Theodor Adorno contra Alexandre Pires

Este blogue tem por princípio ser positivo. Ele não foi criado para a chamada critica destrutiva. Mesmo ao tratar aqui de música que não seja exatamente do meu interesse, faço questão de ser propositivo, e não de me limitar a denegri-la. Quanto ao que realmente não me agrada, simplesmente deixo de citar, e creio que o leitor do blogue terá suficiente inteligência para perceber o que me interessa e o que não. Acredito sinceramente na necessidade de combater o bom combate, mas também acredito que ele consiste em ressaltar o bom, e não em dar publicidade gratuita ao mal.

Todavia, quem pretende falar de música popular não pode se furtar a dar atenção ao que ocorre no chamado mercado, independente de seu valor artístico. Pode-se adorar ou detestar Michel Teló, Lady Gaga e quejandos, mas não ignorar que são fenômenos de popularidade que, ao menos em parte ou de alguma forma, se devem à música. E como tais, precisam receber a atenção que indique, ao fim e ao cabo, o que a música tem a ver com isso. Isto implica que a análise musical não é unicamente estética, mas também sociológica, semiótica, psicológica e se utilizará de tantos saberes quantos achar necessários. Mas é certo que na boa obra de arte – e em alguns casos na ruim também – a questão estética será capaz de sintetizar todas as outras. E quando isso acontece, ainda que involuntariamente, me interessa.

Dito isso, explico a que se aplica este intróito: o cantor Alexantre Pires está sendo investigado pelo Ministério Público de Minas Gerais desde fevereiro sob a acusação de racismo no clipe da canção Kong. A música tem participação do rapper Mister Catra, e ele e o jogador Neymar participam do clipe, que está ameaçado de ser retirado do ar judicialmente se a investigação considerar a acusação procedente.

A notícia, claro, deu margem a muita discussão. Não houve consenso sobre se haveria realmente racismo no clipe ou na música – ou melhor, se o fato de cantor, convidados e atores se fantasiarem de macacos constituiria racismo. A certo ponto, a seguinte imagem começou a ser compartilhada nas redes sociais:

Ela trouxe à baila então outra música e outro clipe, agora da banda Jota Quest:

A partir daí, participei de um pequeno debate com alguns amigos no Facebook, e, entre argumentos discordantes, da comparação entre estes dois clipes/canções de artistas que, em princípio, não me interessam nada ou quase nada, fui tentar entender um pouco dos mecanismos do racismo no Brasil. Começando com as perguntas: este clipe/canção é racista? Por que? O clipe/canção do Jota Quest é racista? Por que? Quais as diferenças entre um e outro? E finalmente, indo ao real ponto de partida: o racismo, nestes casos, está nas obras ou na maneira de olhá-las? No desenvolvimento da argumentação, acabei me espantando com minhas próprias conclusões.

Começando pelo argumento da ilustração: tentemos imaginar uma troca de protagonistas entre os dois clipes, independentemente de temática: Um negro como Alexandre Pires nos vocais do Jota Quest, um branco como Rogério Flausino cantando no outro clipe. É verdade que a acusação de racismo mudaria de lado? A meu ver, sim. Um dos debatedores do Facebook afirmou que nunca pensou nem viu ninguém nunca aventar racismo do Jota Quest, e que o entendimento geral era de referência à humanidade. Entendi e concordei. Mas se fosse um grupo de negros, esta interpretação se manteria? Acho que não. E, da mesma forma, num clipe de Kong só com brancos as fantasias de macaco poderiam até não ser entendidas como humanidade, mas obviamente não haveria mais a associação negro/macaco.

Insisto neste ponto de partida para deixar claro que, muito mais que uma visão negativa dos negros no clipe de Kong (pessoalmente, achei muito mais depreciativa a visão da mulher apresentada – mas trato disso adiante), o que está em jogo é a visão da sociedade sobre o assunto. É bom notar que Alexandre foi acusado de racista pelo movimento negro, que luta contra o racismo. Porém, ao fazer a diferença entre um branco e um negro vestindo a fantasia de macaco e afirmar que o negro não pode fazê-lo – pois Alexandre Pires está sendo processado – o que o movimento negro afirma, em última instância, é que um negro está proibido de fazer uma coisa que um branco pode fazer! O que é uma demonstração inequívoca de racismo. Um racismo avesso, cuja manifestação, espantosamente, não vem do preconceito, mas da tentativa de evitar o preconceito alheio, levando-o em conta de tal maneira que acaba determinando as próprias ações.

E no entanto, os partidários da causa negra tem mesmo razão em uma coisa: implicitamente que seja, a sociedade faz mesmo a associação entre negro e macaco, o que torna o clipe realmente racista, ainda que à sua revelia. E é aí que a coisa se complica, já que os que protestam contra o vídeo tem e não tem razão, e quando tem razão, parece ser em parte pelos motivos errados. Então a pergunta muda para: é justo imputar ao artista a interpretação que fazem de sua obra? E é justo absolvê-lo inteiramente? (Adianto que esta questão é tão mais importante quanto mais se revelará uma falsa questão.)

Por livre associação de idéias, pensei então em Woody Allen. Deveria o judeu Woody Allen ser proibido de fazer piada com judeus? Se alguém o processou por isso, perdeu, graças a Javé. Notemos que a questão aqui não é fazer piada ou não – a passamos ao largo de Rafinhas Bastos e congêneres. A questão aqui é o direito de alguém tomar uma atitude que possa ser interpretada como depreciativa em relação à sua própria etnia, ou mesmo religião ou grupo social. No caso de Woody, é muito claro que ele tem este direito. E por que? Porque ele não faz isso gratuitamente, e aí nos aproximamos do centro da questão. Porque ele o faz de maneira consequente, com profundidade e investigação artística e estética. Chegamos ao ponto.

E este ponto é a surpresa, porque é um ponto de virada: aqui a discussão sai do plano sociológico e passa a ser definida pelo estético. Eis porque fiz questão de abrir este texto com o aviso do primeiro parágrafo: vai aqui uma crítica feroz, absolutamente inevitável – e no entanto faço-a sem lamentar, porque, na verdade, Alexandre Pires não é um artista, ou melhor, tem pouquíssimo de arte em seu trabalho. Penso em Theodor Adorno e suas teorias sobre a Indústria Cultural, em que a arte é tratada como mercadoria pura e simples. Ela encorajaria uma visão passiva e acrítica do mundo ao dar ao público apenas o que ele quer, desencorajando o esforço pessoal pela posse de uma nova experiência estética. (Citando o resumo Wikipediano)

Alexandre Pires é um entre tantos exemplos acabados em que o componente artístico e musical se põe inteiramente a serviço do componente mercadoria, que necessariamente, para ser vendável não pode causar o desconforto de questionamentos ou experimentações artísticas, para atingir uma parcela maior do público (aqui caberia uma extensa discussão sobre publicidade e marketing. O fato é que a publicidade é profundamente conservadora e não investigativa – mesmo a que ganha prêmios). Sua música é rasa como seu sobrenome, e reprodutora de valores acríticos e depreciativos: basicamente, a canção/clipe de Kong é um convite para uma suruba (ou talvez zoofilia…). A desvalorização da mulher no clipe é bem mais evidente que qualquer postura racista – e foi muito menos comentada, embora esteja também sendo investigada pelo Ministério Público. Antes de haver racismo nas fantasias de macaco, o que há é uma bestialização absoluta. Como diz Mister Catra num momento, é instinto de leão com pegada de gorila. A música trata de exaltar a liberação de instintos animalescos, e se limita a isto. A avaliação é moralista? Seria possível escapar dela se houvesse algo mais além disso. Mas a canção em si não passa de um amontoado de clichês, trocadilhos medonhos (É no pelo do macaco que o bicho vai pegar) e coreografias ridículas.

E daí? Daí façamos uma última substituição: imaginemos que, em vez de Alexandre Pires, um outro cantor agora também negro, tome seu lugar na fantasia, um com uma carreira artística consistente, sem deixar de ser um sucesso comercial, um Gilberto Gil da vida (esqueçamos por um momento o contexto e a qualidade da canção, tratemos só do acontecimento, Gil de gorila). Será que a acusação de racismo persistiria? Tenho para mim que não. O fato de a música de Gil ter qualidade artística inequívoca – que inclui a experimentação estética e a explicitação de valores questionadores e inovadores – faria, por si só, independente da música que acompanhasse (mas obviamente Gil não faria uma música como esta) com que a leitura do fato de ele se vestir de macaco mudasse também. Então se debateria exatamente o que a ilustração lá do início propôs: as leituras preconceituosas que se projetam sobre o que se vê, e chegam a influenciar quem as combate com mais persistência.

Não passa pela minha cabeça aqui livrar a cara de Alexandre Pires. Ele não é nenhum gênio artístico, mas também está longe de ser burro. A nota divulgada por sua assessoria negando a acusação de racismo e sexismo é reveladora, ao perguntar: King Kong, Chita, Monga, eram todos personagens com alguma leitura que não a do genuíno entretenimento? É sintomática a impossibilidade alegada de se enxergar qualquer interpretação além do mais rasteira distração em um filme como King Kong ou em um personagem como Tarzan (que a Chita acompanhava).

Num texto antigo deste blogue, defendo que a preocupação em fazer crítica social ou mostrar uma postura política em geral empobrece a arte. Em compensação, é através da crítica estética que as críticas sociais ou políticas mais ferozes são possíveis de ser feitas. Este pensamento tratava da análise da obra em seu contexto criativo, mas no caso de uma música/clipe como a de kong, a análise tem de ser feita ao avesso, pois seu conteúdo intrínseco não faz parte da criação artística, mas se encontra em um outro nível, que perpassa o marketing, a análise do discurso e a sociologia.

A canção de Alexandre Pires é e não é culpada de racismo tanto quanto das reações racistas que provoca. Antes de se dicutir como Alexandre Pires retrata os negros e as mulheres em sua música, é preciso e urgente discutir como ele (re)trata a música, e assim se dar conta do quanto a questão estética está imbricada com as demais, e o quanto sua baixíssima qualidade está diretamente relacionada às acusações que sofre, por reproduzir um padrão artístico repetitivo e paupérrimo que é correspondente aos padrões mentais preconceituosos que transparecem na canção. Os que pretendem processar Alexandre Pires por racismo ou sexismo não estão errados, mas o estão fazendo pelos motivos errados. A canção/clipe Kong, antes de ser racista ou sexista, é animalesca, bestial e artisticamente miserável, e isto a faz ser racista e sexista ao provocar este olhar em quem a assiste, seja corroborando-o ou combatendo-o. Este deveria ser o foco da polêmica que a envolveu, a meu ver, em vez de aceitar a visão rasteira que ele propõe, mesmo que para rebatê-la, em vez de demonizar o negro que ele é, absolvendo o artista que diz ser.

De resto, fica o comentário de um dos participantes da discussão: Se somar esse povo aí não dá meio Gorila & Preto em matéria de prato cheio para polêmicas. Mas eles, além de pretos, são pobres. Não dá mídia.

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5 comentários em “Theodor Adorno contra Alexandre Pires

  1. Sil Valle disse:

    Concordo plenamente. Perfeito!
    Mas a imagem de Gil vestido de Kong vai aterrorizar o meu sono de hoje. Ah, se vai…

    Abração!

  2. silvio vieira disse:

    olá como faço para mandar uma musica para o cantor alexandre pires.é uma musica que todos ja cantam no meu show.tem cara de sucesso e é o estilo de alexandre.11 82848827 abraço

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