Uma aula de canção de Cole Porter

Falei aqui outro dia do formato básico da canção – ABACA – a partir do qual infinitas variações são possíveis. Sim, são possíveis, mas quanto mais distante vão, mais raras se tornam. A grande maioria das canções que ouvimos no rádio tem formas até mais simples que este padrão – sem a parte C, por exemplo. Saber extrapolar este formato com consciência exige engenho e arte.

Entretanto, esta fórmula esconde também detalhes específicos que se tornaram padrão no cancioneiro popular, em algumas de suas variações. Por exemplo, o padrão AABA com quatro estrofes de 8 compassos cada, totalizando 32 compassos, praticamente dominou a canção americana tradicional de grandes compositores de varias gerações, desde George Gershwin até Brian Wilson. (mais tarde o formato padrão tornou-se o estrofe-refrão, derivado de um ABABA, mas com um contraste marcado entre as partes, destacando o refrão bem mais que na forma AABA.)

Begin the beguine é apenas uma entre dezenas, talvez centenas de canções excepcionais de Cole Porter, um mestre da composição que sabia como ninguém explorar e, se necessário, ultrapassar os limites estritos da forma. Sua narrativa do amor que se foi e da esperança em sua volta não couberam na forma tradicional, e Cole Porter não hesitou em, partindo do formato tradicional, subvertê-lo e recriá-lo sob outros parâmetros.

A forma de Begin the beguine pode ser resumida em AABA’CC’, sendo as letras seguidas de apóstrofos correspondentes a variações. Mas antes disso, o próprio formato da estrofe de Porter já é uma variação, tendo 16 compassos em vez dos 8 tradicionais. Isto significa versos mais longos, mas principalmente a possibilidade de estender e trabalhar melhor as frases. O resultado é uma canção que, em vez de 32 compassos, tem 108 (!), e sem perder a fluência na audição, mas com uma complexidade de construção que levou o também compositor Alec Wilder a descrevê-la como um maverick – em sentido estrito, gado não marcado, e comparativamente, um exemplar (pessoa ou coisa) que recusa livremente os padrões estabelecidos. Vejamos a estrutura desta canção estrofe por estrofe:

When they begin the beguine
It brings back the sound of music so tender,
It brings back a night of tropical splendor,
It brings back a memory ever green

A primeira parte A é a típica exposição do tema. Na letra, pinta-se-se um cenário de memória, onde vão ser inseridos os personagens logo depois. O trocadilho que dá o título vai tornar-se o leitmotiv da canção, mas aqui é apenas apresentado com a melodia do verso inicial. O beguine é um ritmo caribenho, espécie de rumba lenta para ser dançada à maneira européia. A intenção de sua escolha é principalmente evocar um certo exotismo, ideal para a encenação de um musical – não esqueçamos que a maioria das canções de Cole Porter, incluindo esta, surgiram para espetáculos da Broadway. Porém, a citação de um beguine tocado na letra cria uma música dentro da música, que lembra outra música (como afirma o segundo verso), num exercício de metalinguagem que, estabelecido aqui, vai servir como sustentação de toda a canção, apoiado nas repetições do verso/título.

I’m with you once more under the stars,
And down by the shore an orchestra’s playing
And even the palms seem to be swaying
When they begin the beguine

A segunda estrofe, com exatamente o mesmo formato da primeira, introduz os amantes no cenário, e faz a primeira repetição do verso/título. Um jogo sutil de terminações se inicia aqui: o verso When they begin the beguine pode ser encerrado em três notas diferentes: na fundamental do acorde, em movimento descendente, indicando finalização de uma idéia; na terça do acorde, em linha reta, indicando uma continuação; e a quinta do acorde, indicando uma suspensão. Aqui, a terminação na terça serve de ligação para a parte B a seguir

To live it again is past all endeavor,
Except when that tune clutches my heart,
And there we are, swearing to love forever,
And promising never, never to part

A parte B, contrastante com a A, serve também para, aproveitando a modulação, mudar também o discurso, que passa do descritivo para uma evocação sentimental do passado. A estrofe se inicia com o acorde do tom, só que menor, já indicando esta passagem, e segue descendo dois tons nos dois primeiros versos, para depois cair numa sucessão de acordes suspensos que, ao mesmo tempo que preparam a volta à parte A, também dão uma impressão de irrealidade que é tanto da evocação da memória quanto da sensação de estar vivendo um sonho com o ser amado, descrita aqui com a expressão there we are, fazendo o passado presente.

What moments divine, what rapture serene,
Till clouds came along to disperse the joys we had tasted,
And now when I hear people curse the chance that was wasted,
I know but too well what they mean

Até aqui a canção teve forma similar ao formato AABA tradicional. Mas é aqui, na volta à parte A, que ela vai começar a se diferenciar. No segundo e no terceiro versos, a melodia assume uma variação que os torna mais extensos, esticando-se para o agudo em notas que chegam às dissonâncias dos acordes de harmonia. Isto serve para, na contramão do que deveria ser a última estrofe, aumentar a tensão do encontro amoroso que é e não é realizado, justamente quando é narrado o processo de separação e chora-se o que se perdeu. Assim, o último verso tem o tom de um lamento, mas não termina na nota fundamental, e sim novamente na terça, sinalizando que ainda não terminou.

So don’t let them begin the beguine
Let the love that was once a fire remain an ember;
Let it sleep like the dead desire I only remember
When they begin the beguine

Então, depois do fim da forma tradicional, vem a surpresa: Begin the beguine se reinventa numa inesperada parte C, que já se inicia na vitalidade de um clamor em linha reta no agudo. O grau de tensão emotivo chega a seu máximo, como numa cena de cinema em que o par romântico subitamente abandona os braços do parceiro por um motivo irresistível que os leva à separação, aqui numa tentativa desesperada de não sofrer, mal lembrar, calando a orquestra. Tentativa que já se sabe vã, e que leva à repetição do mesmo verso inicial, como que dito involuntariamente por quem quer esquecê-lo. Mas aqui sua terminação é ascendente, na quinta do acorde de tônica (nota fundamental da dominante, portanto), o que, além de indicar que ainda há algo a dizer, também parece pôr em dúvida exatamente a disposição de esquecimento expressa. E finalmente:

Oh yes, let them begin the beguine, make them play
Till the stars that were there before return above you,
Till you whisper to me once more, “Darling, I love you!”
And we suddenly know, what heaven we’re in,
When they begin the beguine

Agora a cena de cinema é outra: a do amante que se afasta vagarosamente na separação, para de súbito voltar-se e atirar-se novamente nos braços do parceiro, recusando-se a partir. Se o primeiro verso da estrofe anterior soava como um apelo, este soa como uma ordem, reiterada com o acrescentamento do make them play que ameaça extravazar o verso. O jogo de negação/afirmação, a contradição entre as duas últimas estrofes, sintetiza uma disposição de espírito que não é mais regida pela lógica, mas pelo sentimento em estado bruto. Novamente o passado torna-se presente, mas agora não pela evocação, mas pelo encontro real da canção, da canção na canção e da canção na memória, unificadas: que a orquestra toque até que o sonho seja real!

A estrofe tem 5 versos em vez dos 4 normais, o que a leva ultrapassar também o formato quadrado dos 16 compassos, como se se tentasse estender ao máximo a sensação de paraíso descrita na letra. Até que, enfim, o verso/título é repetido e finalizado na descendente, aterrissando na nota fundamental e apontando o fim da canção. Mas não sem antes uma outra repetição que ascende verticalmente uma oitava, como um grito de júbilo, de felicidade.

Cole Porter chegou a afirmar que não conseguia tocar Begin the beguine sem se guiar pela partitura. Talvez tenha sido um gracejo, mas dá ideia do grau de sutileza que ele próprio reconhecia em sua engenharia, o que a torna, como afirmei no título, uma aula de canção. Mas o que a torna uma obra-prima é o fato de nada disso ter importância no momento em que se a ouve. E acho que não é preciso dizer mais.

com Frank Sinatra

com Gal Costa, numa maravilhosa versão em bossa nova

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4 comentários em “Uma aula de canção de Cole Porter

  1. Belíssima postagem, texto com um profundo conteudo que só vc saber escrever.
    abs
    estou postando em meu blog

  2. Não gosto da gal cantando em inglês,mas nessa gravação ela está perfeita.

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