As ondas da classe média no mar da MPB

No livro História Social da Música Popular Brasileira, o José Ramos Tinhorão conta, entre outras coisas, como o surgimento de uma modesta classe médiano Rio de Janeiro do século XIX, oriunda da Abolição da Escravatura e em parte emigrada de outros estados em busca de oportunidades na capital, deu origem a nada menos que o ritmo que definiu o Brasil no século seguinte: o samba.

Batuque na cozinha – João da Baiana (no saxofone, Pixinguinha)

A letra de Batuque na cozinha é uma aula de sociologia. O negro escravo até uma ou duas décadas atrás agora mora em uma casa de cômodos, ou seja, uma pensão barata num bairro pobre. Nega morar ali para a polícia para não dar confusão para o seu lado, dfeixa escapar que, sem dinheiro, tivera que empenhar o violão – que por sinal era um instrumento de vagabundos. Cada vez que tenta se defender, o sujeito se enrola mais, e aí está uma das graças da canção. Trata-se de uma classe remediada, na qual, entretanto, havia inclusive funcionários públicos, como constata Carlos Sandroni no seu livro Feitiço Decente.

Tratada também com graça, mas não tão engraçada, é a tensão racial premente, que explode em uma briga que leva todos para a delegacia. A casa de cômodos agora precisa ser dividida entre brancos e negros, todos pobres. O conflito aqui não é apenas social, é também sexual. O branco tem ciúme de uma crioula, de uma mulata, de uma branquinha, mas ao mesmo tempo João da Baiana reclama que ele está de olho na minha mulher. O homem branco, aqui historicamente caracterizado, é o possuidor da mulher e do negro; simbolicamente, o personagem branco na canção tem ciúme de todas as mulheres e quer a posse de todas, inclusive a do negro, independente da cor.

Outros versos importantes: Se o branco tem ciúme / Que dirá o mulato, reveladores de uma ambiguidade na figura do mestiço, aquele que está na posição de tentar escapar de ser negro, e por isso se põe no espaço do hibridismo para dele escapar pela tangente. Daí a tensão com o branco que ele tenta ser mas não o aceita, e também com o negro que nega e denuncia sua tentativa de escapar. No fim, o autor se identifica como nordestino do Maranhão (paraíba é uma conhecida gíria para nordestino no Rio), lugar de negros e também índios, um dos estados mais miscigenados do país.

Revelador também é o conhecido refrão, de referência dupla: a sinhá que não quer batuque na cozinha é a dona da casa de cômodos, em interpretação direta. Mas é também a dona de escravos, a Iaiá. A situação do negro indefine-se entre a herança da escravidão e a afirmação como uma nova camada da população. O samba será decisivo para esta afirmação, ao longo de décadas e décadas

A análise de Tinhorão é interessantíssima por mostrar como esta condições históricas propiciaram a fusão de diversos elementos que incluíram rítmos europeus e africanos, mas também de sonoridade, definição da formação instrumental, enfim, criação de um estilo. No entanto, Batuque na cozinha deixa patente que o samba, sendo a música de uma classe ascendente, era também alvo de repressão e preconceito. Por volta de 1915, tramitava na Câmara do Rio projeto de lei que obrigaria a todos o uso do paletó e sapatos no Município Neutro. Na época proibiram o violão, o jogo do bicho, perseguiram os batuques, as fantasias de carnaval.

Este ciclo já se repetiu diversas vezes na história da música brasileira. Fusões e definições de novos estilos como esta, ligadas a momentos históricos análogos, não aconteceram nem uma nem duas, mas diversas outras vezes durante o século XX. Vejamos apenas uma destas ondas:

Em 1994, o Plano Real, derrubando a inflação, permitiu o súbito aumento de poder aquisitivo de uma parcela significativa da população. Sucessivos símbolos foram sendo eleitos a partir da percepção das estatísticas. Frangos, dentaduras entravam nas possibilidades de acesso a uma classe social até então simplesmente descamisada, como a chamara Collor. Mas um fenômeno musical em particular foi resultante daquela mudança econômica: o surgimento do que à época foi chamado de pagode paulista ou mauriçola, de grupos que se apresentavam em programas de auditório com coreografias para que os vários integrantes sem instrumentos disfarçassem o playback, com canções românticas ou escrachadas (às vezes ao mesmo tempo) em que tentavam convencer a namorada a largar a faculdade para ficar com eles…

Sintomaticamente, o primeiro grupo a fazer sucesso chamava-se Raça Negra. O Segundo, seguindo a mesma trilha, Grupo Raça. O terceiro, mantendo a métrica mas tentando mudar o foco, Ginga Pura. Logo surgiram grupos que relativizavam a questão racial, como o Negritude Jr., Só Preto Sem preconceito, e até o Chocolate Sensual (!) A canção paradigmática deste difícil autorreconhecimento tem o refrão: Tem magia nossa cor / Nossa cor marrom / Marrom bombom, do grupo de sintomático nome: Os Morenos. A admissão da miscigenação como sendo não um meio de caminho, mas uma identidade em si, afirmada com orgulho, tem ainda assim algo de ambíguo, mas é claramente diferente da tensão de Batuque na cozinha.

Estes grupos de samba em grande parte já existiam antes, apenas não tinham acesso a gravação, numa época imediatamente anterior à popularização da tecnologia das gravações digitais caseiras de qualidade. Quando as gravadoras perceberam que um enorme público novo agora tinha dinheiro para comprar CDs de preço estável, investiu pesado neles, e o resultado foi o que se viu. Não é um processo diferente do que ocorreu na virada do século XX, com o surgimento dos processos de gravação.

Hoje é fácil dizer que grande parte destes grupos não tinha a menor qualidade. Acontece que, junto com eles e ao mesmo tempo veio a turma do Cacique, hoje reverenciada: Zeca, Jovelina, Almir, Fundo de Quintal. Em compensação, a maioria destes grupos dos anos 1990 não se referenciava ao universo do samba, e ao serem perguntados por suas influências, citavam Tim Maia e Jorge Benjor. E havia no meio de muita busca de sucesso fácil grupos como o Art Popular, que fez experiências de samba eletrônico, fusões com música sertaneja, entre outras coisas. Por outro lado, o surgimento do pagode paulista (o nome não é à toa) representa o momento em que a prioridade da determinação da onda cultural afasta-se decididamente do Rio de Janeiro e se abre para todo o país – e suas classes ascendentes. É sintomático que justamente o samba, que referenciou a música nacional por um século, seja o ritmo base para esta abertura.

Basta pensar um pouco para lembrar várias outras ondas recentes na nossa música popular, com características diversas, mas em todos os casos com um processo em comum: um estilo artístico se formava pela fusão de características de gêneros tradicionais com influências externas – assim como o samba, que entre suas influências originais tem a polca; um grande público se formava fora dos meios de comunicação de massa, constituído por uma parcela da população que tinha acesso econômico ao consumo e passava a comprar a música que a interessava, em gravações e shows; e então o mercado percebia este movimento, encampava o estilo – inclusive modificando-o e criando artistas, mas principalmente trazendo para si os já existentes – e surgiam então ídolos nacionais. Isto ocorreu com o sertanejo, com o funk carioca, com o axé baiano. E está acontecendo de novo.

Xirley – Gaby Amarantos (de Zé Cafofinho, Original DJ Copy, Chiquinho, Marcelo Machado e Hugo Gila)

As festas de aparelhagem são um fenômeno de popularidade no Pará há anos. Não faltam reportagens sobre como os artistas locais alavancaram suas carreiras nas enormes festas e na venda de CDs caseiros, numa espécie de auto-pirataria, à margem da grande e decadente indústria de discos. Misturando sem nenhum pudor ritmos da região como o carimbó com música pop e eletrônica, entre outros elementos, eles criam estilo sobre estilo, numa vitalidade incrível. Porém, até poucos anos atrás, tratava-se de uma fenômeno regional, como inúmeros outros – o vanerão na região sul é só um entre muitos exemplos. Até que algo mudou, e não foi no Pará, mas no Brasil.

O que ocorreu foi a cantada e decantada ascensão da classe C, a chamada nova classe média. Outra vez uma parcela a população brasileira teve seu poder aquisitivo aumentado, outras vez a música que uma parcela consumia ganhou massa crítica a ponto de chamar a atenção do mercado. E outra vez, ao mesmo tempo cortejada pelos comerciantes, sejam os das gravadoras da Casa Edison ou as redes de televisão e suas telenovelas, e é desprezada por uma outra parte da população, que chegou antes e não gosta de ter seu nicho invadido – e esta tensão, agora, mais cultural que racial, dividida ente o fascínio pela imensa vitalidade destas manifestações e temor de ser confundida com ela…

Xirley Xarque é o alter-ego construído por Gaby Amarantos como protagonista da canção Xirley. A letra de Xirley é pequena, deixando no entanto entrever algo muito maior em sua descrição sintética da personagem:

Saia vermelha, camisa preta
Chegou pra abalar
Quando tu for na casa dela, lhe buscar, ela vai preparar
Café coado na calcinha, só pra te enfeitiçar

E se tu for na aparelhagem
Tu vai ver só o que ela vai aprontar

Eu vou samplear, eu vou te roubar

O clipe de Xirley, no entanto, traz em sua narrativa repetida retratando a ascensão da estrela a alegoria exata da ascensão desta nova classe média, uma classe média que não se nega ao ascender, ao contrário, tem orgulho dos valores mantidos – para o bem e para o mal. Há um humor e um auto-reconhecimento implícitos, sem auto-depreciação nem exaltação cega, mas uma consciência muito exata de quem é e o que representa.

Por sinal, Gaby é ela própria uma representante da miscigenação, racial (o Pará, vizinho do Maranhão citado em Batuque na cozinha), social, cultural. No caldeirão de Belém surge um estilo musical por semana – a dupla Calypso, que ganhou visibilidade nacional alguns anos antes, confessa-se desatualizada em relação às novas tendências surgidas por lá, continuando num estilo que vai ficando datado no lugar de origem. Misturas novas não param de ser feitas.

A fusão rítmica do tecnobrega é comparável ao samba mauriçola dos anos 90, que na verdade já era sambalanço, e comparável também à descrita por Tinhorão um século antes, entre ritmos alienígenas e nativos, que deu no samba. As tensões raciais/sociais se resolvem esteticamente na música de Gaby, em sua mistura descomplexada e afirmativa – o que não quer dizer que deixem de existir, apenas que são enfrentadas com um olhar novo, que vai se constituíndo aos poucos desde João da Baiana, passando pelo pagode mauriçola e pelo funk, entre outros.

Merece destaque especial o último verso de Xirley: Eu vou samplear, eu vou te roubar, revelador desta estética da mistura que ganha novas possibilidades com a tecnologia. O anúncio descarado é a relativização da autoria em estado mais puro, visão de artistas que se acostumaram a, até por questões de sobrevivência, não se importar com a cópia do próprio trabalho e chegaram a transformar isto em estratégia de sucesso, e que funciona como dístico desta cena cultural do Pará (e não só dele) que não rejeita influências e as coloca todas na roda. Poderia servir de dístico também o nome genial de um dos autores, o Original DJ Copy, que sob este nome-manifesto é também produtor e agitador cultural reconhecido – além de DJ. Estes artistas sabem que não estão fazendo nada de novo – mas também sabem que eles próprios são o novo da vez.

Apropriei-me de uma interpretação de José Ramos Tinhorão, relativa à virada do século XX, e a extrapolei para o início do século XXI. Tinhorão, com sua análise abertamente marxista, certamente discorda, é conhecida sua opinião de que a música brasileira pós-bossa-nova se deixou colonizar. Entretanto, as contradições dialéticas pedem sempre novas sínteses. Historicamente, um padrão se repete na formação de uma identidade brasileira: influências contraditórias são sintetizadas e ganham mundo conforme uma parcela da população põe, ainda que precariamente, a cabeça para fora d’água. Sua síntese servirá como elemento para a próxima contradição, que gerará a nova síntese, e assim sucessivamente, criando nossa identidade fluida e sempre nova. E a classe média sempre nova, a classe baixa ascendente da vez, traz sucessivas lufadas de ar fresco, é outra vez desprezada em si e em sua música, que no entanto uma ou duas décadas depois torna-se a música legítima de todo o país. Aproveitemos os ares novos que sopram, e vejamos os caminhos que eles vão tomar. Daqui a 20 anos nos falamos, ou na próxima semana.

P.S. Este longo artigo deve boa parte de suas elucubrações ao Gabriel e à Tatiana, pelas discussões sobre racismo e afirmação negra; ao Chico Furriel, por me lembrar do Batuque na cozinha; e ao Leonardo Davino, que me apresentou Gaby Amarantos no Facebook.

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3 comentários em “As ondas da classe média no mar da MPB

  1. Assis Furriel disse:

    Olá Túlio,

    legal o artigo e obrigado pela referência ao meu link. Aliás, já respondi ao seu comentário por lá tb. Fora este texto, já havia postado um vídeo que montei em homenagem ao João da Baiana e à contribuíção do negro neste contexto que vc menciona. Vale conferir: http://blogdochicofurriel.blogspot.com.br/2010/11/batuque-na-cozinha.html Existe um texto associado a ele que escrevi para uma das disciplinas: Brasil II. Abraços!!!

  2. Só o refrão de joão da Baiana é entendível,não sei se é problema de dicção,ou a precarização dos aparelhos de captação de som da época.

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