O Feitiço do samba, o racismo da vila

O blog Obra em Progresso, criado por Caetano Veloso durante a elaboração do álbum Zii e zie, foi apagado. Pena, não apenas por ser a documentação de um processo criativo extremamente original, como também por ter sido uma ponte direta entre ele e seu público e ter se prestado a tratar de diversos outros temas, com participação ativa e relevante dos comentaristas, em vez de limitar-se à divulgação do trabalho, como é comum, dando voz a discordâncias e polêmicas interessantíssimas. Uma delas, por sinal, foi com o compositor e pesquisador Carlos Sandroni e se iniciou com a postagem deste vídeo:

Feitiço da Vila – Vadico e Noel Rosa, com Caetano Veloso

A impiedosa e tremendamente expressiva análise da letra de Feitiço da Vila por Caetano foi respondida à época por Sandroni nos comentários do blog. Caetano replicou e Sandroni treplicou – ambos civilizadamente, diga-se de passagem, de certo modo levando avante, sob outros termos, a polêmica original de Noel Rosa e Wilson Batista que motivou a composição do samba.

A discussão musical entre Noel e Wilson é já suficientemente documentada. Aqui e aqui, com vieses diferentes (um deles diz que o Feitiço não tinha nada a ver com a polêmica, sem apresentar argumentos), os fatos principais e a sequência de sambas de provocação e resposta estão todos relatados.

Os argumentos do Sandroni são, em sua maioria, baseado no seu excepcional livro Feitiço decente, em que ele disseca não apenas musicalmente o surgimento do samba, sua passagem da turma da Praça Onze para a do Estácio, que lhe impôs uma mudança rítmica fundamental, dando-lhe a divisão usada hoje, como também a passagem de música característica de uma parcela da população – eminentemente negra – para a música característica do Rio de Janeiro, e daí, mais tarde, de todo o Brasil.

O que ele diz é, basicamente, que o Noel não era racista, longe disso. Noel era amigo de todo mundo do samba, como Cartola, na casa de quem curou várias carraspanas. Noel insistiu com diversos dos sambistas da época que fizessem segundas partes para os refrões de improviso de domínio público, registrassem seus sambas e ganhassem dinheiro. Também fez a ponte para que cantores de sucesso da época gravassem esses sambas, possibilitando a aceitação pela classe média daquela música de preto e pobre. Em suma, as atitudes de Noel, em vez de racistas, foram justamente responsáveis pela assimilação daquela manifestação da cultura negra.

Ora, mas percebamos: estas duas análises – da canção por Caetano e da carreira de Noel por Sandroni – não são necessariamente excludentes. Talvez seja apenas o caso de aprofundá-las. Senão, vejamos: a discussão entre Noel e Wilson passou à história como sendo sobre os atributos de Vila Isabel, bairro de Noel. O buraco é mais embaixo: o que há é, da parte de Wilson, a exaltação de um modelo de sambista não assimilável pelo nascente mercado fonográfico, e da parte de Noel a tentativa de desacreditar este modelo, trocando-o por outro mais palatável, civilizado. No samba que desencadeou a briga, Wilson se descreve:

Meu chapéu do lado / Tamanco arrastando
Lenço no pescoço / Navalha no bolso
Eu passo gingando / Provoco e desafio
Eu tenho orgulho / Em ser tão vadio
(Lenço no pescoço, aqui com Silvio Caldas)

E Noel replica:

Deixa de arrastar o seu tamanco / Pois tamanco nunca foi sandália
E tira do pescoço o lenço branco / Joga fora essa navalha / Que te atrapalha
(…)
Com o chapéu de lado deste rata / Da polícia quero que escapes
Fazendo samba-canção / Já te dei papel e lápis / Arruma um amor e um violão.
(Rapaz folgado, aqui com Aracy de Almeida)

Percebe-se aqui, para além de alfinetadas de parte a parte, a estratégia de Noel, praticamente convidando Wilson a juntar-se a ele (na verdade, Wilson já era gravado, como fica claro acima). Depois, na sequência, a disputa assumiu ares bem mais pessoais, com Wilson chamando Noel de Frankenstein devido a seu queixo afundado (culpa do fórceps no parto) e Noel insinuando o xingamento de ladrão, na estrofe expelida de Feitiço (na verdade, improviso feito por ele num programa de rádio, o que não lhe tira a autoria). Neste meio tempo, Wilson também mandou: Cuide do seu microfone / e deixe quem é malandro em paz. Outra vez a questão da profissionalização vinha à baila: Noel não seria sambista, mas artista de rádio. A frase de efeito não disfarça o ressentimento: a inclusão do negro viria, mas por intermédio do convite de um branco que se identificou com aquela cultura e o apresentou aos outros, afiançando por ele. E neste meio tempo houve, sim racismo – admita-se.

Esta conversa vai longe, mas muito já foi dito do assunto, e mais ainda o será. Limito-me a indicar este ótimo artigo, que aprofunda o que eu disse aqui e ainda inclui um ótimo paralelo com Marcelo D2. O que quero fazer são algumas associações livres que me ocorreram, e que acho que podem contribuir com o assunto:

1- Monteiro Lobato publicou Caçadas de Pedrinho em 1933. Feitiço da Vila é de 34. Em 2010, o Conselho Nacional de Educação, órgão colegiado independente ligado ao Ministério da Educação, liberou um parecer sobre o livro de Lobato em que recomendava a inserção de uma nota explicativa pela editora, com esclarecimentos ao leitor sobre a presença de estereótipos raciais. Isto foi noticiado por boa parte da grande imprensa, interessada em desestabilizar o Ministro da Educação, como uma tentativa de censura. Na mesma época, vieram a público cartas de Lobato em que ele mostrava opiniões pessoais abertamente racistas – muito, mas muito mais que nos livros infantis. E que na música de Noel.

2- O Fla X Flu é um pouco mais velho que Feitiço da Vila: está completando 100 anos. Desde sempre, tricolores chamam flamenguistas de mulambada e gritam silêncio na favela para eles nos estádios. Desde sempre rubro-negros duvidam da masculinidade dos adversários das Laranjeiras. O Flamengo é time de massa, a torcida do Flu é apontada como de elite, de maior poder aquisitivo (como Noel fez questão de lembrar ter nível superior a Wilson). Há aqui racismo? Há homofobia? Há luta de classe? É possível – ou saudável – reduzir estas provocações mútuas politicamente incorretas a isto?

3- O processo de embranquecimento da música de preto não ocorreu apenas uma vez na música popular mundial. Elvis Presley, e Beatles conseguiram boa parte de sua popularidade inicial devido ao fato de tornarem palatável a um grande público consumir ritmos negros, já que agora eram feitos por brancos… O processo se repetiu inúmeras vezes ao longo do século XX: de Jackson Five a Backstreet Boys, passando por New Kids on the Block e antes pelos Menudos, a passagem é visível. Vanilla Ice no meio dos gangsta rap, Lisa Standfield, Norah Jones, Amy Winehouse, Adele, todas cantoras brancas cantando soul – a lista é quase infinita, e se completa de forma cruel em Michael Jackson, que representou este processo literalmente na própria pele. Aqui no Brasil, o próprio samba continuaria seu embranquecimento com a Bossa Nova. E o funk carioca atualmente vai se misturando com o chamado sertanejo universitário e sendo aceito por um público internacional – enquanto os funkeiros originais continuam segregados.

Sim, vai aqui um bocado de reducionismo, e proposital. Ou o que faço é apenas destacar determinados aspectos da questão, sem negar os outros. Que me parece que foi o que Caetano fez ao analisar Feitiço da Vila. Sua intenção era abrir o debate, escancarando e encarando um assunto que ainda escamoteamos muito – e minha intenção aqui é apenas levar o assunto adiante.

O racismo na obra de Monteiro Lobato levou decênios para ser, não detectado, mas encarado de frente – e mesmo assim causou espécie mesmo em pessoas que cresceram com seus livros – ou talvez por isso mesmo. Carlos Sandroni argumenta que não é possível estereotipar como racista alguém de 80 anos atrás sem levar em conta o contexto social, e é o que ele tenta fazer. O racismo de Lobato vem misturado com centenas de outras variáveis que fazem sua obra preciosa. Se há racismo na obra de Noel, vale o mesmo para ele. Mais útil do que julgamentos pessoais (deveríamos condenar toda a torcida de um time de futebol?), entendamos o processo pelo qual a sociedade – ou seja, nós – teve e tem necessidade de embranquecer os estilos de música negra que a encantam, para poder ouvi-la sem constrangimento, e porque os versos da dupla de funkeiros Amilcka e Chocolate soam ainda hoje como um tapa na cara, uma verdade dura: É som de preto, de favelado, mas quando toca ninguém fica parado!

Anúncios

8 comentários em “O Feitiço do samba, o racismo da vila

  1. Ígor Moreno disse:

    Blog fantástico, Túlio. Parabéns.

  2. E.V.A. disse:

    Túlio, amei seu blog. Muito interessante a forma como você analisa cada música e o lugar que elas ocupam na sociedade. Parabéns pelo empenho!

  3. Analisar qualquer obra de arte ou comportamento de 80 anos atrás,com os olhos de hoje é meio cruel,pois o homem é reflexo do seu tempo e ninguém se descola dele.Euclides da cunha em “Os sertões” escreve que a raça branca é superior,não esqueçamos que na época ,havia uma pseudo-teoria científica que afirmava isso.Quanto ao blog do caetano,também acho que ele devia ter mantido,quando foi criado eu não tinha acesso a internet.

    • Pois é, não entendi por que tiraram o blog do ar, é um registro da construção de um álbum a ser estudado. Pena. Quanto à avaliação histórica, ela é imprescindível, o que não significa relativizar à vontade, mas entender os processos de formação das idéias, seja na canção ou em qualquer outra manifestação cultural. Abraços.

  4. ISSO PARECE MUITO COM O BLUES E O ROCK´N´ROL
    o bleus e o samba tem as mesmas letras todas falam grandes ameores perdibos, e do sofrer da vida, já o cAetado tem uma coisa mais critica que os homens cultos entendem por isso a sua super valoricao miniatica diante da dana Ivone lara por exemplo, mas ele tem uma profunda admiracao por ela porque de certa forma caetano alimenta e mostra a cultura negra que ele aprendeu, e assim ajuda essa cultura a sair difundida tambem pelos bracos ainda que com o racismo cotidiado e sem macilcia, mas pra eu que sou negro e admira joao gilberto e pixinguinha tou feliz e tranquilo em saber disso!

    • Na mosca, Djerry, é o mesmo processo mesmo. Blues, Rock, Jazz, Samba, ritmos negros na origem tornados de todo um país, mas com um processo de embranquecimento que precisa ser estudado e revelado. E o Caetano mesmo se reconhece e intitula mulato, faz questão, acho que isso já diz um bocado. Abraços e volte sempre.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s