MPB e violência, por Francisco Bosco

Em sua coluna desta semana no jornal O Globo, o compositor e ensaísta, entre outras coisas, Francisco Bosco levou avante de um modo surpreendente para mim a discussão sobre a MPB cujo último lance foi o debate entre Rômulo Fróes e Walter Garcia, de que tratei aqui no blog (e particularmente a confrontação entre as canções Ode aos Ratos, de Chico Buarque e Edu Lobo, e Tô ouvindo alguém me chamar, dos Racionais MCs). Francisco toca num ponto sensível e basilar, o suposto consenso de classes promovido pelo modelo de MPB forjado nos anos 1960 e que agora vai se desvanecendo, para alguns, ou reconfigurando, para outros, mas que, de qualquer forma, precisa ter sua real amplitude avaliada e entendida como parte de um contexto que vai muito além do musical. Eis aí.

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Conforme noticiado pela imprensa, há duas semanas o ator Marcelo Faria agrediu com uma garrafada na testa o segurança de uma casa de shows no Rio de Janeiro porque foi impedido de entrar na área reservada às pessoas que compraram ingressos de mesa, segundo nota oficial emitida pela casa de espetáculos. Uma testemunha depôs a favor do segurança, responsabilizando o ator pela agressão, dizendo ter visto o ator provocar, ofender e finalmente tentar invadir o espaço guardado pelo segurança, que permaneceu tranquilo e no estrito cumprimento de seu dever até ser abalroado pelo agressor. A agressão ocorreu durante o show de um compositor jovem, da Zona Sul do Rio (nota do Túlio: era o cantor Rogê), que teve participação de sambistas como Arlindo Cruz e Wilson das Neves. Pois bem, a tal testemunha sou eu mas não quero tratar aqui do que esse caso tem de particular (o que agora será feito pela Justiça), mas sim do que tem de geral. Ele permite compreender em boa parte por que se fala de uma crise da música popular brasileira e mesmo de um suposto fim da canção.

A canção popular brasileira se consolida nos anos 1930, com a geração de Noel Rosa, Dorival Caymmi, Ary Barroso, entre outros. É o momento em que o samba passa de atividade de vagabundos para símbolo da cultura nacional. É o momento em que Gilberto Freyre publica o clássico Casa-grande & senzala, que mudou inteiramente a interpretação da formação do país. O samba é, tanto da perspectiva formal quanto da social, o resultado de mestiçagens. Formalmente, combina a rítmica de origem africana, baseada na síncope (ou na contrametricidade, para evitarmos o etnocentrismo do termo síncope), à tradição melódica e harmônica da música europeia. Socialmente, foi se formando e consolidando por meio dos encontros entre sujeitos da classe média e das favelas;brancos,mulatos e pretos; intelectuais e iletrados. Noel Rosa é o maior representante inicial dessa mestiçagem formal e social. O poeta da Vila, ex-estudante do colégio São Bento, trocou a faculdade de Medicina pela companhia dos pretos do Estácio e fundiu a rítmica e o tema da malandragem a letras de alta intensidade poética, à altura do modernismo então em voga nas artes.

Décadas mais tarde, o que se chamaria de MPB é uma radicalização dessas mestiçagens. A bossa nova tomaria a tradição do samba como base para a modernização da canção brasileira.A geração dosanos 1960 foi feita de universitários, na maioria brancos (ou brancos simbólicos), que aprofundavam relações a um tempo com o Brasil popular e com o que havia de mais contemporâneo no mundo. O que se chama de MPB é portanto essa música que se tornou símbolo da cultura brasileira e que simboliza justamente uma ideia ou ideologia de conciliação entre as classes e raças.Quando se fala no fim da canção, é também e talvez principalmente a crença nessa ideologia que está em jogo. Por quê?

Voltemos ao show e à agressão do ator. Como eu disse, o show era de um cantor de classe média, branco simbólico, da Zona Sul. O público tinha majoritariamente as mesmas características (eu inclusive). O que acontecia no palco era a celebração, musical e social, da conciliação de classes e raças. Mas o que aconteceu na plateia era o desmentido ou ao menos a brutal relativização desse acontecimento. Pois a agressão não foi um caso isolado. Não foi nem mesmo uma briga de homem contra homem, e sim de rico contra pobre, famoso contra anônimo, privilegiado contra desfavorecido. Não acredito que o agressor tivesse a coragem de fazer o mesmo na Zona Norte, em um contexto onde não se sentisse protegido pelos membros da própria classe. Com efeito, ninguém mais testemunhou contra o ator, embora dezenas de pessoas tenham visto a agressão.

Pois bem, para que aquele acontecimento musical pudesse ter valor de verdade social, a agressão deveria ter sofrido um repúdio total e imediato. Isso mostraria ser autêntica a via civilizatória de uma conquista da civilidade e da igualdade por meios graduais e sem traumas. Tal como se deu, o acontecimento desmentiu a promessa da MPB. Eis o resumo da relação da MPB com a realidade social brasileira:umaparte destaa confirma, mas outra a desmente. É precisamente no intervalo entre a promessa formal e os desmentidos reais que surge a canção poderosa e anticordial dos Racionais.

E é também por isso que, na última canção de seu último disco, Chico Buarque abandona a sua característica terceira pessoa para assumir o lugar do herdeiro sarará/ de um feroz senhor de engenho. Como se já não fosse legítimo ocupar o lugar do outro.

Sinhá – Chico Buarque e João Bosco

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6 comentários em “MPB e violência, por Francisco Bosco

  1. Gustavo Bonin disse:

    Nosso famoso preconceito nublado. A miscigenação existe, agente só não acreditou ainda.

    Na canção: Ele abandona a primeira pessoa (escravo açoitado) e na terceira pessoa, falando de si mesmo, ele assume o lugar de herdeiro sarará, de um feroz senhor de engenho, ao mesmo tempo que assume as mandingas do escravo que enfeitiçou sinhá, ou seja, filho das duas misturas, situação mais contemporânea, sentimento de cantor atormentado.

    • Gustavo, achei excelente a ligação que o Francisco Bosco faz colocando esta canção como contraponto aos Racionais, em vez da Ode aos Ratos, como fez o Walter no debate. Se naquela o Chico chega ao tema de dar voz ao marginalizado indo ao rap pela via do repente e do baião, nesta ele trata do problema atual pela via histórica, e só assim se permite assumir em algum ponto esta voz – como já fizera na maravilhosa Sinhazinha, feita para a Zezé Mota cantar, atualizando a mucama. Vou ver se pego estas duas para tratar ali adiante. Abração.

  2. Muito interessante sua análise sociológica da chamada música popular e Brasileira.

  3. Luciano disse:

    Tenho pelo menos uma enorme ressalva aos Racionais — além do fato de achá-los chatos e pobres musicalmente. Eles parecem dividir o mundo entre “manos” e “playboys”. Ou você é um “mano” como eles (e isso significa ser negro e/ou malaco, e/ou trabalhador e/ou sofredor, vida loka, etc etc) ou você é um playboy (e isso significa ser branco e/ou otário e/ou riquinho e/ou patrão e/ou filhinho de papai etc etc etc). Essa visão de mundo que eles parecem emanar e propagar me parece ser muito pobre, mesquinha e beligerante. Triste, enfim, seja perfeitamente compreensível que eles a tenham num país como o nosso em que de fato existe uma divisão brutal entre as pessoas e no qual os ricos querem, mesmo, viver separados do resto do mundo.

    • Luciano, a divisão de mundo dos Racionais já foi mais radical, mas você mesmo deu a explicação. Ela me parece (a música deles) cada vez menos uma divisão em si, e cada vez mais a denúncia desta divisão. Quanto à pobreza musical deles, ao mesmo tempo admito esta simplicidade espartana como algo proposital numa mensagem que se quer absolutamente direta e dura, e percebo aos poucos que ela também tem inúmeras nuances às quais meus ouvidos estão pouco acostumados. Pois a divisão brutal não é somente social e econômica, é estética também. Num dado momento Clementina de Jesus conseguiu transpor esta barreira com uma música que foi considerada pobre musicalmente antes. Uma barreira que fica mais alta e mais difícil de transpor no caso da agressividade dos Racionais. Enfim, divagações… Abraços.

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