luiz Tatit (aqui o sítio dele), escrito em 2007 (!!), trata exatamente como, com a possibilidade de comunicação em rede e a popularização dos meios de gravação e edição, cada vez mais todos podem ser, ou se achar, artistas, com uma profusão de trabalhos e uma avalanche de informação, que acaba tendo no público uma reação inversa do que seria esperado: submergido por tanta novidade, ele tende a recusar o novo e passa a se refugiar na segurança do que já conhece, passando a um certo conservadorismo de repertório. (E aí me ocorre, levando a idéia adiante: seria apenas de repertório este conservadorismo, ou também de forma? O que explicaria o estrondoso, instantâneo e efêmero sucesso de artistas descartáveis, a meu ver hoje maior que nunca. Assim, além de rejeitar novidades de repertório, o público também preferiria a redundância na forma, nos arranjos, nas letras, como antídoto ao excesso de informação que ele não tem como controlar. Assunto para desenvolver outro dia). Deixo-os com o excelente e atualíssimo artigo do Tatit.

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Hoje, cada um pode gravar o seu disco e colocá-lo na Internet em busca de um ouvinte que nem chega a ouvi-lo por estar às voltas com suas próprias composições, que também serão lançadas na rede para que alguém as descubra e mostre aos outros. Esses outros geralmente estão ocupados, pois criam repertório para uma próxima investida musical que, sem gravadora e sem distribuidora, dependerá de divulgação em seus respectivos blogs, voltados aos internautas que ainda ouvem uma coisa ou outra se a fonte for conhecida ou bem recomendada. Mas mesmo esses internautas só ouvem trechos de cada música, saltando rapidamente de uma para outra, apenas colhendo impressões para realizar um novo trabalho que ficará disponível on-line.

A facilidade técnica de produção e a velocidade de circulação das obras musicais estão forjando uma realidade sonora com a qual nem sonhávamos décadas atrás. A ampliação desmedida do universo dos criadores vem abalando seriamente a capacidade de absorção dos consumidores. O fã que comprava o CD do artista agora vem presenteá-lo com o seu próprio, gravado em excelentes condições técnicas e ainda valorizado por um bom suporte gráfico que torna sua capa e seu encarte bastante atraentes. Mas o artista, que já recebera algumas dezenas de outros CDs e DVDs de outros fãs, provavelmente não terá tempo de ouvi-los (ou vê-los) pois está enfurnado num estúdio preparando novo trabalho que deverá compensar a pouca divulgação e acolhida do anterior, cujo lançamento coincidiu com uma época em que todos os ouvintes cuidavam de seus próprios discos…

Difícil compreender as novas relações de produção e consumo anunciadas no alvorecer do século 21. Não sabemos nem se estão se concretizando ou se virtualizando. Não podemos imaginar suas conseqüências e muito menos avaliá-las com os critérios ideológicos ou científicos erigidos no século passado. Por enquanto, parece-nos suficiente reconhecê-las como fenômenos irreversíveis que exigem a formação de uma nova mentalidade para o acompanhamento de seus efeitos sociais, culturais e estéticos. Nem podemos dizer ainda que algum dia estaremos em condições de julgar essas novas relações, uma vez que a compreensão, como a concebemos até hoje, pressupõe um grau de desaceleração que estará sempre em defasagem com a dinâmica alucinante da veiculação sonora dos nossos dias.

Talvez esse panorama descrito até aqui traduza mais uma tendência do que a realidade deste início de 2007. Grande parte da cena musical ainda é ocupada por nomes que se firmaram num contexto em que artista era artista e público era público. Uns faziam e outros ouviam. No entanto, mesmo esses artistas já se ressentem da pouca disposição do público para ouvir novas canções. Prefere reouvir a ouvir. As novas composições que tanto significam para o autor são apresentadas com extrema parcimônia, sempre em meio a muitas já consagradas. Ouvir é uma concessão da platéia, reouvir é o seu desejo. Ouvir é se sentir no centro do bombardeio diário das informações não solicitadas, reouvir é se proteger do bombardeio e poder escolher o que já é significativo. Outro sinal da mesma tendência manifestou-se há pouco na recepção ao novo e esperado disco do Chico (Carioca). Toda a elaboração cancional ali investida foi descartada na primeira, e talvez única, audição. Nenhuma faixa fez pensar em “Quem te viu, quem te vê” e muito menos em “Construção”. O prestígio do compositor garantiu a presença de todas as novidades no repertório do show, entretanto, do ponto de vista da platéia, era como se houvesse um contrato implícito: nós ouvimos, mas depois você canta “as boas”.

A preferência por obras assimiladas é um recurso, na verdade muito humano, de preservação de identidade. Aquilo que nos atrai é parte de nós que se desprega, mas que queremos de volta para nos sentirmos inteiros. É esse, aliás, o sentido de “objeto”. O sujeito o persegue não por veleidade, mas porque constitui um pedaço de si que precisa ser recuperado (“Pedaço de Mim”, do mesmo Chico, versa sobre isso). Assim, não há mal nenhum em querer reouvir. É um modo de repassar na memória tempos já vividos, em geral associados a idéias ou situações prazerosas, e de realinhavar conteúdos que vagam avulsos em nosso interior. É um modo de dar tempo ao tempo e de revigorar nossa identidade diante de um mundo cujo andamento açodado tende a nos despedaçar por dentro. Nessa linha, é interessante observar que os shows de hoje são sempre rituais de comunhão que atingem o seu ápice quando a platéia canta com o artista aquilo que já reouviu muitas vezes. Todos se juntam em defesa de um patrimônio subjetivo e coletivo que a “realidade” fora do auditório teima em dilapidar.

Acontece que a ampliação espantosa da faixa dos criadores, que poderia ser um bem em si, acaba produzindo no ouvinte uma espécie de defesa da própria sensibilidade (“Socorro, eu não estou sentindo nada”, diz a letra de Alice Ruiz). São tantas as canções interessantes e tantos os sentimentos transmitidos que já não podemos mais discerni-los nem incorporá-los. (“Tem tantos sentimentos / Deve ter algum que sirva”, idem). Eles nos escapam em sua maioria. Mas basta que alguns sejam fisgados e reproduzidos pelos veículos de comunicação, ou até pela atuação direta dos artistas que se esmeram em promover o próprio trabalho, para termos a comprovação de que as canções seguem respondendo ao anseio vital de desaceleração do ritmo de vida do ouvinte e continuam se convertendo em verdadeiros Leitmotiven de sua história.

Houve época em que gravar um disco era tudo que um artista poderia desejar. E só se pensava no registro de um segundo se a venda e a repercussão do primeiro fossem satisfatórias. Hoje, um CD gravado é ponto de partida para uma almejada carreira musical e, independentemente de qualquer sucesso de venda ou de crítica, o artista já se aventura num segundo disco, num terceiro, e assim por diante, até que uma canção “emplaque”. Emplacar, nesse universo, significa “permanecer”, virar objeto de reprodução na seqüência ininterrupta das criações do artista. No fundo, significa interromper momentaneamente a própria voracidade de criação em nome de um formato que precisa ser reouvido e incorporado aos ritos (ou apresentações) cancionais do autor. A produção desenfreada dos dias atuais não busca o novo em si, mas o que pode permanecer dentre as numerosas criações. Claro que existem graus de permanência. Algumas composições se transformam em hinos do autor e atingem uma permanência absoluta (ex. “País Tropical”, de Jorge Ben Jor), outras circulam apenas entre os seguidores mais próximos do artista, outras serão reconhecidas anos mais tarde, num contexto sociocultural diverso. E há, ainda, as que permanecem, mas são abandonadas pelo próprio autor, por desinteresse (ex. “A Banda”, de Chico Buarque) ou por razões de foro íntimo (ex. “Quero Que Vá Tudo Pro Inferno”, de Erasmo e Roberto Carlos). Qualquer desses graus tem sua importância e contribui para a formação das identidades pessoais e do patrimônio coletivo. E ao artista é imprescindível atingir algum grau de permanência, embora isso não lhe seja suficiente. Em geral, quanto mais o público quer reouvir, mais o compositor lhe propõe novidades, até que uma delas outra vez emplaque. Terá o artista, então, o melhor testemunho da própria vitalidade.

Jamais se produziu tanta canção de qualidade (maior ou menor) no Brasil como nos dias atuais. A oferta supera a demanda em diversos itens. É notável a rapidez com que um ouvinte se transforma em artista, muitas vezes mais produtivo que seus ídolos, e alimenta com suas composições um mercado já inflacionado de bons trabalhos, deixando perplexos tanto os demais ouvintes quanto a própria classe musical. Quanto aos instrumentistas de hoje, pode-se dizer que, experiências à parte, começam suas carreiras no ponto em que seus reverenciados mestres terminaram e atingem metas muito mais exigentes. O ofício de cancionista, embora ainda não seja reconhecido pelas instâncias formais, já é uma profissão concreta e promissora na cabeça dos jovens de agora e isso os leva a compor desde muito cedo. O problema é dar vazão a toda essa fecundidade num formato que evite o descarte sumário, decorrente do atropelo informativo, e que estimule de algum modo a reaudição.

A Internet é um campo a ser explorado, mas não faz parte de suas atribuições avalizar os produtos que circulam na rede. Sua feição caótica, embora proporcione eventuais descobertas, produz desconfianças e indiferenças incompatíveis com o universo cancional. As rádios de vasta audiência são há muito tempo cúmplices de conglomerados comerciais e só operam na faixa de grande consumo, o que as distancia cada vez mais do antigo papel de principal divulgadora das variedades sonoras de todo o país. Do mesmo modo, as televisões abertas (exceto as culturais) retiraram os musicais de sua programação, restringindo-se à utilização de canções “eleitas” do mainstream para compor as trilhas de suas novelas. Mas rádio e televisão, mesmo que quisessem novamente apoiar o segmento musical, não mais dariam conta. As condições quase provincianas das décadas de 1960 e 1970, que proporcionaram a reunião de todos os artistas importantes numa mesma emissora, a Record, são irrecuperáveis e inconciliáveis com o mundo contemporâneo. Sobram, portanto, as nostalgias: nunca houve geração musical como a daqueles anos! O auge de nossa música popular foi a bossa nova! Nunca houve tanta vibração e tanta qualidade musical como na era dos festivais! Etc.

Talvez nunca tenha havido, isto sim, tanta concentração e tanta visibilidade das principais tendências da música brasileira como naquele período. Talvez nunca tenha havido uma geração tão reouvida e, portanto, tão fundamental na formação da nossa identidade. Quando suas obras não nos eram apresentadas diretamente pela televisão, desfilavam nas paradas de sucessos programadas por diversas emissoras de rádio. Os cancionistas formavam uma classe bem delimitada e inteiramente conhecida do público. Embora o ingresso no mundo artístico fosse muito mais restrito, depois da gravação do primeiro disco e de sua inserção na então “pequena” mídia disponível, a passagem do ouvir ao reouvir era quase automática.

Atualmente, não é exagero dizer que surgem novos artistas todos os dias. Logo os teremos todas as horas, todos os minutos, e, claro, teremos também cada vez menos disposição para ouvi-los. A mídia igualmente se retrai e só reconhece uma parcela mínima desse imenso contingente de criadores que se aglomera nos espaços virtuais, nas filas de patrocínio e nos palcos alternativos de todo o Brasil. Daí a importância atual de algumas instituições bancárias, ao lado de empresas mais arejadas, que vêm investindo significativamente em projetos de revelação e difusão de talentos ao menos nos principais centros de cultura do país. Daí a importância do Sesc, outro núcleo extraordinário de veiculação das iniciativas artísticas de alto nível, que, particularmente em São Paulo, realiza um trabalho ininterrupto de circulação das artes brasileiras – e que, neste exato momento, vê parte de seus empreendimentos ameaçada por lamentáveis perdas de arrecadação.

É no interior dessas salas de espetáculo que a música brasileira pulsa com o mesmo vigor de todos os tempos. Quem as freqüenta tem tido oportunidade de se imbuir das incríveis dicções cancionais de nossa época. Em sua maioria, elas não cabem mais na grande mídia, mas pela amostra de poucos que puderam migrar desse mundo artístico periférico para o centro de médio e grande consumo, onde podem ser devidamente reouvidos (citemos, entre muitos, os compositores-intérpretes Zeca Baleiro, Zélia Duncan, Lenine, Arnaldo Antunes, Chico César e Vanessa da Mata), já vemos que nada devem à geração dos anos sessenta e setenta. Com a vantagem de que ainda estão no primeiro tempo de sua partida musical.

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3 comentários em “Música para reouvir, por Luiz Tatit

  1. ana carolina disse:

    O blog é muito instigante e provocativo, gostei bastante das propostas de estudo fragmentadas, musica por musica. É bem dedicada a sua escrita.
    Este post em especial (entre os blogs que li hoje) me chamou a atenção.
    É ironico isso, vc escreve sobre musica das antigas, e de repente aparece um post se perguntando se nao deveria falar sobre musica de agora. Bem, vc até pode, e pelo jeito que vão as coisas por aqui, não me espantaria se vc o fizesse tão bem quanto sobre musica boa, digo, musica velha né? Mas o tipo de informação que vc pode gerar falando sobre musica antiga provavelmente vai ser muito mais legal de estudar, analisar, e escrever sobre. Vc pode alternar também, dar uns salpiques moderados, pode ser interessante, enfim… escreva muito.

    Interessante também a analogia sobre o reouvir. Por mais óbvio que tenha parecido quando a li, não tinha desenvolvido nem verbalizado dessa maneira o que sinto quando ouço canções de outro tempo.
    De fato, eu não prefiro musica antiga porque veto as novidades, por pirraça, por conservadorismo, nem nada disso… eu diria apenas, que salvo algumas excessões, nada me toca como aquelas musicas. O meu gosto musical não se adequa a era que vivo, e nem toda esse caos de novidades e estrelismos brotando de computadores. Eu bem que podia ter nascido em um tempo em que as pessoas nao só ouvissem musica, mas também sentissem e entendessem.
    Concordo contigo sobre os sentimento de segurança e de até nos abstermos do mundo caótico da musica atual reservando meus ouvidos aos classicos, eu diria que, assim como sofro de uma carencia incurável por música boa, sinto (e muita gente deve sentir as mesmas coisas) falta de ler com qualidade na internet, principalmente em blogs que tratam de assuntos como musica.
    Por essa razão provavelmente eu volte a visitar a sua pagina, uma sensação de segurança ronda o seu blog.

    • Ana, outro dia eu estava no Facebook fazendo uma dessas brincadeiras de “liste os seus 10 álbuns favoritos”, e muitos amigos estavam fazendo também, inclusive um que é jornalista de cultura e crítico musical. E eu me dei conta que mesmo ele, o novidadeiro em pessoa, praticamente só tinha citado discos da época em que fizemos faculdade juntos, na virada 80/90. O que me levou a comentar que, por mais que a gente e ouça coisas maravilhosas depois, o que forma nossa escuta é o que a gente conhece até os vinte e poucos anos. São coisas que, mesmo que a gente não ouça nunca mais, não precisa, porque sabe de cor, e passam a servir como referência para o que vem depois – seja por identificação ou por contraste.

      Na verdade, fiz um certo charminho ao dizer que só trato de música velha. Mas gosto da ideia de passar uma segurança por aqui, mesmo quando trato de novidades, porque cuido de não dizer simplesmente “olha que maneiro!”, mas ouvir com cuidado e falar sobre o que ouvi – ou seja, tento transformar mesmo as novidades em música velha, no sentido de digeri-la devagar, degustando, sem a pressa que grassa hoje em dia de conhecer sempre a mais nova canção, o mais novo lançamento, Obrigado pelos elogios e incentivos, é isso que faz a gente querer continuar. Abraços.

  2. […] na internet. Assim surge esta corrida enlouquecedora de autopromoção. Luiz Tatit possui um artigo ótimo sobre este […]

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