Os Fados da Mouraria

Uma coisa que sempre me deixou encasquetado em relação à formação musical brasileira é a nossa quase absoluta falta de comunicação com certas culturas muito próximas. Uma delas é a da América Latina, com sua imensa riqueza de tangos, milongas, habaneras, mambos e rumbas – com a honrosa, mas muito contestada, exceção do bolero. Mas esta é talvez historicamente explicável pelo isolamento entre Brasil e o restante da AL, devido aos conflitos entre as colonizações portuguesa e espanhola. O que não posso entender é o motivo desta incomunicabilidade com Portugal, e porque estilos como o vira e o fado são vistos como exóticos e mesmo cafonas por aqui, apesar de nossas raízes comuns.

E esta visão de exotismo se torna ainda mais estranha ao se saber que o fado, assim como o choro e o samba, tem sua origem nos mesmíssimos formatos musicais, a modinha e o lundu. Embora haja também uma clara influência moura no fado, não há nenhum registro deste estilo antes do século XIX. Outro ponto em comum é o fato de fado e samba terem sido ritmos ligados à marginalidade. Cantoras de fado em geral eram prostitutas, e isto se reflete nas letras de muitos fados clássicos, cantados do ponto de vista feminino e falando de amores bandidos – aliás, as referências aos homens amados e infiéis como ciganos são outra ligação com este submundo, uma vez que os ciganos, como os mouros (com diferenças históricas importantes, claro), sempre foram considerados um povo intruso e mal vistos  pela população.

Mas discutir as origens do fado é tarefa para estudiosos com bem mais estofo que eu. Limito-me agora a indicar o excelente Blog da Severa (Maria Severa, tida como a primeira cantora de fado), onde as tradições do estilo são esmiuçadas, e o Museu do Fado (aqui a ótima página que conta sua história). Do que eu trato aqui são das possibilidades do fado como estilo de canção, e são imensas justamente no lidar com esta tradição.

Ai, Mouraria – Amália Rodrigues (letra aqui)

Antes de tudo, uma explicação: a Mouraria é o antigo bairro mouro de Lisboa (sim, mouros e cristãos conviveram em relativa harmonia durante séculos na Península Ibérica, explicam os historiadores hoje). Havia também a Judiaria, que hoje não existe mais, assim como a Mouraria é hoje um bairro aberto a todo credo – tanto que há nele a Rua do Capelão. E na Rua do Capelão há o Largo da Severa, em homenagem à fadista que viveu ali. Assim, a Mouraria tem uma relação, digamos, geográfica, com o surgimento do fado, para além de questões de estilo – que também as há.

Ai, Mouraria é um clássico do fado, gravada por quase todo fadista que se preze. É uma canção delicada, com uma parte em tom maior e outra em tom menor – e aí cabe notar que a primeira parte, em tom menor, é inteiramente dedicada à lembrança do amado que se foi, e a segunda, em tom maior, é toda voltada a relembrar o território, o bairro, as ruas. Existe como que uma territorialização do sentimento, uma ligação profunda com o lugar, mas que aqui aparece dividida, como se o espaço físico servisse de consolo para a ausência da pessoa, uma identificação quase completa entre eles. Quase, porque permanecem um em cada tom, um em cada estrofe.

Amália, claro, segue o instrumental ritmicamente homogêneo e cadenciado que é tradicional, e sobre esta cama de cordas dedilhadas sua voz não se derrama, mas se contém. O canto do fado é de um imenso sofrimento que não se abre, que é cheio de subentendidos na voz que se desdobra em melismas, mas permanece digna, como digna é a figura da cantora, herdeira das prostitutas de bares e cafés, mas de xale negro e uma rosa ao cabelo, a rosa chamando à vida, o xale lembrando um luto que nunca termina. As quase paradas da música são como tentativas de a interpretação escapar e se derramar, mas logo reprimidas. Uma dor cotidiana.

Corta para Dulce Pontes cantando o Novo fado da Severa (letra aqui – Dulce não canta a segunda estrofe)

O Fado da Severa original é de 1848, de autoria de Sousa do Casacão, e refere-se à própria Maria Severa, que falecera um ano antes (veja a letra aqui). Este é de Júlio Dantas e Frederico de Freitas e já se refere ao lugar, ao Largo da Severa, na Rua do Capelão, na Mouraria (outra vez a passagem de pessoa a território). Júlio foi o autor, em 1901, do romance A Severa, que em 1931 tornou-se o primeiro filme falado de Portugal, com esta canção na trilha sonora. Outra dificuldade da conciliação surge nos versos finais, que expressam um desejo supremo: Viver abraçada ao fado, morrer abraçada a ti. Ou o fado, ou o homem amado, nunca na vida os dois juntos, sempre uma falta, uma ausência.

A interpretação de Dulce Pontes é a explicitação do implícito no fado. As gravações dela foram acompanhadas de muito sucesso e um bocado de polêmica, por ela escancarar em sua interpretação o sofrimento contido de Amália, mais até do que por seus arranjos pop. Mesmo havendo uma marcação rítmica, ela se permite adiantar ou estender as frases à vontade, ad libitum, derramar completamente a voz. Para isso também contribui a diminuição sensível do andamento em relação ao fado tradicional. Por outro lado, isto permite a ela exacerbar uma característica que já é da interpretação do fado – e que é um dos indícios da ligação do fado à influência moura: os abundantes ornamentos vocais, arabescos, sem os quais as melodias do fado se tornam quase irreconhecíveis, a ponto de se poder afirmar que eles fazem parte da própria estrutura das canções.

Voltemos para Amália, cantando Zanguei-me com meu amor (letra aqui)

Zanguei-me tem letra de Linhares Barbosa sobre uma melodia popular conhecida como Fado da Mouraria. Esta letra tem um excepcional jogo de auto-referências. Logo na primeira estrofe, uma obra-prima tanto de romantismo exacerbado quanto de ironia a este mesmo romantismo, em quatro versos que praticamente explicam a essência do fado, a se alimentar do sofrimento por amor e devolvê-lo em música:

Zanguei-me com meu amor
Não o vi em todo dia
À noite cantei melhor
O fado da mouraria

A metalinguagem explícita (o Fado da Mouraria é a própria canção que conta esta história) envolve um pouco de humor, criando uma espécie de paradoxo temporal: como a fadista pode cantar uma canção que cita o fato de ela ter cantado antes esta mesma canção? Mas mais bem humorado ainda é o reconhecimento quase agradecido da dor de cotovelo como o motor do fado, um desdobramento dos versos do Novo fado da Severa, que citei acima: feliz no fado, infeliz no amor . O humor segue na estrofe seguinte,

O sopro duma saudade
Vinha beijar-me, ora, ora
Pra ficar mais à vontade
Mandei a saudade embora

em que o lidar com este sofrimento torna-se, por assim dizer, algo cultivado, voluntário, uma estranha forma de vida, para citar outro clássico do fado também gravado por Dulce Pontes, como este, e inclusive passível de ser interrompido… ainda que temporariamente.

Zanguei-me com meu amor – Dulce Pontes (Dulce não canta a terceira estrofe)

Dulce, assim como no Novo fado da Severa, não canta todas as estrofes da canção, o que também lhe rendeu críticas. Neste caso, talvez seu motivo tenha sido a negação do canto nos versos quem perde o amor na vida jamais devia cantar. O que absolve Dulce de uma possível adulteração do fado é um carinho patente em sua voz e na interpretação destas canções, carinho que é pelo homem amado, pelas ruas e bairros onde o homem pisa e o fado acontece, e finalmente se estende ao próprio fado, pela própria canção que ela interpreta. Na voz de Dulce, acontece, como já acontecera na de Amália e tantas outras, novamente a conciliação do amor pelo cigano citado no Novo fado da Severa – cigano sendo o que não se fixa nem no território nem no amor. Conciliação que ocorre também nos versos finais de Zanguei-me com meu amor,

Quando regressou ao ninho
Ele que mal assovia
Vinha a assoviar baixinho
O fado da Mouraria

onde o cigano adorado volta, enfim, para casa, talvez subindo a Rua do Capelão, passando pelo Largo da Severa, em plena Mouraria, dos rouxinóis nos beirais, dos vestidos cor-de rosa, dos pregões tradicionais (da letra de Ai, Mouraria), e assoviando o fado que lhe conta a história. Onde o amor tripartite, cujas partes alimentam umas às outras, se unifica: pelo homem eleito, de variados nomes; pelo lugar, território, torrão; pelo fado.

Este post é dedicado a Valéria Affonso, que me apresentou ao fado.

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4 comentários em “Os Fados da Mouraria

  1. simone disse:

    Oi †úlio, para quem se diz não entender muito bem de fado, como vc disse, o texto está maravilhoso e bem informativo. Eu agora vou acrescentar aqui um ponto de vista de uma cidadã comum e sem conhecimento afiado sobre música (eu), mas que sempre tem impressões a dividir. Eu morei um ano em Lisboa. Sempre achei que nós, brasileiros, culturalmente estávamos mais ligados aos espanhois, franceses e italianos que aos portugueses. Foi um ano de um abismo vivido diariamente entre a nossa cultura e a da deles. Vejo a nossa musica profundamente afetada pela cultura africana. Temos a falta de rigidez que o português tem em tudo, principalmente na nossa forma de fazer música. A primeira vez que fui a uma tasca ver um show de fado, logo que cheguei lá, eu não acreditei no que ouvia e na minha própria reação: tive um ataque histérico de riso. Uma total desconexão com a coisa toda. Tive que sair, tomar um ar e voltar. Não estava nada preparada para tanta dramaticidade. Tanta seriedade no cantar. Vc falou das raízes do fado e de alguns ritmos brasileiros serem as mesmas. Mas o nosso samba, o nosso chorinho, as perdas que cantamos dos nossos amores, acontecem numa mesa de bar, com um certo descomprometimento, quase como se ríssemos da nossa própria desgraça (e garçom, manda mais uma!). Quando ouvi o fado, tinha lá meus 22 anos, eu achei que Edith Piaf deveria cantar daquele jeito. Que aquilo era francês, ou cigano, certamente marginal, aí controlei o riso (que era um nervoso inesperado diante de algo novo e arrebator). Sim, porque um fado, cantado em seu devido ambiente, com o vinho tinto certo nas mãos, é algo que não se esquece jamais). Daí o riso se foi e me vi aos prantos (saí da tasca de novo). Voltei e fiquei até o final. Estava intrigada: Como nós, colonizados por eles, deixamos passar aquele elemento visceral do cantar, que eu estava vivenciando ali. No fado, não há a segunda dose de cachaça. Só facada no coração. É ouvindo o fado que me dou conta desta distinção e da dimensão da importância da mistura das raças na formação da cultura brasileira, principalmente na nossa herança musical. É isso. Bjs! Simone

  2. Luiz Herique disse:

    Parabéns pelo post, muito informativo.
    Vale a pena mesmo investigar essas relações entre a canção brasileira e a portuguesa, que afinal compartilham a mesma língua, e origens comuns.
    Um abraço,
    Luiz

  3. Obrigado, Luiz, abração. Simone, esta questão da maneira como o samba retrabalha o banzo colonial transfigurado em dores de amores e os transforma em exaltação e descontração é algo que me intriga, e que estou para tratar aqui há tempo. O paradigma disto para mim é Coração em desalinho, que foi abertura de novela até há pouco, em que todos cantam entusiasmados: “não sei viver sem teu amor, sozinho curto a minha dor!!!!”, o que de certa forma é tão exótico e até hilariante para um desavisado quanto o a enorme dramaticidade do fado… É incrível como fundamentalmente os mesmos ingredientes, com temperos diversos, deram em estilos tão diferentes. Em comum, talvez tenham a questão da territoriedade, vide exaltações à Mangueira e que tais. Mas sem dúvida as soluções que a cultura brasileira encontrou e encontra são únicas, porque nossas circunstâncias históricas são únicas também. E tenho para mim que ainda muitas soluções novas e originais vão surgir como contribuição para o mundo. Oxalá. Beijão.

    • Jose Americo de Sousa disse:

      Bravo Tulio voce deu um show de interpretação, de informação…de tudo…valeu mesmo!

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