A boa alma de Carlos Careqa (ou com ele não é bem assim)

Carlos Careqa é um compositor profundamente simples. Tem um estilo definido, mas não gosta de se repetir. Suas composições são cantábiles, com melodias de comunicação imediata, mas possibilitam camadas sobre camadas de leituras. Transita de uma suavidade que pode ser comovente a uma agressividade que assustaria, se não se percebesse a camada de ironia propositalmente visível sob a tinta (e neste sentido, a simplicidade aparente é uma arma, em que a ironia da letra se torna mais aguçada, insidiosa, pedindo cumplicidade). Mas também pode parecer muito sincero sob a  máscara algo cínica. Estas contradições acumuladas, estas junções de opostos, ao contrário do que poderia parecer, dão num trabalho coeso – mas, claro, apresentando-se sempre sob formas novas.

Careqa vem de um trabalho com versões em português para canções de Tom Waits, e em seguida outro autoral. O seguinte, Alma boa de lugar nenhum, também de canções dele, é um álbum de piano e voz. Só que, em vez de, como seria natural, trabalhar um parceria com um acompanhador, Careqa chamou sete pessoas diferentes para se alternarem nas 12 faixas. O resultado, novamente, é múltiplo e inteiramente coerente, unificado pela sonoridade do piano, e variado pelas diversas explorações e adequações às músicas. E, assim como o mesmo instrumento tem diversas vozes nas mãos dos pianistas, a voz de Careqa muda, e muito, na interpretação de cada canção, indo do suave e um pouco aerado ao mais rascante e rouco (nesta se percebe a relação com o canto radical de Tom Waits) – e às vezes as duas simultaneamente.

Alma boa de lugar nenhum

Simplesmente

Mas há duas particularidades neste álbum que, em princípio circunstanciais, são a meu ver excelentes chaves para o entendimento não apenas do álbum, mas até do próprio trabalho de Careqa. São elas: o fato de ele ter gravado neste álbum versões de duas canções de Bertold Brecht (uma em parceria com Kurt Weil, outra com Hans Eisler); e o fato de ter conseguido a proeza de ter uma canção cantada por Chico Buarque acompanhado ao piano por Arrigo Barnabé!

Minha música

A junção do Chico com o Arrigo na mesma faixa tem mais de simbólico até do que de musical propriamente. Chico canta sem praticamente nenhuma entonação extra, completamente econômico (maldosos diriam inexpressivo, o que é redondamente errado). Ao contrário do Arrigo ao piano, que pode ser tudo, menos econômico. A canção ganha pelo tremendo contraste, que também é entre a melodia muito tonal (pressente-se a harmonia nela) e o piano – que apesar de parecer, não é atonal, como o Careqa diz bem. Na primeira parte especialmente, a mão esquerda faz os acordes quase normais, enquanto a direita pira.

Contraste que é também dos dois músicos, que surgem como representantes da tradição e da quebra desta tradição. Minha música foi composta em 2003 para a Ópera de Arrigo O homem dos crocodilos. Mas agora, os versos Mataste minha música / Quebraste todos os meus discos / Fugiste com todas as canções ganha novas possibilidades de significado cantados pela pessoa que, de forma quase incidental, trouxe à baila o furioso debate sobre o fim da canção, ou seja, a exaustão do formato canção para a criação musical. A canção ganha ares proféticos ao lado da leitura romântica óbvia, ainda mais acompanhada de forma totalmente fragmentada por um músico que investiu e investe fortemente justo nas possibilidades advindas da desagregação deste formato. Como uma canção de Fim dos Tempos, em que gênesis e nêmesis se encontram. E, para que não se pense que não foi algo intencional, cabe destacar o diálogo entre Careqa e Chico, no final do vídeo, em que eles comentam o assunto.

A participação de Chico nos leva à gravação por Careqa das canções de Brecht: Chico também reletrou canções da dupla, ao adaptar a Ópera dos Três Vinténs, da dupla Brecht/ Weil, na sua Ópera do Malandro – sendo que a primeira já era uma parória da Ópera dos Mendigos, de John Gay. Um certo uso da ironia liga os três. A própria frase recitada ao encerramento da canção título por Careqa é tirada da boca do personagem Macheath (Mac Navalha, correspondente ao Max da Ópera do Malandro), e mesmo o título do álbum tem relação com a peça de Brecht A alma boa de Set-Suan.

Mas é possível ir um pouco mais fundo (ainda que a partir da Wikipedia):

Um dos pressupostos do teatro épico é o efeito de distanciamento ou de estranhamento por parte do espectador. O ator não busca identificação plena com a personagem. O cenário expõe toda sua estrutura técnica, deixando claro que aquilo é teatro, e não a realidade. O enredo se desenvolve sem um encadeamento linear cronológico entre as cenas, de modo a poder misturar presente e passado, procurando evitar o envolvimento do ator e do espectador na trama, sempre com o intuito de provocar a reflexão e de despertar uma visão crítica do que se passa, sem levar ao desfecho dramático e natural. ‘Estranhar tudo que é visto como natural’, segundo Brecht

A escola épica de teatro, em contraposição à escola dramática,  foi uma criação de Brecht. Em vez de “mergulhar” dentro da história, o espectador tem a chance de enxergar “de fora”, sem perder sua capacidade crítica. A forma de interpretação do ator leva esta idéia adiante, como se lembrasse continuamente que ele não é o personagem, e que pode ter opiniões muito diferentes das dele (veja mais informações aqui). Esta visão do teatro tem a ver, de alguma forma, com a postura de Careqa em muitas de suas canções. É quase impossível dizer se são a sério versos como: vou cortar minha orelha, vou abrir o escapamento, que é pra ver soprar o vento e me levar pro altar, ou vou fazer uma chacrinha, vou comprar um automóvel, vou fazer um teatrinho que é pra ver se te comove. São, e não são. São a representação de uma representação. Do mesmo modo, em vários momentos Careqa  canta como uma persona, como a interpretação brechtiana derivada da escola do teatro épico, ou mesmo abandona o canto e declara a um hipotético repórter (provavelmente da Caras): este ano eu pretendo ter uma chácara, um apartamento no Rio e outro em São Paulo, crítica implícita mas escancarada de uma visão de arte que exclui a própria arte.

Comecei o artigo com a frase Carlos Careqa é um compositor profundamente simples. Poderia ter dito que é um compositor simplesmente profundo, mas a primeira frase é mais apropriada porque a simplicidade é o resultado final de seu trabalho, e as muitas camadas de leitura ficam no percurso de escuta e não pesam no ouvido. O sumário deste estilo pode estar em Simplesmente, cujos versos mudam aos poucos de significado pela alteração do prefixo e sua associação com a palavra seguinte, perfeitamente realçados pelo desenho melódico:

Seja simples, simplesmente mente aberta
Abertamente mente doce, docemente mente certa
Certamente mente rara, raramente mente doida
Doidamente mente clara

Ou na frase que abre o álbum, Estou cheio de arte, arte até o pescoço – duplo sentido que a melodia tão suave não chega a esconder, ou antes, torna mais sutil. E que serve também de sumário do estilo de Careqa: uma música se recusa a usar truques fáceis; mas que causa empatia à primeira escuta; mas que vai mais e mais se fazendo compreender a cada vez que é ouvida; mas que é capaz de grudar no ouvido, como boa música popular; mas que é capaz também de fermentar na cabeça, como boa música popular; e vai por aí afora, como deve ser.

Estou cheio de arte

Então, o serviço:

sítio eletrônico do Carlos Careqa, que até a publicação deste post não tinha o álbum novo (mas tem todos os outros)
– Carlos Careqa no My Space
– Álbum Alma boa de lugar nenhum na distribuidora Tratore.
– E de quebra, uma ótima entrevista com Careqa, parte 1 e parte 2.

Só mais uma coisa: esta coluna Prestenção! foi criada para tratar dos concorrentes ao Projeto Quintas no BNDES que me agradaram durante a seleção para 2011. Mas, a partir deste trabalho, abro a coluna para qualquer outro trabalho pouco ventilado na mídia e que mereça mais espaço do que tem – e são muitos…

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4 comentários em “A boa alma de Carlos Careqa (ou com ele não é bem assim)

  1. carloscareqa disse:

    Obrigado Túlio. Você compreendeu muito bem minha intenção ao fazer este disco. Obrigado pelas suas palavras generosas. Diante da realidade brasileira me sinto agraciado pela sua crítica. abraço, Carlos

  2. Gustavo Bonin disse:

    …ponto!
    Ótimo. Muito Bom!

  3. Antonio Candido disse, certa vez, que a função do crítico é estabelecer a boa relação, explicar à luz do momento e saber escolher, entre tantas características, o que iluminar na obra estudada. Esse seria o exercício do juízo crítico bem realizado e bem resolvido.

    Acredito que criticar se ligue ao ‘des-cobrir’ muito mais do que apenas ao ‘re-conhecer’: é ir para além da tarefa rasa de projetar um saber que já se possui e tentar fazer o objeto caber nele.

    Conheço a obra de Carlos Careqa e aprecio muito a boa crítica.

    O que tenho a dizer é que nada havia sido escrito de tão bom sobre “Alma Boa de Lugar Nenhum”.
    Parabéns pelo ouvido atento, pela coerência das relações estabelecidas, pela dedicação à escrita, pela precisão de cada palavra.

    As ideias estão todas no lugar.

  4. Por ordem: Carlos Careqa, a mim é que me honra sua presença. Gustavo, muito obrigado. Jéssica, esta definição do Cândido, pela precisão e lucidez, devia estar na cabeceira de todo aquele que se dedica a analisar a obra alheia, num exercício que é também de humildade. Claro que há sempre possibilidade de reparos, nem tudo é rasgação de seda, como se diz. Nesta análise, decidi deixar de lado aspectos em que não percebi a mesma profundidade – exemplifico, de certa forma satisfazendo o Careqa, que brincou no Facebook que é fácil gostar de um artigo apenas elogioso: achei que na faixa O rolo do Rolex dois elementos – a escolha de uma rima difícil como condutora da canção, e o acompanhamento por piano preparado – acabaram roubando um pouco a cena da própria composição, que com isso acaba tendendo a um certo maneirismo. Isto podia ter sido dito? Podia, mas preferi tratar do que considerei o arcabouço do álbum, em vez de me deter ponto a ponto. O que almejo é que quem não conhece a obra conheça, e quem já conhece fique melhor instrumentado para a escuta, des-cobrindo, como disse, modos novos de ouvir. Se conseguir isso de um, já fico recompensado. Abraços a todos.

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