Gil e a trilogia dialética dos Re – Parte 2

Os elementos do esquema básico do método dialético são a tese, a antítese e a síntese.

A tese é uma afirmação ou situação inicialmente dada. A antítese é uma oposição à tese. Do conflito entre tese e antítese surge a síntese, que é uma situação nova que carrega dentro de si elementos resultantes desse embate. A síntese, então, torna-se uma nova tese, que contrasta com uma nova antítese gerando uma nova síntese, em um processo em cadeia infinito.

Estas informações filosóficas estão na Wikipédia. Por elas, percebemos que, na dialética, a síntese carrega em si elementos das suas duas premissas, tese e antítese, mas resolvendo em si suas contradições, conciliando-as, transfigurando-as, e também se apresenta como uma afirmação nova – e por isso mesmo, pode parecer à primeira vista como muito diverso das premissas, como uma soma de dois algarismos que resultasse, não num número maior que o esperado, mas em algo de outra natureza, não em uma quantidade, mas em uma qualidade.

É exatamente este o caso de Realce, em relação a Rafazenda e Refavela: uma síntese que, responde as inquietações de uma e as elucubrações de outra de forma surpreendente, tanto no desenvolvimento da temática quanto em termos musicais.

Realce – álbum de 1979

Por causa dos questionamentos com relação ao seu significado – a imputação de uma minoridade que ela teria dentro de minha obra, já que representaria uma escorregadela na facilidade do efeito pop -, a necessidade, que eu sinto, de fazer a defesa de uma canção que tem para mim um sentido profundo no meu trabalho e no processo de aprendizado que eu coloco como dado essencial da minha relação com o fato de fazer canções – de dizer coisas através de canções populares -, e que diz muito sobre quem eu sou como compositor e sobre o grau de exigência que me imponho para que minhas canções exprimam alguma coisa importante na minha vida.

Realce é de uma época em que eu me introduzira no campo da meditação, entendida como uma arte mais formal e rigorosa de pensar-se e refletir-se, e estava interessado em possíveis traduções da filosofia oriental para o idioma da canção, tendo resultado num dos concentrados das meditações que eu então fazia e sido resultado de um processo profundo e ruminante, um longo trabalho de elaboração e meditação, sendo ela mesma uma canção sobre o wu wei, termo chinês que significa ‘ação da não-ação’, ou, a impotência que se torna potência, ou, o esgotamento dos contrários nas suas polaridades (um polo se esgota e inicia o que está contido no seu oposto) etc.

É nesse sentido uma canção ambiciosa e carregada de significados embutidos que vão sendo des-cobertos, como, na cebola, as camadas por debaixo das camadas.

A letra parte de um escopo geral que é falar do que, à época, eu chamava de ‘salário mínimo de cintilância a que têm direito todos os anônimos’ – nos terminais de metrô, nas arquibancadas dos estádios, nas discotecas. Esse lado saturday night fever está propositalmente explicitado nos três pseudo-refrões, que funcionam para reiterar a macdonaldização da vida cotidiana nas grandes cidades, mas também para dar-lhe uma qualificação de profundidade que necessariamente também existe nessas coisas tão associadas à superficialidade. Por outro lado, cada uma das estrofes que antecedem os ‘refrões’ remontam ao sentido de potência contido no wu wei.

Por aí se percebe de cara uma conciliação interna da canção, que é da superficialidade – neste caso, uma discoteque – abrigando a profundidade de uma discussão que envolve política – e os Titãs reverberariam a idéia do salário mínimo de cintilância ao clamarem que a gente não quer só comida – e conceitos de filosofia oriental, não lado a lado, mas ao mesmo tempo, no mesmo verso, na mesma palavra – primeiro indício da fusão dialética entre Refazenda e Rafavela. Mas Gil trata de política redimensionando-a, tanto em seu aspecto externo de relação quanto no interno, como relação consigo próprio, como auto transformação. E ele próprio trata de interpretar a fundo cada verso (veja a letra de Realce aqui):

Estrofe I
 versos 1, 2 e 3 – Há uma idéia da força que remete às mudanças geológicas; a um revolver da natureza que se dá por si só. As grandes catástrofes das idades do universo passam como um trator por sobre a condição humana. Ao mesmo tempo, a fonte da força também está à disposição do que chamamos consciência, inteligência, vontade: homo sapiens.
Versos 4, 5 e 6 – O homem como combustível e energia do motor da natureza, parte e partícipe do moto-contínuo, ciclico-recorrente (o eterno retorno), de criação e destruição, anulação e afirmação, operado pela natureza na história e pela história na natureza. A relação dinâmica entre ambas e o homem como o corte.

Estrofe II
Versos 1, 2 e 3 – O interstício sutil entre a vontade e o resultado, o fazer e o não fazer. O fato de que tudo está ‘afeto’; de que, do ponto de vista quântico, digamos, a mínima partícula de emanação pensátil está ‘afeta’; de que o afeto pertence à totalidade do pulsar existencial das coisas, à dança de Shiva; e mesmo o sentir quieto ali naquele canto pode estar afetando uma estrutura qualquer de uma parte qualquer do universo.
Versos 4, 5 e 6 – O afeto, portanto, é fogo; portanto, se cuide – mas se descuide, também, do seu sentir; pois de todo modo ele é pleno, dono de si; ele trabalha no campo onde as bactérias se criam, os átomos se criam e os eventos se dão; e, mesmo entre as partículas, o que não é visível nem palpável ainda assim é e pertence ao intercâmbio das afeições amplas, universais.

Estrofe III
Versos 1, 2 e 3 – A autonomia plena da vida sobre nós e o imperativo da fatalidade de ter nascido e ter que morrer; ter que viver esse ‘alfômega’ nascimento-morte, a grande questão colocada para nós.
Versos 4, 5 e 6 – De como a vida entra pelos olhos e é o ferir incondicional do brilho neles. Sob o sol ou sob a lua, a esteira de luz estendida sobre a superfície do mar será irremediavelmente captada pelos olhos abertos. A irredutibilidade do fenomenólogico. O ser sendo ferido pelos estímulos externos aos quais os seus sentidos, todos, dão sentido; a natureza se fazendo linguagem através do homem.

Gil, então, não está falando da dicotomia cidade/campo, mas estendendo-a para Ocidente/Oriente, ou para ser humano/mundo, ou minha força interna/forças externas da vida, ou individualidade/coletividade, todas desdobramentos ou desenvolvimentos das idéias contidas nas duas outras canções, mas levadas muito adiante, e tudo isto embalado na estranha dicotomia entre esta letra prenhe de significação e o arranjo de discoteca – na verdade um jogo entre a força do clichê e a novidade de conteúdo.

A melodia de Realce reflete também esta conciliação de opostos: os três versos iniciais de cada estrofe tem um movimento ascendente, quando a letra fala de uma ação interna (o que a gente pode, o que a gente sente), enquanto os três versos seguintes vem de cima para baixo, como uma ação externa, enquanto a letra reforça esta significação (a força é bruta, a vida fere). Ao se iniciar a segunda parte, que Gil chama de pseudorefrão, a letra perde densidade e ganha em afirmação: realce é uma palavra de ordem, uma reivindicação, um mantra sobre o baixo de discoteque. E o verso real teor de beleza, como que uma definição para a canção (com todas as implicações filosíficas que o conceito de beleza pode ter) escala meios tons e termina como quem se joga de um parapeito, com o espocar de fogos de artifício figurado pelas frases dos metais. Gil ainda afirma:

Realce custou muito tempo e aflição para ser feita pelas muitas funções sobrepostas com as quais ela se comprometeu de antemão, a começar pela de fecho da triologia dos ‘re’. (…) Eram muito apriorísticas as proposições e o alcance de Realce. Sentidos novos iam sendo exigidos e agregados ao longo do tempo da sua realização, e a cada dia a música ficava mais dificil. Começada aqui, onde anotei as primeiras idéias, soltas, ela tomou umas dez páginas de esboços, e eu só a terminei após dois meses de excursão pelos Estados Unidos, quando já estava gravando o disco, lá.

A simples exposição dos versos pode não remeter de imediato a significados tão vastos, múltiplos e profundos, que, no entanto, estão engastados na intenção processual da canção; no porquê de ela ter sido feita. Eu não posso exigir de todo mundo a apreensão de todos esses sentidos, mas não posso aceitar a negação deles. Minha impressão é de que, no âmbito das pessoas cultas e inteligentes, afeitas ao dimensionamento cultural encarregador das leituras, Realce não é tão hermética; lida sua letra com o mínimo de atenção, muitos dos seus significados logo se insinuam, e as portas para outras digressões possíveís se abrem.

Realce toma para si de Refavela e Refazenda caracteres diversos, mas sempre transfigurados: nem a linguagem direta de uma, nem a elíptica de outra, mas a sintética. E não é apenas a letra profunda que contrasta com o estilo tido como superficial, mas também a sofisticada construção harmônica da canção, e o modo de Gil tocar seus acordes sem abrir mão do suingue, o que impressionou os músicos americanos que gravaram com ele. E, assim como na dialética, o que primeiro era conciliação de opostos logo depois se torna uma nova e vigorosa afirmação. Sem isso, Realce não teria sua própria cara. 

Por ter em mim os traços nítidos do criador marcado pelo compromisso com a banalidade, egresso de uma tradição cultural média brasileira, a da canção popular, eu me sentia parte integrante daquele fenômeno, a que vim a me referir como a ‘superfície do profundo’ – onde o profundo não é captado como tal e só pode ser captado como superficial porque só está na superficialidade.

E é disso que falam Realce e outras canções minhas da época. Utilizando-se de elementos fáceis e flácidos mas remetendo também aos sentimentos de elevação que cada simples ser pode e deve ter, elas trabalhavam para uma conciliação do conceito de sofisticado com o conceito de banal, contra o reducionismo cataloguista dos cânones clássico e popular e contra a idéia do estanque prevalescendo sobre a do osmótico e interpenetrante.

E o que Realce declara, em forma e conteúdo, através do formato da canção popular  é exatamente o direito do simples ser complexo, do complexo ser simples, do banal ser sofisticado e vice-versa, e de todos terem direito a tudo isso. Na Refavela, na Refazenda, em todo lugar.

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