Teresa, um palimpsesto

Henrique de Borgonha tinha poucas chances de alcançar fortuna, pois, embora fosse de uma das famílias mais nobres da Europa, era filho caçula, não tendo direito a herança. Assim, sua única saída era a mesma de muitos nobres arruinados ou com perspectiva de conquistas naqueles primórdios do século XII: aderir às Cruzadas ou, no caso, um seu reflexo, a Guerra da Reconquista da Península Ibérica aos mouros. Depois de ajudar o rei Afonso VI de Leão e Castela a expulsá-los da Galiza (o noroeste da Espanha atual), recebeu dele as terras um pouco mais ao sul, o Condado Portucalense, além de casar-se com uma filha ilegítima do rei, Dona Tereza de Leão.

O filho de Henrique, porém, após a morte do pai, entrou em conflito com a mãe, que pretendia manter o domínio sobre as terras aliando-se a Dom Fernão Peres de Trava, de uma poderosa família da Galiza (dizem que também seu amante). Portanto, Dom Afonso Henriques se rebelou, declarando suas terras independentes de Leão e Castela, e proclamando se rei Afonso I de Portugal, em 1139.

No entanto, em Portugal não se falava português, e sim galego, ou melhor, galego-portugês, como é chamada hoje a língua que o originou. É justamente a partir do isolamento político de Portugal independente que a língua portuguesa vai começar a desenvolver sua identidade, incorporando, por exemplo, elementos árabes, enquanto o galego derivava para o espanhol. O primeiro documento escrito em português reconhecido é o testamento de Afonso II, neto de Afonso I, de 1214. Porém, o marco do fim do português arcaico (e portanto início do moderno) é posterior ao Descobrimento do Brasil, datando de 1516! E a primeira gramática da língua portuguesa só surgiu 20 anos depois.

E por que este blog sobre a canção está falando destas coisas? Um pouco de paciência para penetrar nos meandros desta novela. Sancho I, segundo filho de Afonso I e segundo rei de Portugal, por ser o segundo filho só herdou o trono pela morte do primogênito. Teve inúmeros filhos e filhas (onze do casamento, mais vários naturais). A primeira filha era mulher, chamada Teresa – ou Tarasia ou Tareja, conforme se falava. Tereza casou-se com outro Afonso (não se perca). Este era Afonso IX, rei de Leão (que a esta altura estava separado de Castela). Porém, depois de terem tido três filhos, o casamento foi anulado pelo fato de serem primos em primeiro grau! Afonso IX era neto materno de Afonso I de Portugal, e sobrinho de Sancho I.

Então começam as desventuras de Teresa. Com a morte de Sancho I, Teresa herdou o Castelo de Montemor-o-Velho, mais suas redondezas e proventos. Suas segunda irmã Sancha e a caçula Mafalda herdaram propiedades do mesmo porte, e todas o direito de usarem o título de rainhas. Isto gerou em Afonso II, seu irmão, o temor de que Tereza, ao morrer, deixasse as vastas terras para os filhos, herdeiros do reino de Leão, o que significaria o desmembramento de Portugal. Assim, bloqueou o testamento. Diante disto, Teresa se recolheu a um convento. A pendenga só foi resolvida depois da morte de Afonso II por seu filho, Sancho II, que concedeu às tias o usufruto das terras, desde que renunciassem ao título de rainhas.

Afonso IX, ex-marido de Teresa, por sua vez, casou-se de novo, e teve mais cinco filhos. E no entanto, acreditem, seu segundo casamento também foi anulado por consanguinidade! Berengária de Castela também era sua prima, desta vez em segundo grau. Com a morte de Afonso, o reino de Leão passou a ser disputado pelos filhos de ambos os casamentos, com o agravante que Afonso havia deserdado o primogênito, Fernando de Leão, filho de Teresa. Finalmente, com a intervenção dela, outro Fernando, filho do outro casamento e rei de Castela, asumiu o trono, tornando-se Fernando III de Leão e Castela e unificando os dois reinos, iniciando com isso um processo que possibilitou as Grandes Navegações séculos mais tarde, mas que só terminaria com o fim da Reconquista e casamento de Isabel I de Castela e Fernando II de Aragão, em 1469, unificando estes reinos e constituindo o reino da Espanha.

Teresa voltou então ao convento, onde permaneceu até sua morte, em 1250. Em 1705, o papa Clemente XI beatificou Teresa e Sancha. Mafalda se juntou a elas em 1793, beatificada por Pio VI.

Contada toda esta história, um leitor desavisado pode pensar que nunca havia ouvido falar destes personagens, especialmente da Beata Teresa de Portugal. Ledo engano. Veja se já não conhece de cor esta história:


Clipe com animação de bonecos, pela Companhia Tempo de Brincar, de Elaine Buzato e Valter Silva.

Terezinha de Jesus
de uma queda foi ao chão
Acudiu três cavalheiros
Todos de chapéu na mão

O primeiro foi seu pai
O segundo seu irmão
O terceiro foi aquele
Que a Tereza deu a mão

Terezinha de Jesus é a mais antiga canção em português ainda constante no repertório popular. Como todas as cantigas folclóricas, tem sua origem envolta em bruma. Há registros dela, ou de versões dela, na Ilha da Madeira, possessão portuguesa no meio do Atlântico, no formato de charamba, uma dança açoriana. Antes disso, ela se perde nos tempos. Há quem defenda que a Tereza em questão seria Santa Terezinha, e que os três personagens masculinos seriam respectivamente, o Pai, o Filho e o Espírito Santo – este a quem Tereza deu a mão. A hipótese explicaria inclusive o erro de concordância do verbo acudir, “uma vez que Deus é uno e trino” (sic)

Interpretações como esta, apesar de um bocado forçadas ao tentarem abarcar detalhes, não são de todo absurdas, dada a religiosidade devota do povo português. Fato é que uma canção folclórica como esta passou, literalmente, por milhares de vozes que são todas suas autoras em algum grau, e que a vão construindo até hoje – prova disso é que há inúmeras versões para além das duas estrofes mais antigas, incluindo as duas cantadas no vídeo acima, além da correção do verbo acudir (possivelmente um resquício do português arcaico), nestes tempos em que a canção infantil tem quase sempre uma preocupação pedagógica embutida. Não há provas, mas apenas evidências, da correlação entre a Beata Tereza e a cantiga. Certo é que a crônica popular dos acontecimentos por meio da música é regra em populações sem alfabetização, maioria absoluta num Portugal que ainda mal se firmava como país.

Uma interpretação menos direta, porém igualmente instigante, diz respeito à posição social da mulher na sociedade – válida desde a época de Teresa e antes, até o século XX. Tomando-se aquele a quem Teresa deu a mão como seu marido, ela passa da responsabilidade do pai para a do irmão (quando da morte do primeiro), para enfim passar a ser posse do homem que a desposa numa vida de dependência e obediência absoluta a uma hierarquia masculina. Cantada num delicado tom menor, num casto ternário, Terezinha de Jesus seria então um retrato da passividade históricamente imposta à mulher. Ora, direis, esta interpretação entra em contradição com a vida de Teresa, que teve seu casamento anulado. Mas antes de ser contradição, esta polissemia é que garantiu à cantiga a sobrevida que teve e tem, partindo de um fato determinado para se tornar o retrato da cultura que a alimenta continuamente.

Mas há, sim, uma diferença fundamental na trajetória de Teresa: ela entra para o convento. Assim, o homem a quem Teresa dá a mão não é seu marido, cujo casamento é anulado e que ainda por cima despreza o primogênito: Teresa esposa a Deus. Trata-se de uma saída diversa do destino natural da mulher, talvez a única possível a quem passava por uma queda como a que Teresa passou. E no entanto, há nesta saída a manutenção da dignidade. Neste sentido, Terezinha de Jesus, conantdo a história da mulher que se sobrepôs a diversos revezes e lutas familiares, conseguindo afinal sobreviver, serve também como a crônica da luta da mulher pela afirmação e pela sobrevivência num mundo masculino, dentro das circunstâncias da época, com vieses tanto sociológicos quanto psicológicos.

Terezinha, de Chico Buarque, com Maria Bethânia, na visão já clássica dos Trapalhões

Chico Buarque partiu da narrativa de Terezinha de Jesus para compor uma canção que é o desdobramento exato desta visão do lugar da mulher. Na canção do Chico, o primeiro homem que se apresenta tem todas as características dessexualizadas do pai, ao passo que o segundo, com seu comportamento agressivo e competitivo, assume a característica do irmão, com os quais se desenha uma relação edipiana. O terceiro é o amante, que tem a percepção completa da mulher e permite a ela a realização no relacionamento, o amadurecimento afetivo e sexual. Note-se que efetivamente este processo cantado pela Bethânia está inteiro implícito na narrativa da cantiga original. Não é à toa: Terezinha de Jesus é uma canção que possivelmente passou quase um milênio sendo repetida, elaborada, macerada, desbastada, lapidada, conciliando assim, como todo canto popular, uma extrema simplicidade com uma superposição espantosa e extremamente profunda de significações, desde a crônica popular das fofocas da famílias real até o processo de formação do sujeito, passando pela discussão do lugar da mulher na sociedade. Além de ter testemunhado o nascimento de uma língua e de um país, atravessando oceanos e espalhando-se por continentes, em inúmeras camadas de leituras e interpretações. Tudo isto em oito versos. E 900 anos.

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3 comentários em “Teresa, um palimpsesto

  1. Eu achava que essa cantiga de roda,fizesse parte do folclore brasileiro.

    • Mas é – ou é também. Mas as raízes dela são portuguesas, como muitas outras. Nem sei se ela ainda é cantada lá, pra falar a verdade. Mas também há tantos cantos africanos que se tornaram brasiileiros, não? A cultura popular tem caminhos tortuosos, muitas vezes subestimados. Abraço.

  2. José Souto disse:

    Fascinante. Essa interpretação é sua (sobre a letra da canção representar os eventos históricos do século XII), ou há historiadores que já pesquisaram essa origem em fontes originais? Parabéns pelo texto, muito bom.

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