Rescaldos do rock, ou do que chamaram de rock

Não, não fui ao Rock in Rio. Assim, não farei avaliações de qualidade sobre apresentações que não vi. Mas acho que a própria realização do festival, o modo como ocorreu e  escolha de nomes para ele – e as reações diversas a estes nomes – dão umas boas reflexões. Hoje fala mais o publicitário que o crítico. Um bom mote para começar é exatamente o título do festival e o fato de ele ser de rock ou não (nem questiono a segunda parte do título – vá lá, a Barra fica no Rio). O que não faltou foram reclamações sobre a falta de rock. Mas aí se vê a lista de shows do primeiro festival, em 1985:

Desta comparação, creio, dá para tirar algumas conclusões. Primeiro que, como muitos já ponderaram, o Rock in Rio nunca foi um festival exclusivo de rock. Segundo, que a qualidade média das atrações foi muito maior em edições anteriores, especialmente a primeira (OK, aqui o crítico musical participa um pouco).

Neste contexto, quem acabou sendo tirada para cristo foi a Claudia Leitte, cantora de axé que foi desancada tanto na Imprensa quanto nas redes sociais. O que provocou um comentário de Rita Lee no Tweeter:

Não assisti Claudia Leitte. Meter o cacete no conforto do anonimato é fácil. Apresentar-se em ninho estranho não é para maricas.

Concordo integralmente com a Rita, principalmente na primeira frase. Não há ironia aqui. Avisando de saída que não tratava de qualidade musical (pois não poderia avaliar um show que não assistiu), Rita deixa claro que se refere ao assunto da minha primeira conclusão, não da segunda. Por outro lado, Ivete Sangalo, que se apresentou poucos dias depois, não sofreu a metade das críticas de Claudia, o que, mais que ter a ver com qualidade do trabalho, é sintoma do fato de Ivete ter alcançado um público mais amplo em sua carreira.

Mas há ainda uma terceira conclusão, mais simples mas com mais desdobramentos: os tempos mudaram. Um show hoje, falando-se de show business, é algo totalmente diferente do que era em 1985, quando o impacto de Michael Jackson e Madonna eram ainda incipientes.  Por mais que o aspecto visual de algumas apresentações fosse importante em 1985, de Ney Matogrosso aos B-52s, em nenhum deles o quesito número de trocas de roupa era relevante. Atualmente existe uma parcela considerável do público que é chamado de musical, mas que vai em busca de um espetáculo que é também, e muito, visual, ao ponto de aspectos musicais serem relegados a segundo plano – e aí valem playback e qualidade intrínseca musical mais baixa mesmo. Não é música, tem música, mas é outra coisa. Porém, a disputa mercadológica acontece no mercado de música, o que causa esta confusão. Quando os organizadores do festival pensam em organizar os dias por afinidade, talvez devessem pensar sob este prisma.

E outra coisa é que, em 1985, as regras do mercado de música eram outras quanto à edição e divulgação. Hoje há um estilhaçamento do mercado, com cada vez menos nomes capazes de agregar 100 mil pessoas (menos ainda duas vezes, como ocorreu em outras edições), e uma quantidade muito maior de artistas que conseguem atingir públicos menores e específicos. O resultado é também um estilhaçamento do Rock in Rio, numa profusão de diferentes palcos e atrações extramusicais. Não há dúvida de que, com poucas exceções, o que de melhor aconteceu musicalmente no Rock in Rio não esteve no palco Mundo, o principal, mas sim no palco Sunset, onde passaram dezenas e dezenas de artistas em shows conjuntos – estratégia escolhida para agregar mais público, e que acabou dando certo.  Foram onde estiveram os praticamente todos os novos (ou seria melhor dizer os atuais) nomes da música brasileira – veja a impressionante programação aqui – enquanto seus correspondentes na década de 80 –  Paralamas, Barão, Kid Abelha – na primeira edição tocavam no mesmo palco dos nomes principais. Já nesta edição, tocaram no palco mundo os ídolos de massa atuais – fossem ou não rock, tivessem ou não qualidade. Contingência.

Por tudo isso, é perceptível a estratégia escolhida para a cara do evento: roda gigante, tirolesa e atrações de rua espalhadas deram ao festival um ar de evento que valia a pena visitar independente das apresentações, um evento em si, em que a música, assim como nos shows de Rihana, Kesha ou Katy Perry, era um dos elementos – importante, mas se não estiver bom dá para se divertir muito mesmo assim. Foi a fórmula para enfrentar esta dificuldade em conciliar públicos no palco Mundo. Era possível ser mais arrojado? Tenho a nítida impressão que sim, mas Roberto Medina é um empresário, e pode ser até um visionário empresarial, mas não é um abnegado, e não vai nadar contra a maré. Se em 2013 os nomes que este ano se apresentaram no Sunset tiverem conseguido ampliar seus raios de ação, e se as transformações na maneira de lidar com música prossseguirem na velocidade atual, não duvido que teremos um festival bem diferente, talvez até readquirindo a relevância que já teve. A conferir. Tomara.

_____________________________________________________________________________

Já como crítico de música e não de trocas de roupa, aí não tenho dúvidas de que o melhor show, entre todos os que não vi, foi do sujeito que certamente também não tem no aspecto visual sua maior preocupação: Stevie Wonder, que ouvi ter sido a única escolha pessoal do Medina. No qual o soulman conclamou a platéia do festival de rock para cantar bossa-nova, e foi atendido. Vai ver que ele não sabia que era um festival de rock. Ainda bem que sabia que era no Rio.

Anúncios
Esta entrada foi postada em Música.

2 comentários em “Rescaldos do rock, ou do que chamaram de rock

  1. Edu W. disse:

    Vi os shows daquele 15 de janeiro de 1985 pessoalmente, e alguns deste RIR pela TV. Suas comparações são pertinentes. Talvez eu só tivesse ido nesta edição (bem como nas demais anteriores) se tivesse “ganhado de graça” os ingressos. Talvez, porque os anos me tiraram um bocado do entusiasmo de estar nos grandes espetáculos, com multidões ao meu redor. Hoje prefiro o conforto de casa e do controle remoto. Se o show está chato, mudo de canal, ou vou dormir confortavelmente na minha cama, com um ar bem mais respirável que o da arena do “Rock”.

    Do pouco que assisti, vi alguns belos espetáculos de artistas que eu não aprecio tocando músicas que não me apetecem, mas também vi o contrário. Gente muito boa deixando a desejar, ouaté mesmo ‘fazendo papelão’.
    Mas o que mais me chamou atenção foram as críticas dos shows, na web, e os comentários que se seguiram. A maioria das críticas eram confusas e infundadas (teve crítico confundindo integrantes de banda, demonstrando não só desconher os artistas, como o próprio desinteresse em se informar antes), provocando comentários apaixonados e malcriados por parte dos fãs das atrações do festival.

    Quanto a diversidade dos estilos musicais, acho legal, independentemente do nome do evento. Sim, em 1985 já era bastante eclético, eram os músicos e cantores da moda. Pegarem no pé da Claudia Leite foi, no mínimo, insensato. Elba Ramalho e Al Jarreau, na primeira versão do RIR, bem como outras atrações ‘pops’ das edições seguintes, não mereceram tantas criticas – principalmente os artistas estrangeiros que “nada tinham a ver com rock”. Shakira não canta rock, mas teve a sorte de ser muito simpática, de se “americanizar” e de não cantar axé, do contrário poderia também ser hostilizada.

    E por falar nisso, acho que nem eu mais sei o que é rock. Hoje tenho reservas em dizer publicamente que gosto da banda X, ou da Z, quando a meu ver ambas são rock, mas alguém em deteminado momento cismou que uma é metal e a outra é pós punk, ou qualquer outra alcunha que lhes deram depois da década de 1970. Vai sempre aparecer alguém pra dizer: isso é pop, isto é progressivo, aquilo é nu-metal…
    Estão complicando muito a música!

    • Salve, Edu. Realmente, as críticas aos shows deste ano me pareceram, ora paupérrimas, ora meramente informativas – e então não eram críticas; ora feitas na base do mais puro achismo, sem nenhum embasamento além do gosto pessoal do autor – li gente chamando o showdo Stevie de “arrastado” -, ora parecendo com medo de falar mal para não contrariar o patrocinador. Também não tenho mais muita paciência para ir tão longe para andar de tirolesa, mas ao ver o show do Stevie me arrependi de não ter comprado uns ingressos que apareceram dando sopa no Facebook uma semana antes.
      E quanto a classificações musicais, ontem no programa Ronca Ronca o Maurício Valadares lembrou que o Stevie tocou no Rock in Rio uma canção sua chamada Sir Duke,, em homenagem a Duke Ellington. Duke que é o autor da frase: “Existem dois tipos de música: a boa e a ruim”. Nada contra quem quer parque de diversões, são eles que siustentam a possibilidade de outros virem. NO Rock in Rio III, fui exclusivamente para ver o Neil Young (e não me arrependi, foi o melhor show de rock que já vi, quatro sessentões no palco e fúria em forma de música). Aguentei meia dúzia de chatos cantando, e vi a platéia debandando em peso quando ele entrou no palco. Se Neil Young resolvesse fazer um show sozinho no Brasil, não se bancaba. Estas pessoas que foram embora pagaram o show dele para mim. Agradeço a elas, que não sabem o que perderam. Abraços.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s