Gil e a trilogia dialética dos Re – Parte 1

Refazenda, Refavela, Realce. As três canções de Gilberto Gil, todas dando nome a álbuns, formam uma trilogia, segundo o próprio – noves fora o samba Rebento, que segue a linha do prefixo mas não ganhou autonomia suficiente para comandar um álbum, e Refestança, que não é canção e sim o álbum gravado ao vivo por Gil e Rita Lee, e que segue a linha mais para fazer um brincadeira. Trilogia cheia de sutilezas e também de pontas soltas. Soa a mim como o modelo clássico da dialética: tese + antítese -> síntese. Trato neste primeiro post das duas primeiras canções, e no segundo da terceira.

Refazenda – do álbum de 1975

Refazenda resultou de uma justaposição de nonsenses. Começou com um brainstorm com sons: fui aleatoriamente escolhendo palavras que rimassem e cheguei a um embrião interessante – um desses troncos de árvores tronchas sobre os quais o cinzel dos artistas populares vai trabalhar para fazer esculturas loucas, à la Antonio Conselheiro, do Mario Cravo, nascida de um tronco com dois galhos de braços abertos. O esboço era maior e muito mais absurdo: não tinha sentido nenhum! Aos poucos fui criando sentidos parciais a certas frases, até desejar um sentido geral para todas.

Os versos foram feitos antes da música, obedecendo a um ritmo que eu tinha na cabeça. Para o primeiro, escolhi o alexandrino, um dos preferenciais do cantador nordestino, pois queria a priori uma canção com esse direcionamento country.

“Abacateiro, acataremos teu ato” – Na época pensaram que eu me referia à ditadura militar (o verde da farda) e ao ato institucional, o que nem me passou pela cabeça. O que me veio mesmo foi a natureza em seu contexto doméstico, amansada, a serviço da fruição – daí a idéia de pomar e das estações. Refazenda é rememoração do interior, do convívio com a natureza; reiteração do diálogo com ela e do aprendizado do seu ritmo.

Linguagem transgressiva – “O período em que compus a canção é permeado pelo nonsense ou o que o tangenciasse; por um despudor audacioso de brincar com as palavras e as coisas; por um grau de permissibilidade, de descontração, de gosto pela transgressão do gosto. É uma fase muito ligada aos estados transformados de consciência, pelas drogas, e a consequente multiplicidade de sentidos e não-sentidos.”

Guariroba – “Nome de uma palmeira do Planalto Central, a palavra dava nome também a uma fazenda que um grupo de amigos (Roberto Pinho, Pontual e outros) tinha a uns cem quilômetros de Brasília. Chegou-se a pensar em criar lá uma comunidade alternativa, onde nos juntássemos todos com nossas famílias. Não deu certo, e a fazenda foi vendida.

Estes são os comentários feitos por Gil em seu site, na página do álbum Refazenda. Há pouco a acrescentar – fora o fato de que eu fui um dos que embarcaram na onda (é possível embarcar numa onda?) de pensar que a canção era, ao menos em parte, um recado à ditadura – especialmente por versos como Abacateiro, sabes ao que estou me referindo e por causa do grupo de atuação estudantil Refazendo, formado na USP na mesma época da canção. Teorias de conspiração à parte, ainda tenho para mim que sobra algo de referência política na letra, mas misturada e diluída em outros conteúdos, já que esta questão política era algo realmente importante para o Gil, e não deixaria de vir à tona de alguma forma num brainstorming como o que originou esta canção. Mas percebo também que reduzi-la a uma mera canção de protesto cifrada – mesmo que toda ela fosse decifrável neste sentido – seria emprobrecê-la, tirando dela este caráter transcendente que Gil aponta.

Refavela – do álbum de 1977

Em 77, eu fui participar do Festac, festival de arte e cultura negra, em Lagos, na Nigéria, onde reencontrei uma paisagem sub-urbana do tipo dos conjuntos habitacionais surgidos no Brasil a partir dos anos 50, quando Carlos Lacerda fez em Salvador a Vila Kennedy, tirando muitas pessoas das favelas e colocando-as em locais que, em tese, deveriam recuperar uma dignidade de habitação, mas que, por várias razões, acabaram se transformando em novas favelas.

Para abrigar os 50 mil negros do mundo inteiro que para lá acorreram, tinha sido construída uma espécie de vila olímpica com pequenas casas feitas com material barato e um precário abastecimento de água e luz, que reavivou em mim a imagem física do grande conjunto habitacional pobre. Refavela foi estimulada por este reencontro, de cujas visões nasceu também a própria palavra, embora já houvesse o compromisso conceitual com o re para prefixar o título do novo trabalho, de motivação urbana, em contraposição a Refazenda, o anterior, de inspiração rural.

A esses fatores se somaram outros, locais: a mobilidade, por vezes difícil, outras vezes facilitada, dos negros cariocas na relação morro-asfalto e o movimento da juventude black-Rio, que se instalava propondo novos estilos de participação na questão da negritude no Brasil e no mundo, com mais atividade cultural e absorção de elementos do discurso e da luta negra da América e da África.

A dificuldade com que a história tem-se defrontado para proporcionar o verdadeiro resgate da cultura e da natureza dos negros, exatamente pela manutenção reiterada da sua condição paupérrima; a coisa da ‘miséria roupa de cetim’, da ‘Belíngia’ (Bélgica/Índia), esse binômio de disparidades – Refavela é sobre isso. A informação forte da música está nas duas primeiras estrofes; perto delas, o resto é ornamento.

A oposição temática entre as duas canções é óbvia, mas menos óbvia é a escolha dos tratamentos dados a uma e a outra. Se para Refazenda Gil escolhe um rítmo que é uma estilização de vários ritmos rurais, para Refavela (os comentários dele saíram daqui) ele faz uma fusão de levadas africanas com uma pitada de soul, antevendo ou prefigurando as batidas de tamborzão dos bailes funk cariocas. E, se a letra de Refazenda era elíptica e quase surrealista, a de Refavela é direta e afirmativa, quase didática. Neste sentido, soa muito mais ativista e política que a outra, com todas as mensagens cifradas que ela pudesse ocultar.

A relação entre Refazenda e Refavela não é apenas de oposição, mas, numa visão histórica, também é passagem – de um Brasil que na década de 70 passou a ter mais de 50% de sua população nas cidades. Mas também há um impasse entre ambas, algo que não se resolve por si. O que Refazenda tem de contemplação, de recolhimento, da leveza pelo arRefavela tem de ação, de pé no chão (inclusive para dançar), do passo com que caminha a geração; o que Refazenda tem de interior, yang, Refavela tem de exterior, yin, inclusive traçando uma ponte com o outro lado do Atlântico. Se fossem apenas duas, seriam um díptico, visões contrastantes e de algum modo complementares – mas de que modo? É o que faltava responder. Faltava uma canção para fazer a síntese.

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8 comentários em “Gil e a trilogia dialética dos Re – Parte 1

  1. Eliseo disse:

    Caro Túlio- Vou traduzir este post en espanhol para meu blog http://www.bluemonkmoods.com. Claro, si você não tem inconveniente. A tradução va com credito a seu blog.

    Abraçadão pra vc.

    Eliseo
    editor@bluemonkblog.net

    • Elizeo, é uma honra para mim ser retransmitido por você. Esteja completamente à vontade, e desde já antecipo também a autorização para traduzir a segunda parte do artigo, quando vier – e o que mais achar melhor do que escrevo aqui. Grande abraço.

  2. Assis Furriel disse:

    Túlio,

    como sempre sua análise sempre clara e informativa. Parabéns pela abordagem.

    Gostaria de fazer apenas algumas observações de quem conhece e admira as obras citadas por você. Eu diria que a atmosfera transcendental que Gil nos traz com o disco Refazenda pode ser resumida em “Retiros espirituais” e a ruralidade do disco em “Lamento sertanejo”. Outra observação é sobre “Rebento”. Esta música, citada por você do disco Realce, e que como disse , não ganhou autonomia para comandar um álbum. Ela tem, na minha humilde opinião de amador (no sentido literal daquele que ama e não de um especialista) conteúdo suficiente não só para um álbum, mas para alguns mais. Sua profundidade e sua linguagem filosófica comprovam essa possibilidade. O Gil é inesgotável!: “Outras vezes rebento simplesmente/ No presente do indicativo/ Como a corrente de um cão furioso/ Como as mãos de um lavrador ativo”. A imagem da corrente de um cão furioso é qualquer coisa de gênio!

    Grande abraço Túlio e parabéns mais uma vez por essa oportunidade de deleite!

    • Bem lembrado, Chico. De certa forma, assim como Realce sintetiza Refazenda e Refavela, que é o que eu vou abordar adiante, Refazenda sintetiza Retiros Espirituais e Lamento Sertanejo na sua escrita não linear. Quanto a Rebento, acho que ela ficou de fora da trilogia simplesmente porque não dava conta de sintetizar as outras duas, e não por falta de profundidade dela mesma. É bem uma canção que defende uma tese, aprofunda um assunto, como o Gil faz muito, e sempre um assunto interessantíssimo. E o fato de ser um samba dá a ela uma leveza que contrasta com o tema e faz com que não pareça justamente uma defesa de tese, o que é um grande desafio que o Gil enfrenta: o de falar de coisas profundas num formato popular como é a canção. Abraços.

  3. Walter disse:

    Cadê o comentário sobre Realce?

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