Samba enredo

Tráfego interrompido na Avenida Suburbana.
Em frente ao Norte Shopping, ensaia a bateria
Do Grêmio Recreativo Escola de Samba Caprichosos de Pilares.

O enredo deste ano é sobre a raça negra,
E a ala dos capoeiristas ensaia seus passos,
O tempo está fechando, vai cair um temporal,
Mas o povo junta para ver mesmo assim.

Os ritmistas são nossos virtuoses,
E o baticum tem uma complexidade sinfônica.
Os tamborins repicam em uníssono
E os diretores de bateria, nossos regentes,
Agitam os braços como alucinados,
Mantendo a confusão sob controle absoluto.

Um senhor, ogâ de candomblé,
Me contou uma vez que, para cada orixá,
Existe um ciclo de canções, ou pontos,
Que conta toda sua existência.
Quando cantados em seqüência, eles formam
Uma única e extensa epopéia,
Que pode se estender por uma hora.

Aqui, trata-se de uma só canção,
Mas repetida por milhares de pessoas
Por horas a fio — nosso mantra, nossa ópera.

Mas o templo e o palco
São na rua, na avenida.

No meio do fim de mundo da zona norte,
Em meio ao fim de mundo do fim da história,
Celebram-se antigas civilizações
E levanta-se a próxima civilização,
Enquanto não vem o temporal.

              8/10/fevereiro/1998
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