A afortunada descoberta casual

O primeiro álbum de Déa Trancoso, Tum tum tum, lançado em 2006, era um mergulho nas tradições de uma região, o Vale do Jequitinhonha, de onde ela veio. Uma música que se afirmava e construía sua ligação com o ouvinte a partir de características absolutamente regionais: catimbós, folias de reis, cocos, batucões, acalantos, lundus. Música regional, música brasileira, com toda a largueza de dimensões que isto acarreta.

O segundo álbum chama-se Serendipity, neologismo inglês com o significado aproximado do título deste artigo, o que já é a indicação de uma mudança. E os avisos e diferenças se sucedem: logo na abertura, Déa canta: Eu mudei, até a voz eu mudei. A canção seguinte é um blues, nada mais, nada menos. E, contraste dos contrastes, o álbum seguinte a um chamado Tum tum tum não tem percussão. Nem uma sequer. Ao contrário, à primeira escuta, soa como um álbum voz e violão.

(A propósito, o álbum pode ser ouvido online aqui: http://deatrancoso.tnb.art.br/. Recomendo ler o artigo com as referências da música, fica muito mais interessante.)

Então possivelmente o leitor espera a frase de alívio: mas as diferenças param por aí. Mas a maior diferença ainda não foi dita, e é a fundamental: Onde Tum tum tum era um álbum de pesquisa (mas também vivência, e muito), Serendipity é autoral. E a partir deste dado é que é possível, por assim dizer, reconstruir a sua escuta, sob novas expectativas.

Serendipity é Tum tum tum em movimento ora centrípeto, ora centrífugo. Déa, que antes cantava o lugar em volta de si, agora canta o lugar dentro de si. Tudo é profundamente pessoal, a delicadeza que já transparecia (a percussão de tum tum tum era sempre delicada, mesmo sem perder a força) agora é explícita na escolha do repertório, quase que apenas de cordas dedilhadas – violões, viola, banjo, sitar, ukulele, guitarra. E então, a partir da escolha da sonoridade instrumental dentro das sutilezas das cordas dedilhadas, vindas de diversas tradições, transparece um estado de alma – mas também um sotaque, que agora não é mais apenas do Vale do Jequitinhonha, mas pode ser de qualquer lugar. E então é possível entender a presença não só de um blues no repertório – caso de Minha voz, mas também de uma espécie de ragga-repente como a canção O corpo, em que numa temática absolutamente pessoal, se harmonizam tradições musicais e sonoridades díspares, com um resultado quase impressionista.

Então, Serendipity, abrindo os braços para o mundo, o faz de forma totalmente intimista. Egberto Gismonti disse a Déa que Serendipity aparenta depoimento da alma.

Me faz um bem danado saber que você segue expondo sua decisão e vontade; me faz feliz sentir nas músicas a sua voz casada com a MÚSICA que te achou e adotou. Antes você “adotava ELA”, como fez no TUM TUM TUM, no Violeiro e a Cantora, e outros. ELA te achou; agora é você a responsável em GUARDÁ-LA bonita como ela se deu a você.

Egberto, ao lado de Tavinho Moura, também mineiros, são as duas referências para este duplo movimento, com duas canções dedicadas a eles desde os títulos. Um ancorado em preceitos sertanejos, como ele mesmo diz, o outro que do Carmo natal virou cidadão do mundo, ambos servem de ponte entre o mundo interno e o externo no processo criativo de Déa, como padrinhos a quem ela pede a bênção.

Serendipity tem também uma ponte entre gerações. Déa conta que um mote do avô que ela adaptou como letra e musicou tornou-se a abertura do álbum, Água Serenada, enquanto Meu colo, tua casa foi feita para o filho. E então a ponte que era entre territórios, o pessoal e o universal (como na expressão meu mundo particular dentro da canção Rapsani, nome de uma cidade grega), agora também é temporal. É quando se percebe o tamanho da tradição de que Déa se apossa e lança para a frente – uma ancestralidade qua não é só de lugar, é também profundamente pessoal, como em todo o álbum.

Como sintetizou o Egberto, em Tum tum tum Déa reuniu seu repertório sonoro; agora, ela o utiliza para forjar seu repertório, num refazimento contínuo. Agora se apronta para novas descobertas. Que venham, casuais ou não, e de preferência afortunadas, para ela e para nós.

Água Serenada e Minha Voz

Corpo (Na verdade, trecho, com bastidores das gravações)

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2 comentários em “A afortunada descoberta casual

  1. Déa Trancoso disse:

    gostei especialmente desse olhar do túlio que me fez tomar consciência de que os dois “padrinhos” que ganhei da vida, tavinho moura e egberto gismonti, mostram com clareza a ponte que atravesso (de dentro do sertão para o mundo) e desatravesso (do mundo novamente e sempre para dentro do sertão)… SERENDIPITY é mesmo um movimento centrípeto e centrífugo! adorei isso! é isso!!!

    • Deá, muito me honra e envaidece sua presença aqui, porque cuido de só falar no blog sobre o que realmente me interessa. Já dizia outro sertanejo que o Sertão é do tamanho do mundo, e à medida que se toma consciência disso, vai-se crescendo junto. E ainda faltou falar aqui de coisas como a maneira pela qual as composições da Déa se apropriam das formas tradicionais e fazem a passagem para o autoral, por exemplo. Mas nenhuma análise é completa se a obra artística é boa. E que cada ouvinte faça seus próprios desdobramentos, que também só fazem a obra crescer. Grande abraço.

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