João de Santo Cristo contra o diabo na rua no meio do redemunho

O filme feito a partir da canção Faroeste Caboclo, ao que eu saiba, já está em fase de montagem. No sítio do filme (aqui), encontrei uma pequena entrevista de Arthur Dapieve dada à produção do filme. Nela, ele disseca suscintamente as influências de Renato Russo ao compor esta epopéia que se insere numa tradição da arte brasileira em várias artes: desde a tremenda narração jornalística de Euclides da Cunha, passando pelo Augusto Matraga de Guimarães Rosa e pelo Anjo Guerreiro contra o Dragão da Maldade, de Glauber Rocha. Ainda volto a esta canção aqui, para fazer minha própria análise, mas os comentários do Dapieve são muito a propósito, não fosse ele conhecedor de rock em geral e de Legião em particular. E mais não digo, que a própria entrevista já o apresenta.

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Em outubro de 1979, aos 19 anos, Renato Russo grava sua primeira leva de composições para o repertório de apresentações da banda Aborto Elétrico. A fita-cassete, intitulada Saturno devorando um dos seus filhos, já continha as faixas Que País é Este?, Quanto Tempo, Ficção Cientifica, entre outras músicas emblemáticas. A canção Faroeste Caboclo – um rock em cordel, de mais de 9 minutos de duração e de 159 versos – é composta nesse mesmo ano, com a mesma finalidade: ganhar os palcos do Plano-Piloto e das Cidades-Satélites afora.

As composições originais de Renato Russo desse período alimentaram os shows de Aborto Elétrico, e as suas apresentações solo de Trovador Solitário. Esse repertório recheou ainda os álbuns de lançamento do Capital Inicial e do Paralamas do Sucesso, e serviu para, em 1987, o Legião Urbana estourar com seu terceiro LP, Que País É Este? 78/87. Nesse momento, a longa e complexa canção Faroeste Caboclo surpreendeu a todos, ao se tornar a “música mais pedida” das rádios FM do Rio de Janeiro em 87 e deixou no ar a sensação de que o rock podia ser 100% brasileiro.

Quem nos ajuda a decifrar “qual a razão de ser e a estória” de “Faroeste Caboclo” é o jornalista e escritor Arthur Dapieve, autor dos livros BRock – O rock brasileiro dos anos 80 (1995) e Renato Russo – O trovador solitário (2000), que gentilmente concedeu à equipe do filme Faroeste Caboclo uma entrevista.

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Faroeste Caboclo – Considerando o contexto político de 1979 e a visão crítica que o adolescente Renato Russo tinha da cidade em que morava – “Aconteceram coisas terríveis aqui em Brasília, só que ninguém sabe. Muita gente morreu aqui na construção da cidade. Mas, para ocultar cadáveres, os candangos que morriam eram misturados com concreto” –, qual a relação entre a letra de Faroeste Caboclo e o movimento e ideário Punk Rock que surgia concomitantemente?

Arthur Dapieve – A relação é muito tênue, para não dizer inexistente. Em Faroeste caboclo, como noutras músicas da sua primeira fase solo, como o Trovador Solitário, a influência é outra: Bob Dylan, que o Renato adorava antes ainda de ter ouvido uma banda punk pela primeira vez. Faroeste Caboclo tem a ver, por exemplo, com Hurricane, o épico no qual Dylan falava do boxeador negro preso injustamente por vinte anos. O Renato a mencionou claramente como influência para Faroeste. É uma longa canção que conta uma história com princípio, meio e fim, na tradição de menestréis medievais, na tradição da própria folk music. Se há algo de distantemente punk na música do Renato, há a crítica social, mas Hurricane também tinha essa característica e Dylan nunca foi punk.

FC – Sabe-se que em dezembro de 78, Renato Russo comemorou o sucesso da temporada do teatro da Cultura Inglesa em uma noite marcada por Luiz Gonzaga, pelos ritmos do forró, do repente e do baião. Um ano depois, Faroeste Caboclo soa como uma experimentação formal entre o Rock e a música nordestina. Isso procede? Há outros exemplos de experimentações formais na obra de RR nesse período do Trovador Solitário ou Faroeste Caboclo é um caso singular?

AD – Isso sim procede. No formato banquinho e violão do Trovador Solitário, era possível se aproximar de outros tipos de música popular, como Domingo no Parque, do Gilberto Gil. E o Renato usa bem uma levada meio nordestina para caracterizar o entorno de Brasília, para onde os candangos foram empurrados depois que a cidade ficou pronta. Não, Faroeste Caboclo não é bem única. Eduardo e Mônica é outra música dessa fase, que apareceu ainda antes, no LP Dois, e também tinha lá seus flertes com outras formas de música popular brasileira, inclusive o mineiríssimo Clube da Esquina, de Milton Nascimento e companhia, além da referência explícita ao nome do Caetano.

FC – Em seu livro, Renato Russo – o trovador solitário, você divide em fases a produção artística de Renato Russo – esse herói romântico, sensível, solitário e deprimido. Nota-se uma oposição entre a adolescência e a maturidade, que ajuda a explicar as transformações entre temas e “estados de espírito” do artista. De que forma – e por quê – Faroeste Caboclo teria atravessado as diferentes fases da obra de RR? Em que medida esta música permaneceu significativa na vida e personalidade do artista no decorrer do tempo?

AD – Olha, há uma característica importante que eu gostaria de acrescentar às quatro que você associa ao Renato Russo, quando fala “esse herói etc’. Ele era muito bem-humorado também, não ficava deprimido o tempo todo. Gostava de fazer brincadeiras, inclusive com a própria voz. Quanto à pergunta propriamente dita, ele nunca deserdou nenhuma música que fez na vida e com “Faroeste Caboclo” não teria como ser diferente. Na verdade, a única que ele hesitou em gravar foi Que País É Este, na esperança de que o Brasil descrito na canção mudasse, mas como isso não aconteceu, ele acabou gravando também, no LP do mesmo nome. E ela continua atualíssima…

FC – “Elas [as letras de Quatro Estações] demoraram porque eu tinha que tirar Brasília do meu sistema” – Em sua opinião, sobre o que fala Faroeste Caboclo e qual a relação do tema com a Brasília intoxicante de Renato Russo?

AD – Os anos formativos do Renato foram passados na capital federal, embora a gente até possa dizer que a maturidade artística só foi alcançada quando a Legião Urbana veio para o Rio. Mesmo então, porém, muitas músicas da banda continuaram tendo Brasília como referência, normalmente dissimulada, como Eduardo e Mônica, mas em Faroeste Caboclo, ele sentiu a necessidade de ambientar claramente aquela saga no Distrito Federal.

FC – Em seu livro, Renato Russo – o trovador solitário, você interpreta a personagem João de Santo Cristo como “um misto de traficante e santo, a personificação do próprio Brasil”. Por quê?

AD – João de Santo Cristo é uma espécie de Macunaíma, outro personagem que claramente sintetiza algumas perturbadoras características brasileiras, mas um Macunaíma feroz, sem jeitinho e com algum caráter. Essa convivência entre opostos, como santo e traficante, essa ambiguidade é uma das formas mais consagradas de se descrever o Brasil. E é consagrada porque faz pleno sentido na nossa realidade. Haja vista, até hoje, a boa imagem de traficantes bem piores que ele entre certas faixas da população…

FC – Quais as características desta poesia, em termos de métrica e de rima? Podemos fazer um paralelo com o estilo da literatura beat norte-americana que tanto influenciou os textos de Renato? Que outras influências formais coexistem em Faroeste Caboclo?

AD – Essa pergunta talvez pudesse ser melhor respondida por um professor de literatura, porque há na letra uma farta convivência de influências, pois Renato era um leitor ávido de poesia, embora ela seja formalmente bem simples no modo como é tramada e rimada. Entre as referências podem estar os poetas beat, sim. Mas também os repentistas nordestinos, Fernando Pessoa ou Brecht.

FC – Na versão do Legião Urbana, Faroeste Caboclo relaciona instrumentos e estilos musicais de acordo com a evolução da letra. Notamos a passagem do repente, à viola caipira que introduz o “Boiadeiro”, ao reggae do “plano santo”, e ao rock do “bandido temido e destemido”. Esta observação tem fundamento?

AD – Total fundamento. Apesar de ser antiga, ela foi gravada numa fase em que a Legião Urbana já tinha experiência de estúdio e maiores horizontes estilísticos, além do punk primordial. Isso ficaria ainda mais marcado no disco seguinte, As Quatro Estações.

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2 comentários em “João de Santo Cristo contra o diabo na rua no meio do redemunho

  1. Ana Carolina disse:

    Incrível, não sabia ainda que faroeste caboclo vai ser filmado, a ideia soa interessante!
    Renato Russo entrou nessa ordem na minha vida: escreveu, cantou , agitou , revoltou , expressou, sensibilizou, marcou.

    Adoro ouvir Renato Russo, tanto no aborto elétrico quanto na legião. Sensibilidade das boas, inspiração juvenil. Eu diria até, que antes de ouvir – e interpretar – Renato Russo, eu não sabia lidar com o fator poesia nas canções, não entendia, mas comovia, de alguma maneira que eu não sabia verbalizar… e como pode-se perceber… até hoje não sei.

    A entrevista está muito interessante.
    O post do Chico matou a pau! Não tive moral nem pra comentar sobre.
    Parabéns pela escrita !
    carol

  2. Legal, Carol, obrigado. Falei aqui no blog em outro post que o Renato Russo foi meu irmão mais velho, como de tantos outros. Certamente ele abriu portas de percepção artística para muitos, com as múltiplas referências e influências que o Dapieve assinala só numa música “de rimas pobres”, como o Renato afirmava. O pessoal consumia estas referências sem as conhecer, sem nem ter noção do tamanho que uma canção pode ter, independente da duração. Aprendi muito com ele também, sou muito grato. Abraços.

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