O transeunte Mauro Aguiar

Minha primeira impressão ao ouvir Transeunte, álbum de estréia de Mauro Aguiar, foi o de estar ouvindo um livro de contos. Ou dois, sendo um todo do mesmo autor, e outro, ao mesmo tempo, coletânea de vários. Ou novamente um, pela interação e unificação letra/melodia, contos/canções.

Num livro de contos, como num álbum, deve haver algo que semeie a diversidade, e também algo que o unifique. Em Transeunte, a resposta a ambas as perguntas é a mesma: a autoria. Mauro, letrista, juntou-se a diversos parceiros: Guinga, Edu Kniep, Zé Paulo Becker, Kalu Coelho, João Nabuco, Xande Fróes, Eduardo Neves, Rodrigo Lessa, Edu Krieger. Cada um, claro, com seu estilo particular de composição. E baião, samba, acalanto, valsa, frevo. Não são apenas ritmos diversos, mas escritas idiomáticas, que respeitam as particularidades melódico/harmônicas de cada gênero, como quem escreve um romance noir não prescinde de mistério, um pouco de névoa e uma boa loura fatal, e com estes ingredientes pode sempre tornar a surpreender. (A escrita do Mauro é também idiomática, falo depois.)

Não é incomum que letra e melodia de uma canção dependam uma da outra para fazerem sentido. Não há demérito nisso. O somatório letra/música deve sempre ser maior que a soma das partes, ou não faz sentido a junção de ambas. Porém, talvez como consequência das parcerias de Mauro com diversos compositores, as canções de Transeunte são completas desde antes da letra, já contam suas histórias desde a melodia/harmonia, com início, meio, fim, trabalhadas, com desenvolvimentos temáticos esmerados. Não há despojamento, nada pela metade, e sim a impressão de coisa pensada até ficar novamente natural. Escrever letras para canções que poderiam até se bastar sem elas implica num desafio para o letrista, que Mauro enfrenta galhardamente. E suas letras também se bastam, também ficam em pé sozinhas. E mais importante: a soma é maior do que as partes.

Como resultado, o álbum fica denso, embora não pesado (a melodias são todas cantaroláveis). Novamente como um livro de contos, ao fim de cada história, é preciso um tempo para respirar antes de mergulhar na próxima, Transeunte pede, ao fim de cada canção, um momento para que ela ressoe, suas imagens, seu universo particular (um espaço maior entre as faixas? rsrs), como um vinho deixa um bom gosto final na boca, depois da degustação.

Com isso, a identidade do álbum se forja sobre a poética de Mauro, que unifica os idiomas musicais dos parceiros em sua verve. Mas isto não significa que a poética de Mauro seja una: como o título do álbum não é casual, Mauro é realmente um transeunte entre os estilos diversos das canções que letra, tanto quanto o passante que narra o malabarista do Largo da Carioca na primeira canção, O salto. Aliás, um transeunte carioca, que, enquanto estabelece relação direta, idiomática, com o estilo onde passeia, faz questão de colocar neles a marca de seu sotaque. O fraseado verbal de Mauro acompanha o fraseado musical de seus parceiros na salsa, na valsa, no fox-trote, no samba-jazz, não se limitando à superficialidade da citação direta (a referência aos musicais em Dreams e Mentiras, por exemplo), mas buscando um se inserir no universo deste estilo, deste ritmo.

Mauro enfrenta então o mesmo risco de seus parceiros, de cair no estereótipo ao lidar com esta diversidade que não é apenas musical, mas carrega consigo um lastro de culturas variadas, como um transeunte tentando se fazer passar por nativo, cometendo crime de falsidade ideológica. Ele escapa desta armadilha com um misto de honestidade intelectual e habilidade poética: por admitir implícita e explicitamente sua condição, e saber beber na fonte de quem já fez estas leituras em primeira mão.

A letra de Sertão do Vale é exemplar em forma e conteúdo: trata-se da justificativa de si própria, Mauro explicando porque, sem ter a experiência real do sertão, vê-se no direito de fazer a letra de uma canção como esta, agreste, sertaneja. Mauro se recusa a simplesmente se utilizar do ritmo como um molho para tratar de qualquer assunto, mas também se recusa a se fazer passar por sertanejo escrevendo uma falsificação.

Não nasci no sertão nenhum, nonada!
Mesmo assim quero merecer sertão
Se roçado de algodão
Nuca foi da minha alçada
Trago aqui no coração
A saudade da invernada

Sendo assim piso a fulô no pó
Mesmo que seja fulô em pó.

Não cresci num verão mortal sem praia
Nem desci com meu matulão na mão
Das morenas do grotão
Nem rocei barra da saia
Mas em mim guardo a visão
De um jagunço na tocaia.

Quando então sou carcará sem dó
Mesmo que só carcará em dó.

No sertão choveu? Sei não.
Meu sertão sou eu e só.

Em Sertão do Vale a trajetória de internalização do Sertão corre via Guimarães Rosa (nonada, primeira palavra do romance Grande Sertão: Veredas), Luiz Gonzaga (matulão, palavra escolhida a dedo da canção Pau de Arara), João do Vale (Carcará e Pisa na Fulô, suas canções célebres). O sertão que Mauro canta é o sertão real? É, mas é também o sertão pelos olhos deles. Mauro canta o sertão e também quem cantou o sertão, e trazendo o sertão para si, traz também quem o cantou. E na faixa seguinte, Baião da Guanabara, faz o caminho inverso, levando seu sotaque para o sertão:

Aguenta a mão que eu tô levando a Guanabara
Carrego as águas da baía num baião
Chora mais não que o teu sertão vai virá praia
Vai ter catraia navegando a solidão.

Eu tô levando o céu do Rio
Tô levando o mar
Tô levando o Pão de Açúcar pra seca adoçar.

Assim, os dois movimentos acontecem simultaneamente: o sertão vai para dentro dele, o seu lugar para o sertão. Os movimentos explícitos que estas duas canções descrevem ocorrem em todo o álbum, em diversos estilos, de diferentes formas. É um modo que a poética urbana de Mauro encontrou para ter livre acesso a toda tradição e toda modernidade.

O que me leva, para terminar, à influência de Guinga, inesperada influência de um melodista sobre o letrista – de resto influência sobre todo um grupo de jovens compositores, entre os quais possivelmente todos os de Transeunte. Não, não superdimensiono esta influência, que, aliás, Edu Kneip contradiz, tendo consciência da quantidade de coisas que moldam e amadurecem um estilo. Mas não posso deixar de fazer o paralelo, lembrando que a parceria entre Mauro e Guinga tem mais de 10 anos, e citando o que Aquiles, do MPB-4, diz de Guinga:

A música de Guinga é larga – às vezes sinuosa feito estradinha de terra do interior. Música feita de subidas e descidas quase sempre íngremes, mas sempre com pequenas retas para descanso, após tantos volteios.

Pois a letra de Mauro também não anda em linha reta: em O salto, descreve o antes, o depois, a reação do público, os comentários dos passantes, e não o acontecimento em si. Vai, volta, volteia, às vezes parece deixar o tema de lado ao circundá-lo sem perdê-lo de vista, gingando carioca, mas principalmente flanando, vagando, transeunte.

Os olhos da cara – de Guinga e Mauro Aguiar – com Paula Santoro

Dreams e Mentiras – de Edu Kneip e Mauro Aguiar – com Mauro Aguiar e Marianna Leporace

Sertão do Vale – de Zé Paulo Becker e Mauro Aguiar

E o serviço:
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8 comentários em “O transeunte Mauro Aguiar

  1. Mauro Aguiar disse:

    Amigo Túlio,

    obrigado por essa análise tão pertinente! Você captou exatamente toda a intenção da arquitetura do “Transeunte”. Desde a escolha de repertório, entre tantas parcerias, até aos arranjos do diretor musical Mário Sève passando pelo trabalho de mixagem/ intervenções eletrônicas de Paulo Brandão. E foi além, compreendendo o lugar delicado em que nos encontramos, entre a tradição e a contemporaneidade, tentando saltos, escavando sertões mais míticos que reais, tentando compreender, através da canção, o que nos faz singulares e humanamente iguais. Seu texto é fluido e foi capaz de situar para mim, aspectos que estavam dispersos em meu pensamento e não se concatenavam. Mais uma vez obrigado.

    Abração

    Mauro.

    • Mauro, quando uma análise (que eu reluto em chamar de crítica) chega ao ponto de tornar mais nítidas questões até para o próprio autor, é porque está conseguindo atingir os seus objetivos. Obrigado pela presença e pelo generoso retorno, e ficamos no aguardo do próximo trabalho que está sendo gravado, ansiosos para ouvir e pensar sobre as novidades. Grande abraço.

  2. Gustavo Bonin disse:

    Maravilha!!
    Valeu Túlio.

  3. Gustavo Bonin disse:

    Então ficamos assim:
    Tem uma análise saindo, estou nela a uns 5 ou 6 meses, por enrolação e porque o parto sempre me é demorado, é do disco do Wisnik – Indivisível.

    Assim que ficar pronto te envio, combinado?

    Obrigado Túlio, pelo espaço e pelos textos. É sempre bom vir aqui.

  4. André Grabois disse:

    Fico emocionado de ler o trabalho de alguém que se dedicou a mergulhar numa obra e destrinchar o que ela causou em sua alma. E depois ver a réplica do próprio compositor! Poxa! Muito bom, nutritivo e engrandecedor. O Mauro Aguiar é realmente muito redondo, esse disco é impressionante. Gratidão. Tava ouvindo agora Sertão do Vale e me chamou atenção a virilidade dessa música. Interessante como cada música evoca uma energia, é um ser, um organismo vivo. Me fez bem. Abraços!

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