Música de povo, folia de reis

Onde a música brasileira é brasileira? O que a diferencia de todas as outras músicas populares, dos cancioneiros dos outros países? Pergunta ainda não, e acho que nunca, inteiramente respondida. Mas não tenho dúvida de que o fato de estar profundamente enraizada numa produção popular é o que lhe dá o imenso fôlego criativo que tem. O fato de suas misturas primordiais se terem dado num nível muito profundo, no sentido de ter ocorrido concomitantemente com diversas fusões étnicas e culturais, e também econômicas e políticas, e de forma quase inconsciente em uma população em grande parte iletrada, ou ao menos despercebida do processo para o qual contribuía. Num segundo momento, aí sim, especialmente depois da Semana da Arte Moderna, foi tomando corpo aos poucos um pensamento de valorização e de estudo destas tradições que haviam se formado, e de sua utilização como base para obras de elaboração menos intuitíva. Mais elaborada? Num determinado sentido, sim, ao se cruzar com técnicas de elaboração diversas. Por outro lado, quem estudou a fundo as chamadas manifestações folclóricas sabe que elas, sendo buriladas no próprio ato da sua realização ao longo de gerações, tem muitas vezes um grau de complexidade igual ou superior ao de composições autorais. Trampolim, de 1998, é o segundo álbum de Mônica Salmaso, mas na verdade é o primeiro, pois o anterior, Afro sambas, feito com o violão de Paulo Bellinati, fixara-se na coleção de canções de Baden Powell e Vinícius de Moraes, e não tivera liberdade na escolha do repertório. Agora, Mônica busca uma espécie de solução de continuidade entre a criação folclórica e sua releitura pelos cancionistas da MPB – o que não deixa de ser o que Baden e Vinícius haviam feito – mas desfazendo a homogeneidade que eles conseguiram e traçando uma trajetória de autores múltiplos entre o que seriam aqueles dois extremos. Assim, no repertório do álbum se vê, ao lado de canções de Guinga (O saci) ou Edu Lobo e Chico Buarque (A permuta dos santos), além de outras canções que tratam de temas folclóricos como o boto ou que fazem reflexões ou alegorias sobre questões da formação da cultura brasileira, há também quatro temas de domínio público, entre eles dois apresentados originalmente por Mestra Virgínia Ô minha gente / Determinei Dona Virgínia de Moraes, das Alagoas (como se diz por lá), foi mestra de Reisado, que é também a Folia de Reis, o Auto dos Congos, o Congado, o Boi-Bumbá, o Bumba-meu-boi, o Guerreiro – no entanto, sob cada um destes nomes se escondem características muito particulares, uma multitude de variações espalhadas por todo o território nacional, daquele que foi pela maior parte da nossa história o principal festejo do Brasil: a comemoração do ciclo natalino, culminando no dia 6 de janeiro, da chegada dos Reis Magos, amalgamada com o motor subjacente da vida de um país que foi agrário pela maior parte de sua existência: o boi. O auto da morte e ressurreição do boi constitui-se a parte central do Reisado, mas este é um espetáculo muito maior, que envolve música, dança, teatro, circo, artes plásticas, e tudo em interação direta com o público, na praça ou entrando-lhe casa adentro. Uma obra de arte total, em proporções que Richard Wagner não chegou a sonhar. Dito assim, parece absurdo que as duas singelas peças gravadas por Mônica, cada uma delas com oito versos, possa ter, ou apenas refletir, o grau de complexidade, seja do grande Auto do Reisado (que dura horas e é apresentado ao longo de dias), seja das composições de Guinga ou Edu Lobo. Senão, vejamos:

Ô minha gente / Eu vi a nuvem girando / Eu vi o vento ventando / Eu vi a terra girar Meu figurá / A Mestra Virgínia é peia / Quem anda na terra alheia / Pisa no chão devagar

e

Determinei subir no vento / Eu fui o país da lua / Arrecebi uma friagem tua / Eu vi a terra diferente Mas o corisco ía passando de repente / Com o corisco eu me abracei / Voltei pra terra, eu aplantei / Aplantei pra nascer semente

Comparando-se a letra e as melodias destas duas pequenas cantigas que narram ambas uma espécie de viagem sideral de sonho, nota-se uma outra coisa em comum. Nas duas, o movimento geral realizado pela letra ao longo das duas estrofes é repetido pela melodia, só que a cada estrofe, e duas vezes ao todo. Em Ô minha gente, a melodia abre em movimento ascendente, enquanto a letra narra a visão da viagem, e termina de volta à nota fundamental, base da escala, juntamente com as palavras terra, na primeira parte, e chão, na segunda. Em Determinei, a melodia já se inicia no agudo e vai novamente baixando aos poucos, enquanto a letra igualmente faz o movimento do céu para a terra, e novamente a fundamental (o chão da melodia) corresponde ao pouso (e neste caso mais ainda, ao aprofundar-se na terra). Mas não é só. Estas duas melodias são construídas sobre o modo mixolídio, em que o sétimo grau da escala, abaixado em meio tom, quebra com a percepção de encerramento vinda da afirmação da tonalidade, comum à maior parte da música a que estamos acostumados. Nas duas, a melodia se inicia apoiada justamente neste sétimo grau, que se torna assim a nota mais distante do chão, afastada propositalmente da nota de repouso, o que dá a sensação de instabilidade, de suspensão no ar – em conformidade absoluta com a descrição de quem sobe no vento e vê a nuvem girando. Mônica Salmaso, ao gravar estas duas músicas e as outras de origem folclórica neste álbum deu a elas o mesmíssimo tratamento instrumental dispensados às composições com autoria definida. Não foram usadas como vinhetas entre as faixas, e sim como os cantos elaborados que são. Mestra Virgínia (como Clementina de Jesus, que recolheu outra cantiga gravada neste álbum, Bate canela) aparece como representante, depositária e construtura de um saber que mal tem como ser medido, criado no correr de tempos e tempos e que dá à música feita no Brasil a profundidade inclusive para se misturar com outras sem perder o senso próprio. Uma arte que para ser ouvida e entendida é preciso ver a terra diferente, através do tempo, ver a terra girar, e ter a paciência de entender o processo que faz nascer uma música que, como árvore, vai tão alto porque tem raízes fundas, porque alguém antes soube aplantar para nascer semente. _______________________________________________________________________________________________________ E já que falamos do ciclo natalino, o Sobre a Canção deseja Boas Festas e um ótimo 2012 para todos.

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