O canto necessário da violência de Lula Queiroga – parte 2

Quando publiquei o artigo anterior, em que faço a análise das canções Atirador e Cano na Cabeça, de Lula Queiroga, resolvi avisar o próprio Lula, via Facebook, da leitura que fizera. Recebi na resposta a sugestão: Só uma pergunta: você já tem o disco novo “Todo dia é o fim do mundo”? Tem uma música que fecha essa suposta trilogia: “Os Culpados”. E então fui ouvir.

Como não conhecia Os culpados, obviamente nunca pensei em uma trilogia formada por estas músicas. Mas o Lula não deixa de ter razão, se a pensarmos como a crônica de um novo capítulo na saga da violência brasileira, englobando agora a ação do Estado na reocupação de territórios pelo tráfico – as UPPs – e a situação dúbia de alguns destes territórios serem ocupados por policiais agindo no próprio nome e não da Instituição ou do governo, numa desvirtuação daquelas ocupações (ou as UPPs é que são uma virtuação destas) – as milícias, e tudo isto somado ao histórico de abandono absoluto de uma parcela de nossa população por séculos.

Em termos musicais, a primeira coisa que me chamou a atenção foi tratar-se de uma sombria espécie de rockabilly. Depois de ter notado como as outras duas canções tem ritmos híbridos entre o tradicional brasileiro e a influência estrangeira, achei que esta escapava à descrição. Mas logo reconsiderei, pois o hibridismo do rocckabilly vem desde o nome. O termo “rockabilly” é um portmanteau (palavra-valise, combinação de duas outras) de rock e hillbilly, este último uma referência à música country (que costumava ser chamada de música hillbilly nos anos 40 e 50), que contribuiu enormemente ao desenvolvimento do gênero, diz a Wikipedia. A dicotomia não é interno/externo, é rural/urbano, e permanece na terceira canção, sem que eu tenha certeza que o autor tenha se dado conta disso ou o feito intencionalmente.

Lula conta que a canção na verdade já existia mesmo antes das UPPs, mas que ele decidiu gravá-la depois da tomada do Morro do Alemão pela polícia carioca, televisionada e transformada em espetáculo. Profeticamente ou não, em alguns momentos ela parece realmente se referir especificamente a estes eventos, como nos versos e a multidão na rua aplaude os blindados ou mães chorosas atiram rosas nos soldados, narrados como a descrição de imagens vistas pela TV, em contraste brutal com os versos anteriores que descrevem uma realidade aterradora. Ou, como ele disse ao apresentar a canção na estréia de show de mesmo nome do álbum em Recife: porque o Brasil é o maior teatro ao ar livre do mundo.

E Lula, apropriadamente, abusa da ironia e do duplo sentido na letra, não fosse ele também publicitário, conhecedor, portanto, do processo de espetacularização midiática tanto quanto das possibilidades do duplo vínculo na linguagem. Os culpados é uma canção de amor e ódio, às vezes simultâneos e pelo mesmo objeto. Assim, diversas expressões do tráfico de drogas se metamorfoseiam para além de seus sentidos originais – ou retornando a eles, agora com as marcas do linguajar onde mergulharam:

Aonde vão os filhos
Que viraram vapor?

Tem granada, pó e crack
Para encher as bocas desse grande país

Passam por debaixo de um país sem fronteiras
Passam pelo ar diante do seu nariz

Mas o fundamental em Os culpados, que ela tem em comum com as outras duas canções de Lula, é o caráter de uma crônica do horror, mais terrível por reconhecer o componente humano perdido no meio do holocausto. Este reconhecimento me lembrou outra canção quase imediatamente.

Ode aos Ratos – de Chico Buarque e Edu Lobo, com Chico Buarque

Que por sua vez me lembrou um poema:

O bicho

Vi ontem um bicho
Na imundície do pátio
Catando comida entre os detritos.

Quando achava alguma coisa,
Não examinava nem cheirava:
Engolia com voracidade.

O bicho não era um cão,
Não era um gato,
Não era um rato.

O bicho, meu Deus, era um homem.

OK, o foco da cançao de Chico e Edu, como também do poema de Manuel Bandeira, não é exatamente o mesmo de Lula. Mas o que me parece é trata-se da mesma visão que vai se ampliando, de um ponto específico até uma grande panorâmica sobre nossa miséria, as três unidas pela mesma menção, central na Ode de Chico, de passagem nas outras duas, cuja ideia ressoa por toda a canção, de formas diversas: ratos. Manuel fixa seu olhar sobre uma pessoa, apenas uma, que chega ao grau da desumanização; Chico e Edu coletivizam este sujeito, passando do indivíduo à legião, e Lula Queiroga amplia abre ainda mais o enfoque, passando a enxergar, como uma câmera que se afasta, todo o ambiente onde a miséria acontece, onde o jogo de gato e rato é disputado. (esta ampliação do olhar vale também para as três canções de Lula: partindo do personagem atirador, e passando pelo acontecimento de Cano na Cabeça)

Aliás, Os culpados tem um ritmo cinematográfico. É possível imaginar em diversos momentos tomadas de câmera se esgueirando em velocidade pelas vielas de uma favela enquanto são focalizadas de passagem as coisas citadas na letra, emaranhadas na rede de um enredo em que mocinhos e bandidos se misturam e se confundem, mas sem deixarem de se perseguir mutuamente. O clima instrumental é de um filme policial, de uma história de detetive, com o sax repetindo o riff da guitarra obsessivamente. E o último verso tem o efeito de um final inesperado. Depois de pintar um amplo retrato, um complexo teatro de ações, a surpresa da indicação certeira: os maiores, os verdadeiros culpados não estão lá.

No artigo anterior apresentei um estudo sobre a localização da violência no Brasil em que fica claro o seu trajeto do campo para a cidade junto com o êxodo da população e hoje tendendo a voltar-se novamente para o campo devido ao enfrentamento da questão pelo poder público nas cidades. Atirador, Cano na cabeça e Os culpados refazem em parte este trajeto (e aqui as tomo fora da ordem em que foram gravadas. Não importa, é uma trilogia suposta, como o Lula mesmo disse), sendo que esta terceira amplia o debate para além da individuação ou do simples acontecimento, notícia de jornal, descrevendo algo das engrenagens que movem esta máquina gigante que se alimenta do lucro de alguns e da morte de outros. E termina cética e lucidamente avisando que é preciso ampliar ainda mais o raio de visão. Quem sabe mais adiante Lula não estenda novamente o alcance de sua crônica – numa suposta tetralogia.

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