A canção do eterno retorno para casa

Em 1975, Peter Gabriel deixou o grupo Genesis, logo após a turnê do mais ambicioso álbum da banda, The Lamb Lies Down on Broadway. Dois anos depois, lançou seu primeiro álbum solo, e nele a canção Solsbury Hill.

Confesso, tenho dificuldade de falar de Solsbury Hill, uma canção escrita de forma tão pessoal que frequentemente é considerada algo enigmática, e que no entanto tira sua força em grande parte da ressonância que encontra no ouvinte. Uma canção que, além de falar de um momento de virada, é ela própria este momento.

Aqui são necessários alguns detalhes biográficos anteriores: o álbum The lamb lies down on Broadway, que o guitarrista Mike Rutherford pretendia que fosse baseado em O pequeno príncipe, acabou sendo sobre um delinquente portoriquenho em Nova Iorque caindo em um labiríntico universo paralelo cheio de monstros para resgatar seu irmão – no fim, uma espécie de pequeno príncipe às avessas. As composições musicais foram feitas sem nenhuma participação de Peter, pois sua esposa tivera complicações no parto do primeiro filho, e Peter decidiu permanecer com ela. Quando pôde retornar ao trabalho, fez questão de escrever todas as letras sozinho. Enquanto isso, procurou o cineasta William Friedkin, que acabara de filmar O exorcista, para fazer um filme a partir do álbum. Os demais integrantes da banda, que já se sentiam incomodados há tempos com as fantasias e mise-en-scène de Peter nos shows – mas às quais era devida em parte a visibilidade inicial da banda – também se recusaram a tomar parte no projeto do filme, que acabou abandonado.

Aqui está pintado o cenário da insatisfação mútua que levou Peter a sair da banda para uma incerta carreira solo (ele chegou a pensar em abandonar a música). Escondido no meio da narrativa, está o fato de ele, aos 25 anos, ter se tornado pai. Guardada esta informação, passemos à canção.

A primeira surpresa de Solsbury Hill é exatamente esta: ser, tão convictamente, uma canção (aliás, achei a informação, não confirmada, de que ele a teria composto depois de assistir um show de Bruce Springsteen, roqueiro tradicional e ótimo cancionista. Se non é vero…). Não que não haja canções na obra anterior do Genesis, há, e excelentes. Mas, especialmente no último álbum com Peter, mesmo estas canções aparecem entrelaçadas umas nas outras, às vezes seus temas voltam mais adiante dentro de outras, e todas estão a serviço de um enredo narrativo comum, a aventura de Rael na outra dimensão. Neste caso, temos uma canção que é feita para se bastar, tanto que foi lançada como single. E de estrutura bem simples: Uma estrofe dividida em duas partes, repetida três vezes, sem refrão. Contraste absoluto com as suítes anteriores, e mesmo com outras canções deste álbum como Moribund the burguermeister, que guardam muito da sonoridade dos trabalhos anteriores, com mudanças bruscas de climas e vozes modificadas.

Outra diferença fundamental é o caráter pessoal da canção, coisa rara na obra de Peter. Muito embora em The lamb lies down on Broadway Rael seja uma espécie de alter-ego de Peter, elementos pessoais que tenham feito parte das composições se acham de tal forma dispersos que tentar identificá-los torna-se coisa para exegetas, pura especulação. Já a primeira pessoa do eu lirico de Solsbury hill é real: não há mundos imaginários, o que se torna paradoxal, já que é narrada uma experiência, digamos, espiritual, e que no entanto, em seu caráter confessional, torna-se absolutamente verossímil.

O compasso de Solsbury hill tem muito a ver com isso. Escrita num inesperado 7/8 (e quando um compasso 7/8 é esperado?), num primeiro momento ela puxa o tapete do ouvinte. Mas no seguinte, pela repetição sistemática do sensacional desenho do violão de Robert Fripp, com a primeira parte das estrofes formadas por versos de métrica idêntica, o efeito muda e vai se tornando hipnótico (o que me leva a conjecturar esta repetição rítmica marcada como elemento associado ao que pode ser interpretado como um contato mediúnico narrado). O compasso alterado é o contrapeso perfeito numa canção de estrutura tradicional, mantendo sempre o ouvinte num determinado estado de tensão/atenção.

Atenção voltada para a história contada de forma menos vaga que pode parecer à primeira escuta. A aparição narrada na primeira estrofe, que tanto pode ser literal quanto uma metáfora para uma decisão interior, é que desencadeia o movimento de ruptura que movimenta as outras duas – na seguinte contido, como energia potencial que na última torna-se cinética.

O fio condutor da canção está neste chamado: Filho, pegue suas coisas, eu vim te levar para casa. A figura paterna (que novamente não precisa ser literal como num Hamlet pacificado, mas dá pano para manga do ponto de vista psicológico) faz uma convocação dúbia – aí está a riqueza maior desta letra. O protagonista desta história está preso em uma vida que não lhe interessa, cercado de um cenário de engrenagens que lhe tolhem e iludem, e vai abandonar tudo isso. Mas ele vai voltar para casa? Ou vai dar um passo no vazio? Ambas as coisas.

Volto à análise musical para lembrar um detalhe rítmico fundamental, chave do entendimento da fusão de significados opostos feita por Peter Gabriel: a frase de chamamento acima não é dita no 7/8 do resto da canção, mas em dois convencionais compassos 4/4, que soam, eles sim, quebrados ao surgirem no encerramento das estrofes. O convencional torna-se estranho. E em sua estranheza torna-se desejável. O retorno à casa é o passo no vazio, ambos os movimentos são um. Peter recebe o chamamento do pai. Peter torna-se pai. O pai diz: pegue suas coisas. Peter olha para trás e diz: fiquem com minhas coisas, vieram me levar para casa. A casa é a o caminho.

Solsbury hill, depois do acúmulo progressivo de instrumentação/tensão ao longo de toda ela, termina na explosão de um único e repetido acorde fortíssimo de guitarra por sobre o incessante riff, agora repetido por vários instrumentos, uma torrente arrebentando a represa, a vida antes contida jorrando avassaladora, talvez o final de uma canção mais entusiasmado que já ouvi. Peter Gabriel nunca abandonou Solsbury Hill, sempre voltou a ela em seus shows. No mais recente álbum, New Blood, em que suas próprias canções são revistas sem guitarra nem bateria, em arranjos orquestrais, ela não seria incluída a princípio, mas acabou tendo de entrar como faixa bônus tamanha foi a mobilização de seus fãs a seu favor. Sinal do quanto o relato de uma experiência absolutamente pessoal é, na verdade, uma experiência basilar da natureza humana: a necessidade do rompimento com o passado, e a necessidade oposta e igualmente fundamental da reconciliação com o passado, que nos alimenta para seguirmos em frente.

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Um comentário em “A canção do eterno retorno para casa

  1. dyamond3k disse:

    Quem, com tal lucidez e argúcia, enxerga a alma
    de alguém tão profundo e, com a mesma profundidade
    de análise? … mais ainda com uma mestria na “narrativa”
    sobre ambas (as almas, porque sem dúvida também está
    a falar de si sob algum (ou muitos) aspecto),
    sem dúvida arranca-me um sentimento ímpar,
    um tríplice e inesperado gozo, bem fundo, bem direto
    … certeiro na minha alma.

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