Egberto, a canção instrumental e suas letras

Sobre letrar melodia que não foi pensada para ser letrada. Sobre o formato de canção instrumental. A canção se sustenta sem letra? Sim, mas porque de alguma maneira evoca uma letra inexistente. Daí, a tentação de letrar é muito grande, às vezes irresistível. Só que às vezes esta canção que evoca esta letra se torna completa em si mesma na evocação – a evocação dispensa a presença, se basta. Daí, a letra pode se tornar mera redundância, ou pior, atrapalhar esta completude, como se a presença da letra evocada se transformasse em decepção por ela não corresponder a tudo o que a melodia parecia prometer.

Outro problema, mais simplório, é o da melodia feita para instrumento e que agora, com letra, é transposta para a voz, que mesmo tendo agilidade tem a questão da inteligibilidade para resolver. Na canção, a letra e a melodia (sem falar dos outros elementos) se sublinham mutuamente. Podem ter vida independente fora da canção, mas o que faz a canção é a relação entre ambos. Há casos de melodias posteriores (já falei disso aqui) e de letras posteriores (ex: Coração de Estudante, de que falei aqui) em que este encontro aconteceu, e outros em que há um desencontro evidente (exemplo arbitrário: Escorregando, letra do Hermínio Belo de Carvalho sobre composição, difícil até ao piano, do Ernesto Nazareth, em homenagem a um ecologista, e que resultou no verso inicial: meu coração é um manguezal ameaçado de extinção (!))

O que não significa que uma melodia desafiante para o cantor seja prejudicial, é claro. Guinga é mestre em linhas melódicas complicadas, muitas mesmo pensadas tanto para a voz quanto para o violão – que às vezes acompanha a voz nota por nota, como que para ao mesmo tempo apoiá-la e impedi-la de tomar atalhos… No entanto, na parceria com Aldir Blanc, este radicalizou a proposta, dizendo mata onde Guinga dizia esfola, e fabricando letras quase no limite da esquizofrenia (não fosse Aldir psiquiatra de formação) apontando em múltiplas direções, numa sucessão de imagens, jogos verbais, citações e trocadilhos tão desafiantes quanto a própria melodia.

Mas então quando letrar? E quando respeitar a canção que já existe? E quando acrescentar a ela coisas que ela nunca pensou? Quando a canção instrumental se basta por si? A tentação de letrar uma melodia de que se gosta me parece análoga à do cantor que quer cantar uma canção simplesmente porque gosta dela, independente do que tenha a acrescentar a ela com sua interpretação. E no entanto a resposta está aí mesmo: se há algo a acrescentar, a letra vale, mesmo que não anule a possibilidade da versão instrumental.

Délia Fisher gravou o álbum Saudações, Egberto, só com composições dele, fundamentalmente canções. Egberto tem uma relação bissexta e bastante particular com a forma canção, tendo feito algumas com letra, especialmente nos anos 70, período sobre o qual Délia se debruça. Acontece que há então canções que receberam letra do próprio Egberto, as letradas por parceiros na época, as letradas depois, e as que permaneceram sem letra, por qualquer dos motivos listados acima neste texto: por suas linhas melódicas serem pensadas para o instrumento e não caberem na voz (muito menos com a articulação de uma letra), ou por já conterem em si, ao menos na visão da Délia, tudo o que podia ou precisava ser dito. E em alguns casos, trabalhando na fronteira de várias destas possibilidades.

Lôro, com Egberto Gismonti

Cor de Sol (Lôro), com  Délia Fischer e letra de Eugenio Dale

Já ouvi a versão de Lôro (que se tornou Cor de Sol) com letra dezenas de vezes, e ainda não consegui decidir se valeu a pena colocá-la – o que me parece que decide a questão pelo sim, só por suscitar esta questão com tanta força. Não consigo concluir se a melodia de Lôro se presta para cantar ou não, com seu stacatto em velocidade e frases enormes que quase exaurem o fôlego; se a menção ao título original da canção, de passagem num verso da segunda parte e mudando o sentido da palavra, que no original era o apelido comum dado a papagaios (Nota posterior: o próprio Eugenio, em comentário abaixo, gentilmente me corrigiu, esclarecendo que Lôro se refere bem-humoradamente ao albino Hermeto Paschoal. Reouvindo a música, me pergunto como não pensei nisso antes), resolve o assunto ou soa forçada; e principalmente, se a letra de Eugenio se impõe para formar uma unidade com a composição de forma a se tornar definitiva, como acontece em Coração de Estudante.

Para além disso, há ainda a relação de Egberto com o formato. Ao contrário de compositores populares, que lidam praticamente apenas com a canção por toda sua obra, Egberto é cancionista eventual, e só aborda o formato quando considera que a composição deriva para ele – ou seja, para ele a canção é um ponto de chegada, e não de partida como para a maioria dos compositores populares. Só isto já muda o matiz de suas canções, por virem de um compositor que não é habituée do gênero. Lembro que uma vez Carlos Drummond de Andrade ouviu de um colega escritor que os sonetos dele não eram sonetos, ou seja, mesmo quando respeitavam estritamente as regras da forma, havia algo neles que extrapolava o formato, advindo de ele não ser um poeta preso a formatos em sua obra. O mesmo acontece com Egberto: de certa forma, suas canções não são canções, ou, inversamente, são mais canções que as canções – e isto não está ligado ao fato de terem letra ou não, pois algumas tem letra do próprio Egberto e passam a mesma impressão.

Diante disso, a decisão se torna mais difícil, pois corre-se o risco, como eu disse na abertura do texto, de que a colocação de uma letra reduza a canção a apenas… uma canção. Em Lôro é exatamente isto que acontece, mas, surpreendentemente, a mera cançã0 que surge é uma excelente canção. Ante a impossibilidade absoluta de fazer uma letra só de monossílabos para fazer frente aos stacattos, por exemplo, Eugenio sensatamente deixa isso para lá e vai em outra direção, enchendo a letra de verbos que indicam movimento, especialmente na segunda parte – enquanto na primeira ele atenua este efeito com versos mais descritivos de uma paisagem algo impressionista. O resultado é uma visão de Lôro que é claramente muito diferente da versão original de Egberto, que não a suplanta, porque (atenção para a sequência das palavras) consegue não competir com ela.

Enfim, continuo sem conclusões, a regra é não ter regra, ou melhor, a regra é ser exceção. Porque, se cada canção é única, pode mesmo ser duas, como é o caso, ou múltiplas, na escuta de cada um. Lôro é o caso da situação-limite, que foi o que me intrigou e me levou a querer analisá-la. Nas outras faixas do álbum, a decisão parece mais fácil. Parece. Mas a escolha, ou a percepção, da presença ou ausência de uma letra, no fim, é de cada um. Seria fácil imaginar várias possibilidades de letra para Maracatu, que fecha o álbum Saudações Egberto. Délia Fischer deixou-o sem letra, mas com voz. Não para fazer da voz mais um instrumento (já tratei disso também, não acho que isso seja possível), mas, pelo contrário, para lembrar que, mesmo quando sem letra, mesmo quando a melodia está num instrumento, paradoxal (ou dialeticamente), o lugar da canção é na voz. E vice-versa.

Maracatu – Délia Fischer

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3 comentários em “Egberto, a canção instrumental e suas letras

  1. Eugenio Dale disse:

    Tulio,

    Obrigado!
    Um privilegio ler seu texto!
    Partilho todas as suas duvidas, mas nao pude dzer nao ao desafio!
    Mas parafraseando vc, se gera tanta duvida, valeu a pena!
    Oq me ajudou foi saber q Loro eh uma melodia feita pro Hermeto, o loro em questao, uma homenagem/inspiracao, concentrando no triptico original Hermeto/Brasil/MusaMusica o assunto da letra. Nao ajuda na transpiracao, mas facilitou ter um alvo em comum com Egberto. Foi dificil a manutencao dos acentos originais da melodia, dubios como sempre, e sem os toques a aprovacao do parceiro eu nao teria terminado. Delia tambem direcionou muito o trabalho, conhecendo melhor do q eu a obra/personalidade do Egberto.

    Obrigado novamente, seus textos e seu tesao pela cancao sao deliciosos!
    beijo,

    Eugenio Dale

    • Eugenio, é uma honra e uma alegria ter você por aqui. Agradeço muito pela generosidade da correção quanto ao significado do título da composição original, a ligação com o Hermeto que, agora que já conheço, me parece óbvia, mas de que não sabia. Se descobrir a Délia cantora já fora uma ótima surpresa no álbum Presente, este foi a renovação desta descoberta. E agora, quando eu penso da Lôro, ela me vem com a referência da letra – o que significa que, no fim das contas, ela “colou”. Grande abraço e parabéns.

  2. Tem música que dispensa letra.”Gente Humilde”,por exemplo.

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