Uma do Aldir

O artigo anterior do blog, de José Miguel Wisnik, sobre os misteriosos meios por que uma canção se torna nossa, de como é possível que uma melodia tem de guardar nela significados que vão além dela mesma e se imiscuem na vida de quem as ouve, multiplicando-os exponencialmente, me lembrou uma história em que isto ocorre numa tal grau que compreende-se o processo, ainda que não racionalmente, mas no mesmo nível em que ele se dá – no centro do que na falta de outro nome chamamos de coração, como Wisnik diz. Quem conta é Aldir Blanc, é eu reconto de memória, de modo que se soma na narrativa os eventuais romanceamentos da repetição na lembrança e o estilo particular, meio rodrigueano, do próprio autor – que a vivenciou realmente.

Conta Aldir que um dia estava num bar zurrapa de um largo da lapa qualquer, quando, na mesa ao lado, começou uma altercação entre dois sujeitos – dois caras bem grandes, sendo um deles um negão com qualquer coisa entre dois e três metros de altura. A desavença foi num crescendo, da discordância passando aos xingamentos e desses às ameaças físicas, e o Aldir na mesa próxima, já muito receoso do momento em que começassem a voar garrafas, mesas e cadeiras, procurando onde poderia se refugiar.

Pois foi então que o inesperado fez uma surpresa: bem no instante em que o Aldir pensou que os dois brutamontes iam partir para as vias de fato, justamente o maior deles, o tal negão, vociferou: “Eu só não vou lhe partir a cara agora mesmo porque está tocando a MINHA música!”

Dito isto, o gigante se recolheu a uma mesa mais afastada, colocou a cabeça entre as mãos e (permitam o estilo) prorrompeu a soluçar como uma criança. Nos pobres auto-falantes do boteco, a voz de Elis Regina interpretava Dois pra lá, dois pra cá, de João Bosco e Aldir Blanc.

Aldir afirma que depois de ter visto isso, deixou de considerar Dois pra lá, dois pra cá como uma música sua – esta e qualquer outra, aliás. Dois pra lá, dois pra cá é daquele negão – e de qualquer um que tenha a capacidade de senti-la tão a fundo. E quem sou eu para discordar?

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7 comentários em “Uma do Aldir

  1. Túlio,

    Gostei do texto e da história. Realmente quando alguém sente “tão a fundo” uma música, um poema, um filme, um livro (etc) é sinal de que a arte ultrapassa “muros”. Isso é muito gratificante.
    Abraços.
    Eliana Pichinine

  2. que história emocioante!… e não é que, no final, Aldir Blanc ganhou um presente? muito bom!

  3. Eliana, Débora: muito boa, não é? Autoexplicativa. Como eu e o um amigo (o Allan Filho, Eliana) conversávamos uma vez: canção é filho no mundo. Beijos.

  4. Luciana Nunes disse:

    Acho que qualquer obra de arte é “filho no mundo”, ainda mais em tempos de internet…
    Ótimo blog! Excelente trabalho!
    Com certeza, vou passar por aqui mais vezes e deixar alguns pitacos. 😀
    Abç!

  5. As letras do aldir musicadas por joão bosco e principalmente na voz da Elis já eram minhas,agora então…

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