E segue o debate, com Mauro Aguiar

Quando fui pedir aos participantes do excelente debate sobre o artigo de Rômulo Fróes a autorização para transcrevê-lo aqui, o compositor Mauro Aguiar ponderou comigo que achava que suas opiniões não haviam ficado claras como ele gostaria. Eu, que achei a participação dele ótima, inclusive como instigação de opiniões alheias, sugeri então que ele elaborasse um comentário mais extenso e me comprometi de pronto a trazê-lo para cá também – e feliz da vida de ver a discussão sobre os rumos da nossa música dando tanto fruto. E ver as ideias dos outros tão bem arrumadas me leva a concluir que é melhor eu também arrumar as minhas. Portanto, mais adiante espero encerrar esta fita-banana, como diz o Xexéo, com um resumo de minha própria opinião, que também já esbocei no outro post. Deixo vocês com o talento do Mauro (estou devendo a análise do Transeunte, mas calma que eu chego lá).
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Acho que diante das palavras de Sérgio Santos, pouco ou nada poderia acrescentar, mas como fui uma espécie de provocador desse debate (em outro post!), e porque meus amigos Chico Saraiva e Túlio Ceci Villaça me cobraram uma atitude, vou fazer alguns breves comentários, certo?

Já afirmei anteriormente a minha discordância quase que integral com o texto do nosso querido Rômulo. Lá na frente, no post original com a matéria do Estadão, perguntei:

Por que o dito moderno tem que passar por esse alinhamento? Evidentemente, no lugar de moderno, queria dizer contemporâneo, e nesse sentido a minha pergunta é ecoada por Sérgio em sua última intervenção:

No entanto, o colossal problema é quando vai alguém e inclui nessa discussão o conceito de evolução artística. Há, sim, evolução tecnológica. Mas nada me mostra que a música tenha que passar por esse caminho para evoluir. Nada me diz que ele tem, por si, algo que o faça dono da modernidade estética. Nada me mostra que seja imprescindível que a canção passe por esse caminho para significar novidade.

Considero esse o ponto crucial para o entendimento sobre o que se discute aqui. O que estamos querendo discutir, e talvez questionar, é um pensamento que vem se tornando hegemônico no âmbito da canção atual que valora positivamente as inovações tecnológicas e considera negativamente as inovações formais, estéticas, as inovações ligadas à invenção humana. E quando digo humana, poderia dizer inovações de alma, como as inovações de um Guinga, por exemplo!
E essas inovações da alma passam quase sempre por um novo posicionamento harmônico-melódico, ou não estamos falando de música?

Daí vem à minha mente o artigo de Francisco Bosco, no qual ele afirma que Chico se mantém a margem da história (ou da contemporaneidade) para inscrever sua obra no paraíso atemporal da forma. Também discordo. Em seus últimos trabalhos, e falo dos trabalhos desde a década de noventa, Chico vem realizando uma profunda varredura nos dramas contemporâneos, dialogando com o futuro que já se torna efêmero, e dele tirando o sumo do que é humano. Gritantemente humano. Usa para tal empreitada, uma gama de recursos formais que parece ilimitada, brinca com palavras, frases musicais sem apoio, incorpora inovações rítmicas, desenhos inusitados, falsos refrões, enfim, faz da canção tradicional um maleável material para alcançar a expressão do que é mais perene e que não nos abandonara nunca: nossa finitude.

Mas parece que é exatamente nesse ponto que ele se afasta, ou se afastam dele. Suas personagens já não são mais tão encarnadas, elas carecem de história. Elas acompanham seu tempo e o denunciam. Suas melodias se esgarçam, e os próprios arranjos parecem passear propositalmente pelo pastiche. Onde Fróes enxerga redundância, eu vejo uma afinação com os valores correntes. O que é essa onda vintage senão uma apropriação pela canção de um conceito do mundo da moda? A valorização dos timbres em detrimento da forma não seriam um alinhamento à desconstrução das narrativas, ou uma aproximação ao conceito da supremacia do suporte sobre o desenho em artes plásticas? Pois bem, Chico compreende esse momento e se permite atuar fora do palco com os elementos dessa Cena (Outra apropriação da canção). Ele, mais uma vez, com a maturidade e leveza de espírito que sempre o caracterizaram, faz dessa cena sua ceia. Antropofágica?! Rsrs!

A pergunta que se coloca nesse caso é: Para que serve a canção? A forma acompanha a função. Bauhaus? Chico se vale da canção para modificar, eu diria, transformar nossa percepção do mundo, se vale dela para nos instigar. Podemos afirmar que ele é apolíneo? Eu reconheço muito mais em seu aprofundamento o bafejo do deus campesino da colheita e dos bacanais. Pulsação de morte-e-vida é o que não falta em toda obra do nosso Chico. E não só na dele. Toda a sua geração via na canção um lugar de arte. A canção atual parece, a meu ver, querer se aproximar cada vez mais de um alinhamento com a realidade, se valendo de recursos publicitários no que diz respeito às “idéias vencedoras”, e por outro lado se justificando melodicamente através num entendimento automático do público. Recurso publicitário. Melodias quase infantilizadas, profusão de timbres, recuperação de estilos, letras que prescindem das narrativas com frases suicidadas, abandono dos elementos de ligação, desprezo pela prosódia e, paradoxalmente,, também pela poética! Temos assim um quadro assustador, no qual o acessório toma o lugar do imprescindível! Bastam atitude, descompromisso, e só.

E a crítica, com raras exceções, parece inapta para captar essas transformações e dá notícias de dentro do furação. Evidentemente, muitos estão mais dentro do furacão do que outros, se vocês me entendem. O ferramental da maioria não ultrapassa os (pre)conceitos de uma geração formatada para pensar a canção do ponto de vista do pop anglo-saxônico. E a partir desse mirante, toda a produção cancional brasileira, realmente, pode parecer deformada. São linguagens muito distintas, embora tenham seus pontos de tangência.

Quero deixar claro aqui que abraço todos os recursos e não hesitei em usá-los no meu CD Transeunte, assim como não hesitarei em meus trabalhos posteriores, mas desejarei sempre que todos esses infindáveis recursos (com botões ou sem botões) estejam a serviço da emoção, da expressão, da comunicabilidade, da poética, da música, da canção enfim.
E não o contrário.

Abraço grande, companheiros.

Mauro Aguiar

O Salto – Mauro Aguiar e Edu Kneip

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7 comentários em “E segue o debate, com Mauro Aguiar

  1. Gustavo Bonin disse:

    Sim, sim…o Transeunte merece um texto. Merece muita atenção.
    “Onírica” é lindíssima!!

    “…mas agora pretendo existir…”

    Obrigado pelos texto Túlio.
    Abraço.

  2. Guilherme Granato disse:

    Entro nesta discussão depois que muita água já passou por debaixo da ponte, mas considerando a minha afinidade com o tema e o alto nível em que o debate se desenrola, não me contenho em colocar mais lenha nessa água.
    Gostei do artigo do Rômulo, mesmo não concordando totalmente com ele. Me parece que o cerne da questão gira em torno do conceito de evolução da linguagem musical ou da idéia de modernidade. Mauro Aguiar questionou as balizas que parecem orientar a compreensão de modernidade expressa pelo Rômulo em seu artigo.Esse ponto é especialmente interessante e vou recorrer ao ilustre Antônio Cícero, irmão da não menos ilustre Marina Lima, para elucidar alguns pontos.Em seu artigo O Tropicalismo e a MPB (Finalidades sem Fim/Companhia das Letras) Cícero , a partir de um fragmento de entrevista do Caetano Veloso em que ele cita a necessidade de se retomar a linha evolutiva da música brasileira, faz uma reflexão a respeito dessa questão.
    Em linhas gerais Cícero argumenta que podemos pensar numa evolução da música a partir da evolução técnica (chamemos assim) dos procedimentos composicionais, ou seja, “ que determinada tradição evolua em riqueza ou complexidade morfológica, sintática, semântica etc..” A música de concerto européia evoluiu dentro desse paradigma até o princípio do século XX e não é difícil transpor esse princípio para o que Chico Buarque fez com a música do Noel Rosa, por exemplo.Certamente por que foi discípulo atento de Jobim e exatamente por que foi isso que a Bossa Nova fez com o samba.
    Porem Cícero aponta para um outro tipo de evolução artística que denomina Elucidação Conceitual. Dentro dessa a linguagem não evolui tecnicamente dentro dos mesmos paradigmas anteriores, mas no sentido de uma mudança desses paradigmas.Nesse contexto ele enquadra o tropicalismo como uma corrente que não é mais sofisticada que a Bossa Nova, mas que representa uma evolução na medida que traz à tona uma outra maneira radical de pensar e organizar a linguagem musical.
    Dito isso podemos olhar de outro modo a dicotomia entre a evolução harmônico- melódica Buarquiana e a evolução timbrística-conceitual de Caetano. Evidentemente que justapô-las nunca será a melhor maneira de compreendê-las.
    Agora é preciso estar atento a certo fetichismo tecnológico que ronda a música( não só a música ).Nesse sentido a citação do Schopenhauer feita pelo Mauro se encaixa como uma luva.

    Guilherme Granato

    • Maravilha, Guilherme. Excelente você ter trazido o Antônio Cícero, que é alguém que pensa este assunto sob um prima diferente do da maioria dos que já foram citados neste debate (Wiskik e Tatit, por exemplo). Ainda vou voltar aqui para tentar organizar melhor estas idéias, mas acho que a chave do entendimento está em pensar em qual elemento é utilizado como organizador principal do processo composicional em cada caso. A reclamação sobre a supervalorização de “barullhinhos” e equipamentos faz sentido se estes forem utilizados apenas de forma acessória e superficial, e às vezes o deslubre com eles deixa entrever exatamente isto. Mas há também a possibilidade de estes elementos serem usados realmente como ordenadores da música, o que, insisto em dizer, apesar da discordância do Sérgio Santos, é algo novo em termos de canção (historicamente, é novo até em termos de composição erudita, é coisa do século XX). Ocorre que a incorporação deste novo paradigma não se dá sem dor, sem tentativa e erro,e muito menos por unanimidade (graças a Deus). Então, quando o Chico investe decididamente nas possibilidades que ainda restam da composição por ordenação harmônica, isto é perceptível para todos, mas quando o Luiz Claudio Ramos radicaliza esta vertente usando a harmonia (e não o timbre ou a melodia, é um dos pontos que quero tratar) também para ordenar os arranjos, isto cria um estranhamento. E de outro lado, criadas a partir de outros pressupostos, as canções deste pessoal que procura outros caminhos necessariamente vai ser menos articulada, menos estruturada – pois é outra estrutura que se procura. É umcaminho de transição com uma coexistência que provavelmente não vai deixar de haver. Tenho para mim que ainda falta uma maturação de ambas as partes no sentido de enxergar a possibilidade da troca. Aguardo ainda a chegada do compositor que conseguirá uma síntese entre estas possibilidades: canções em que se perceba o equilibrio entre uma harmonia complexa dialogando com uma riqueza de exploração tímbrica, utilizando as novas possibilidades tecnológicas sem deixar de explorar as da técnica já consolidada. Grande abraço e volte sempre.

      • Guilherme Granato disse:

        Passados os dias de folia, volto aqui para um breve adendo à essa questão. Sexta feira caiu em minhas mãos o Cd Capoeira de Besouro do Paulo Cezar Pinheiro.Mas o que isso tem com o assunto? Explico. Toda querela gira em torno da inovação, das continuidade da linha evolutiva da canção brasileira, do suposto estancamento da mesma, de quais valores devem orientar essa evolução. Penso que somos muito influenciados ainda pelos ideais das vanguardas artísticas do começo do século XX e pelos seus desdobramentos: ” Make it new” (Ezra Pound); ” Não existe arte revolucionária sem forma revolucionária” (Maiakovsk). A inovação virou palavra de ordem. Não vou falar aqui contra a inovação nem contra a liberdade, mas a questão é que vc deve ter um bom motivo para inovar.
        Voltando a Capoeira de Besouro, fui arrebatado pela beleza dessa cd ( que por sinal provem de um musical homônimo). Sou capoeirista e poucas vezes vi fusão tão bem feita, os arranjos, as melodias, a temática das letras.Paulo Cezar conseguiu traduzir nuances do imaginário da capoeira com fidelidade e inventividade, inclusive os capoeiristas ” da velha” que ouviram também gostaram. Não é um disco inovador no sentido mais radical do termo, não tem barulhinhos psicodélicos de nenhum tipo. Também não é um disco ousado formalmente ou harmônico-melodicamente. Tem uma dimensão inovadora na medida que ele traz canções ligadas ao universo da capoeira, mas fora do formato tradicional.A inovação no entanto não é a palavra de ordem ali, não com o mesmo afã de outros trabalhos de artistas que ja foram comentados por aqui.Então vc ouve, se deslumbra e pensa: Inovação pra que?

        * Artista que faz uma síntese da tradição com as novas timbragens e texturas tecnológicas de uma maneira interessante talvez seja a Ceu.

  3. Guilherme, agora você me deixou curioso sobre este álbum, de que tinha só ouvido falar. Saber mergulhar na tradição é uma forma de modernidade? Tenho para mim que sim. Abraços.

    • Guilherme Granato disse:

      Talvez seja. Aquela coisa de o moderno não ser exatamente o que é novo mas o que não fica velho
      . Abraço!

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