Queremos Miles!

A exposição com o nome deste post está em cartaz no Centro Cultural Banco do Brasil do Rio de Janeiro, até 28 de setembro. Em princípio, acho exposições sobre música incômodas. Se a matéria de criação de um artista é a música, por mais que as imagens de sua vida e obra sejam importantes – fotos, capas de álbuns etc. – o mais importante fica de fora, e sempre acho tudo muito chato. Mas desta vez conseguiu-se impedir isso de acontecer. A exposição Queremos Miles é cheia de música, e música em ótimas condições de escuta. Ao longo de toda ela há salas tratadas acusticamente em que se podem ouvir exemplos das diversas fases de Miles, do cool ao hip-hop – faixas inteiras, com cadeiras para ouvir com calma. Com isso, melhor reservar uma tarde inteira para aproveitar. Vale a pena. As imagens, então, passam a ilustrar com propriedade o que se ouve, em vez de cairem no vazio sem referência a não ser para quem já conhece bem, como de costume.

E aí eu aproveito para destacar o trabalho do CCBB Educativo, onde já trabalhei, que tem a tarefa de criar mediações entre público e atividades do CCBB – laboratórios de criação, atividades de música, vídeo, artes plásticas que permitam compreender e mesmo interagir com o que é exposto, apresentado ou seja lá qual for o verbo, na programação do CCBB. Não são atividades exclusivas para crianças, como muitos pensam, são para todo tipo de público e não tem nada de tatibitate nem de “aprenda brincando!” – mas são divertidas. Uma das atividades do Educativo é justamente a visita mediada às exposições, e, no caso desta, passar uma hora traçando relações entre música e imagem pode revelar detalhes insuspeitos. Recomendação dupla, portanto: a exposição e a mediação.

Aliás, tripla. Porque uma das mediações possíveis do Educativo também é criar revistas para educadores e cadernos de mediação para o público, em que dá algumas informações e sugestões de leitura para as exposições. O caderno de mediação para Queremos Miles teve a redação desde que vos escreve, e dá uma geral desde o conceito de música até a influência do jazz na música brasileira, passando pelo próprio Miles, claro. Aqui estão alguns trechos centrais do caderno, como aperitivo. Tomara que abram mesmo o apetite para ir lá.

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jazz surgiu no início do século XX, nos Estados Unidos, como uma mistura de várias tradições musicais, mas principalmente as trazidas pelas culturas africanas, dos escravos, de forma similar à que gerou o samba aqui no Brasil. E, de fato, nos dois casos surgiram estilos musicais que se tornaram preponderantes em suas culturas – lá, além do jazz, apareceu mais tarde o rock na mesma árvore genealógica. E, assim como o samba e o rock, o jazz sofreu nos seus primórdios enorme discriminação por ter origem jovem, negra e nas classes mais pobres da sociedade. Aliás, a palavra jazz era usada como gíria para “sexo” – exatamente como o funk, décadas depois. Tratava-se de um estilo de música dançante, que cabia tanto em grupos pequenos quanto em orquestras populares.

A partir da década de 1920, o aparecimento de Louis Armstrong inicia uma mudança. Extraordinário trompetista, Satchmo, como era conhecido, abre tremendas possibilidades ao jazzcomo música de improvisação. Enquanto isso, a formação de grandes orquestras com arranjos escritos e pouca improvisação tornava o jazz aos poucos mais palatável para o público branco. Da década de 1940 em diante, o jazz perde força como música de massa, e a maioria das big bands se desfaz devido ao alto custo para mantê-las. O jazz torna-se uma música de grande complexidade tocada por grupos pequenos e com um público mais restrito, perdendo sua característica de dança e tendendo a ser visto como uma “música para músicos”.

Mas esta característica de exploração formal já estava no DNA do jazz, no contexto histórico de seu surgimento. Na primeira metade do século XX, a arte mundial deu uma guinada, e formas consagradas se desagregavam e eram reorganizadas sob novos parâmetros: a pintura abandonou progressivamente a figuração, com o cubismo e o abstracionismo; a música erudita exauriu suas formas tradicionais e mergulhou no atonalismo; fotografia e cinema se firmavam como formatos artísticos; pipocavam movimentos vanguardistas como futurismo, surrealismo e dadaísmo, que tentavam dar conta das mudanças aceleradas que ocorriam com o mundo, passando de uma aparente prosperidade para a convulsão das Guerras Mundiais.

Estas transformações têm sua contrapartida na música popular. O jazz, acompanhando-as, foi a trilha tanto para o otimismo exaltado da belle époque, no formato do swing, quanto para os tempos duros da Segunda Guerra Mundial, com o bebop, apropriando-se de conquistas como as novas possibilidades harmônicas, mas também reagindo à falta de liberdade do instrumentista ao dar asas à improvisação e ao ritmo.

Não é casual que Miles Davis seja chamado por muitos de “o Picasso do jazz”. Em comum a ambos, a procura incessante de novas formas de expressão, que os levou a fundir estilos, criar outros tantos e passar por várias fases muito diferentes entre si, sem nunca perder sua assinatura. Mas, mais que isso, ambos encarnaram, em suas transformações pessoais, as transformações do século, promoveram um reencontro de suas modalidades artísticas com influências e aspectos que elas pareciam ter deixado para trás.

Miles caminhou antes – Miles ahead, milhas à frente, como o título de um álbum seu – em direções que desesperaram os puristas. No final da década de 1960, Miles se deu conta de que o jazz se metera numbeco sem saída, enquanto a música tomara outros caminhos. Ao longo dos anos seguintes e até sua morte, ele, que nunca perdera o blues de vista, passou a flertar também com o rock, o soul, o funk efinalmente, com a música eletrônica. Nos anos 1980, gravou músicas de artistas pop como Cindy Lauper, Prince (que ele chegou a comparar a Duke Ellington) e Michael Jackson, e declarou que muitos dos standards do jazz eram nada mais que música pop de outras épocas, e que, portanto, ele estava apenas atualizando seu repertório.

Miles tocou com músicos de rock, como Darryl Jones, que integraria os Rolling Stones; baixou seu cachê para abrir shows de bandas como o Grateful Dead; colocou instrumentos indianos como sitar e tabla emseu grupo; solou seu trompete sobre bases funk; gravou usando o pedal wah wah no trompete! Foi acusado de querer sucesso a todo custo e diluir o jazz na música pop. Porém, na mesma época, estudava a fundo a obra do compositor de vanguarda Karlheinz Stockhausen, com resultados que alguns críticos de música, sem conseguirem classificar, chegaram a chamar de “música espacial”. O uso de recursos como edição de gravações e efeitos eletrônicos – outra experimentação de Miles – era semelhante tanto ao que vinha sendo feito por artistas pops como os Beatles, quanto a composições eruditas contemporâneas.

O ponto de ligação entre todos estes Miles talvez esteja na que é considerada sua obraprima e um dos álbuns mais importantes da história do jazz. Em Kind of blue, Miles lança mão de harmonias modais, o que simbolizou em seu trabalho uma porta para toda uma gama de tradições não-ocidentais, fazendo emergir uma raiz africana, com sua reafirmação vigorosa do blues e o uso de ritmos hipnóticos, melodias circulares, acordes em suspensão. Logo a primeira faixa, “So what?” (E daí?), é baseadaapenas em dois acordes que se repetem, remetendo um ao outro. Era um mundo de possibilidades que Miles – e não apenas ele – passou o resto da vida explorando e desenvolvendo.

Miles causou polêmica por toda a sua vida, sem medo de apontar em direções inesperadas. Com isso, mudou conceitos do jazz, por considerar que a exploração improvisatória já não era suficiente para seu desenvolvimento. Mas sua visão de futuro tem a ver com uma reconciliação do jazz com outras ramificações da música negra, sem saudosismo, e sim reencontrando essas vertentes onde elas foram dar – em músicos como Jimi Hendrix e James Brown. Sua visão do jazz se torna uma síntese da históriada música negra americana, sem deixar de se comunicar com outras tradições, como o jazz sempre fez.

So What?

Can I play with U? (Red riding hood) – Prince e Miles Davis

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4 comentários em “Queremos Miles!

  1. Assis Furriel disse:

    Caro Túlio,

    parabéns por esse texto muito bem escrito. Cheio de informações, apresenta-nos uma verdadeira aula de história de arte e da música. Miles Davis merece! Fiquei com vontade de conferir. Acho que é essa a sua proposta, não?

    Abração.

  2. simone disse:

    Querido, tb amei a exposição. Aquele quarto escuro no fim da caminhada, tocando Miles foi tudo de bom. Me estiquei no chão, fechei os olhos e viajei. Como não viajaria? As imagens tb eram bárbaras. Que vida aquele homem teve…E não esqueçamos do título da exposição. Foi perfeita mesmo. O CCBB me surpreendeu. O que vc achou da exposição “I am a cliché-estética punk”, com fotos de Lou Reed, Wendy Warhol and so on…? Só fiquei curiosa…
    Bjs, Simone

    • Simone, a curadora da exposição I am a cliché é a mesma da do Miles, e fiquei com a impressão de que uma serviu meio de teste para a outra, mas achei também a do Miles muito mais completa, contando uma história, enquanto a do punk ficou meio com pontas soltas, em comparação. E também, é voltada para a parte visual, enquanto a do Miles é dividida igualmente entre músical e visual – o que acho que faz muito mais sentido. Ainda assim, ver uma foto do Lou Reed novinho, quase um adolescente, não tem preço… Beijão.

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