Renata Rosa, pré-aristotélica, antieuclidiana

Sócrates, Platão e Aristóteles construíram as bases do pensamento ocidental ou, se você preferir, os alicerces do racionalismo. Entretanto, no interior do Nordeste, consumíamos uma prosódia, um saber oral, uma visão de mundo que não advinha dos gregos, e sim dos árabes. (…) O importante é que a meninada do Nordeste bebia daquele caldo não aristotélico até entrar na escola. Por isso, costumo dizer que a creche tropical acolhia uma porção de analfabeto, os analfabetos em Aristóteles. Com 7 ou 8 anos, a garotada enveredava pelo colégio e, só então, tomava conhecimento da cultura ocidental. Calcule a surpresa, o fascínio. Descobrir os livros, as ciências e todo um palavreado diferente! Hipnotizadas por tamanho tesouro, as crianças jogavam fora o aprendizado anterior e deixavam que Aristóteles assumisse as rédeas em definitivo. (…) Nada desaparece, bicho! Nada! (…) Aquilo que os meninos do Nordeste jogavam fora quando travavam contato com Aristóteles escapulia do córtex, se alinhava no hipotálamo e ali adormecia. Tornava-se lixo, só que um lixo dotado de lógica própria. (…) Um lixo lógico!

O genial Tom Zé fez estas afirmações na entrevista à revista Bravo!, na edição deste mês. Ele dizia isso para em seguida afirmar que os tropicalistas Caetano, Gil e ele próprio souberam se apropriar deste saber anterior ao pensamento racionalista grego e uní-lo a cultura pop ocidental. Mas para este artigo quero ficar me fixar nesta primeira parte para me perguntar: onde está a música deste Brasil pré-socrático? Quero estender este raciocínio genial (não canso de repisar a genialidade do Tom Zé) para dos parâmetros de racionalismo para a forma de fazer música. E dizer que ela está aí, presente, hoje.

Me leva – Renata Rosa, de Rodrigo Melhado

Renata Rosa é cantora, rabequeira, compositora e pesquisadora, não necessariamente nesta ordem. Ou talvez esta seja mesmo a ordem. Porque o trabalho de Renata não parece ser de pesquisa, e este, se não é o seu principal mérito (pois há outros maiores), é provavelmente o que possibilita a existência destes outros méritos, porque a música de Renata não soa de modo algum como pesquisa, mas como mergulho, e mergulho fundo. O produtor Guto Ruocco fala em influências nordestinas, árabes, ibéricas, ciganas, indígenas. O espantoso de uma babel como esta não é o fato de ela realmente se materializar na música de Renata, e sim a constatação de que esta música não é a forja onde a mistura acontece, e sim um potente alto-falante para uma cultura que permanece vivíssima, o lugar cultural onde estes encontros aconteceram e continuam ainda hoje a fermentar.

A formação da música ocidental, como a conhecemos se dá a partir da recuperação (por sinal, cheia de erros) dos modos gregos, a partir dos cantos gregorianos católicos. Este processo corre lado a lado com a cristianização dos filósofos gregos, notadamente de Aristóteles, por Santo Agostinho. Em algumas igrejas medievais há pinturas dos três grandes, Sócrates, Platão e Aristóteles com trajes monásticos, tamanha foi a cooptação. Juntamente com esta assimilação filosófica, ocorreu a adaptação seletiva do pensar grego da música, adotando e modificando apenas dois daqueles modos originais e moldando ao longo do tempo a forma musical com começo, desenvolvimento e fim, assim como na doutrina católica havia um começo e um fim dos tempos. Às visões de mundo de que fala Tom Zé, anteriores (ou paralelas) à aristotélica, que tem a lógica como ordenadora do mundo, correspondem músicas que igualmente têm outras ordenações, outras hierarquias, outros modos. O que ouvimos na música de Renata é o ressoar destas visões que, sepultadas por séculos de colonização e cultura ocidental, emergem altissonantes como o retorno do recalcado. A música de Renata Rosa é pré-socrática, pré-aristotélica.

Marcha do Donzel – Renata Rosa, de Renata Rosa sobre poema de Ariano Suassuna

O primeiro álbum de Renata é de 2002, Zunido da mata, de onde tirei a primeira canção. O segundo, Manto dos sonhos, é de 2008, e dele saiu a canção acima. Nela alguns ingredientes desta fusão intercontinental podem ser decupados. A faixa se inicia com o som da noite na mata, e sobre o batuque soa um berrante, ao qual responde a rabeca de Siba, em participação especial. Este diálogo entre o instrumento de trabalho, profundamente enraizado, e o trazido de outras culturas e modificado sem perder as marcas de sua origem, sobre o ruído da natureza, da escuridão do desconhecido, serve de abertura à canção propriamente dita, como um arauto que anuncia a chegada de uma majestade. Porém, sobre a nota da rabeca, tocando em cordas duplas, surge a melodia da canção. Não há harmonia, no sentido de uma sequencia de acordes que conte uma história. Há uma nota base que se sustenta e a melodia, sobre a qual podem ocorrer ornamentos e variações, sempre a partir de uma determinada escala. Este processo, típico da música árabe (como também dos ragas indianos), não soa estranho ou estrangeiro.

A letra Marcha do donzel vem de um coro d’O Romance d’A Pedra do Reino e o Príncipe do Sangue do Vai-e-Volta, em que Ariano trata da seita sebastianista, que preconizou por séculos, em pleno Pernambuco, o retorno do rei de Portugal Dom Sebastião, desaparecido em 1578 numa batalha contra os mouros no atual Marrocos. O sebastianismo, como o próprio Movimento Armorial de Ariano, surge aqui apenas tangenciado, como um símbolo ou sintoma da permanência deste pensar mítico, transmitido em tradições orais por gerações. Mas não há da parte de Renata a pretensão armorial da criação de uma cultura erudita sobre estas tradições – e neste sentido talvez ela nem seja o exemplo ideal. Ao contrário, são indistinguíveis a um desavisado os temas de domínio público dos autorias em seus dois álbuns, e não poderia haver sinal de homogeneidade maior.

Assim como os elementos árabes se sobressaem na Marcha do donzel, no momento seguinte a participação de um coro de índias Kariri Xocó (sim, eles tem um site) em um canto composto pelo pajé da aldeia não soa estranha, mas apenas um outro componente deste encontro que se apresenta. Paralelamente, o uso frequente de apogiaturas (notas fora do acorde nos tempos fortes, que só depois sobem ou descem para as notas confortáveis) criam um estranhamento que induz à memória do melisma (que no entanto não chega a se consumar), como as sílabas tônicas das palavras deslocadas na melodia não soam como erros de prosódia, antes dão a impressão de estrangeirismos ou arcaismos, e servem como elementos unificadores ao conjunto sonoro, ao surgirem em diferentes contextos, nas diferentes dosagens de elementos de cada canção. (uma reportagem/release com uma curta decupagem faixa a faixa do segundo álbum aqui)

Mas o elemento unificador por excelência é a surpreendente voz que conduz esta música. Se a música de Renata é pré-aristotélica, sua voz é anti-euclidiana, está para a voz tratada – nem digo a operística, mas mesmo a de cantora de música popular (pensemos um uma Marisa Monte), como o som da rabeca está para o de um violino. Rasgada, escancarada, completamente destemida, não é a voz de uma pesquisadora que pede licença para registrar um canto popular, mas a própria encarnação deste canto. A voz de Renata busca a voz das lavadeiras, das carpideiras, porque foi nestas vozes que se deu a fusão que a música de Renata representa e apresenta, este encontro de mundos diversos com uma coisa em comum: o fato de estarem à parte do pensamento racionalista ocidental que se tornou hegemônico, e de, ainda assim, mostrarem uma força insuspeitada.

O futuro da relação entre este pensamento hegemônico e todas as múltiplas, quase infinitas alternativas de mundo que permanecem submersas, às vezes adormecidas, não apenas no hipotálamo humano, mas no hipotálamo simbólico da humanidade, não cabe no escopo deste texto. Mas a percepção de que esta alteridade se manifesta com o vigor que a música de Renata Rosa demonstra é sempre alentadora, porque, bem mais que o epíteto de música regional pode abarcar, ela é o testemunho de uma (ou várias) sínteses civilizacionais que são alicerces de um povo, de um pais. Alicerces submersos, como quase submersa é a memória de Chico Antônio, o lendário embolador de coco descoberto por Mário de Andrade, de quem Renata gravou o Serrador, como nos terreiros religiosos os cantos africanos e indígenas se fundem e se recriam na busca do transcendente, estas outras visões de mundo ancestrais, atávicas, se atualizam, se infiltram insidiosas na realidade e subsistem, perseveram e, contra todas as pobres expectativas lógicas, teimosamente, existem.

Sereia, de Domínio Público, do álbum Zunido da Mata

Janela do dia, de Nilton Jr. e Renata Rosa, com as índias Kariri Xocó, do álbum Manto dos sonhos

Então o serviço:
– o sítio eletrônico de Renata Rosa
– e o Myspace de Renata Rosa. Há também no YouTube muitas gravações de shows, todos na Europa…

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Um comentário em “Renata Rosa, pré-aristotélica, antieuclidiana

  1. Kaique Evoé disse:

    Feliz, feliz pela delicadeza que transcende nos corações, a ancestralidade que ecoa nas músicas da Renata são toda a força e respeito que ela carrega consigo por uma sabedoria que está na essência humana…

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