Poesia concreta e canção

Poesia concreta e canção são uma relação inesperada ou inevitável? Musicar um poema concreto é seu corolário ou sua traição? É possível transpor para a linguagem musical a ordenação espacial que caracteriza esta poesia? Vejamos:

Ideograma: apelo à comunicação não verbal. O poema concreto comunica a própria estrutura: estrutura conteúdo. O poema concreto é um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas. A palavra (som, forma visual, carga semântica). Seu problema: um problema de funções relações desse material. Fatores de proximidade e semelhança, psicologia da gestalt. Ritmo: força relacional. O poema concreto, usando o sistema fonético (dígitos) e uma sintaxe analógica, cria uma área linguística específica – “verbivocovisual” – que participa das vantagens da comunicação não verbal sem abdicar das virtualidades da palavra. Com o poema concreto ocorre o fenômeno da metacomunicação: coincidência e simultaneidade da comunicação verbal e não verbal, com a nota de que se trata de uma comunicação de formas, de uma estrutura-conteúdo, não da usual comunicação de mensagens (Plano-piloto da poesia concreta, 1958, de Décio Pignatari, Augusto e Haroldo de Campos)

Por aí se vê que, apesar da noção comum de que a poesia concreta consiste na preparação visual/gráfica do poema apenas, a questão sonora também está incluída, o que poderia consistir numa ponte para a sua… transcrição? tradução? em canção. Mas será por aí?

Pulsar – poema de Augusto de Campos musicado por Caetano Veloso. Animação de Paulo Barreto sobre a apresentação gráfica original do poema.

Ao musicar Pulsar, Caetano adotou uma solução quase literal, numa minicanção de apenas três notas: a mais agudas correspondem à letra E, gravada como uma estrela; as graves à letra O, que lembra o buraco negro – e assim a dupla característica do pulsar é retratada, demais vogais na nota intermediária. Na palavra eco/oco, grafada O com a estrela da letra É, Caetano canta as duas simultaneamente.

Caetano consegue uma aproximação total entre grafia e som. Ainda assim, trata-se de uma leitura. A identificação entre símbolos e sons determinados é uma escolha de caminho entre outras possíveis. Mas este caminho permite estender a metacomunicação, amplia a relação forma/conteúdo (em que ambos se confundem) do gráfico para o sonoro mantendo a correlação de premissas. Isso sem que Pulsar chegue a se configurar como uma canção de formato clássico.

O que – Titãs

A última faixa do álbum Cabeça Dinossauro causou um grande estranhamento, fechando um disco de rock avassalador com algo que não apenas quebrava a fúria punk com um funk, mas também parecia não querer dizer nada. À época, alguns integrantes do grupo foram a uma rádio fazer a promoção do álbum, e o seguinte diálogo surreal teve lugar:

Locutor: Eu acho que entendi o que O que quer dizer. Não é o que não pode ser, não é? Então tem que ser sim!
Titãs: O que?

O que leva a premissa da metalinguagem da poesia concreta ao cúmulo, brincando de significados a cada nova rearrumação das palavras. O que seria organização espacial no papel aqui é arrumação sonora, e novamente o que se ouve não é uma canção convencional, mas mais propriamente uma espécie de poema concreto sonoro (não confundir com música concreta, algo totalmente diferente) em que o canto sem empostação particular e com o reforço da sintaxe gritada reforçando trechos, que se tornou marca registrada dos Titãs, sem nuances interpretativas, direto e cru, se assume como uma forma de recitação extremamente adequada e precisa, como que pregando as palavras no ar, e neste caso em vez de remeter ao punk, parece mais com Kraftwerk, quase maquinal.

O poema concreto é um objeto em e por si mesmo, não um intérprete de objetos exteriores e/ou sensações mais ou menos subjetivas. O que, poema atemático, radicaliza esta definição e permite imaginar inúmeras possibilidades de transposição de sua letra/melodia (ambas sendo forma/conteúdo) para o papel. No entanto, o grande desafio da poesia concreta talvez seja exatamente manter esta característica ao ser temática, desatrelando-se, parcialmente que seja, do seu próprio jogo interno para relacionar-se com o mundo, com outras formas artísticas, podendo ser, inclusive, canção. Arnaldo Antunes levou adiante suas experimentações no primeiro álbum solo, Nome:

Nome não – Arnaldo Antunes

Nome não é um poema concreto, como mutos de Arnaldo – e muitos, como este, foram inclusive publicados em livro antes de serem musicados – e é uma canção. Na verdade, uma das poucas deste álbum, que nem é exatamente um álbum, mas um projeto que une as composições musicais com os clips quase indissoluvelmente. Muitos destes clips são autênticos poemas concretos em movimento. Em Nome não, o jogo entre obra/objeto adquire tensão máxima, pois o que se questiona é exatamente esta relação. No clip, vemos escrever-se a palavra cavalo no dorso de um cavalo, seguida de diversas de suas características (couro, por exemplo), até ficar tão sobrecarregado de significados que se torna ilegível; e no fim, literalmente ser lavado de todos os significados, sem por isso perder nenhum deles… enquanto isso, a canção inicia enumerando bichos e cores, para a seguir enumerá-los novamente pelos materiais que podem assumir sua forma – plástico, pelúcia – ou carregá-las em si – tinta, arco-íris.

O canto de Arnaldo suaviza a forma falada/cantada/gritada desenvolvida nos Titãs, sem perder a característica incisiva: uma recitação em que ele localiza os sons no espaço em linhas retas, geométricas. Nome não tem o desenvolvimento lógico de um raciocínio, de que o refrão é o corolário, a conclusão do silogismo:

só os bichos são bichos
só as cores são cores
só os sons são
som são, nome não

onde Arnaldo sintetiza a relação palavra/som/objeto/espaço gráfico, assinalando o que há de intraduzível em cada uma destas instâncias: as coisas são as coisas e sua multidão de características; os sons são – são simplesmente, para além das coisas; os nomes são o que não é nada, e por isso podem intermediar tudo. Nome-ideograma (do grego ιδεω – idéia + γράμμα – caracter, letra, símbolo gráfico utilizado para representar uma palavra ou conceito abstrato; estrutura-conteúdo; silogismo-canção.

E de brinde, um excelente sitio sobre poesia concreta, inclusive com canções.

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