MPPB – Música Popularíssima Brasileira

As Olimpíadas de Londres já acabaram faz tempo, mas participação brasileira na cerimônia de encerramento ficou ressoando aqui na minha cabeça. Na parte final do show em que os ingleses tentaram mostrar ao mundo um bocado representativo da música que legaram, revivendo de The Who a Spice Girls, o Brasil teve nada mais que oito minutos para se apresentar como a próxima capital do esporte, e Cao Hamburguer e Daniela Thomas ficaram responsáveis por fazer um resumo da imensa diversidade brasileira, o que ocasionou inevitáveis discordâncias e a manifestação de um bocado de preconceito, travestido da variante do bordão “imagina na Copa!”.

Participação brasileira no encerramento das Olimpíadas 2012 (tirada da TV, qualidade mediana, para quem não lembra ou não assistiu)

A seguir, uma troca de opiniões travada no dia seguinte entre eu e o músico mineiro Pablo Castro, a partir de um comentário meu no Facebook. Volto a seguir para pensar um pouco sobre os assuntos tocados:

Eu: Ontem li aqui várias louvações às escolhas musicais no encerramento das Olimpíadas, acompanhadas de previsões depreciativas sobre o possível repertório no Brasil. Como se as Spice Girls não fossem uma armação de produtores (e os Beatles também eram). Como se nossa música não fosse aclamada e admirada em todo o mundo. Se você acha o Michel Teló indigno e odiento, em vez de esculachá-lo, traga nomes novos. Quem sabe ele não canta na Abertura? E viva o BNegão.

Pablo Castro: Túlio, os Beatles nunca foram armação de empresários, acho até um sacrilégio colocá-los na mesma sentença que as Spice Girls. Acho bem intencionada a dica pra trocar a crítica ao Michel Teló pela divulgação de um artista independente, mas não nos iludamos, a força da grande indústria é que dita essa matéria, e milhares de artistas independentes juntos não chegam ao cachê de um Michel Teló. A grande indústria ainda tem o monopólio do que a massa escuta, e isso não vai mudar com espontaneísmos. Abraços!

Eu: ‎Pablo, podíamos estão trocar pelos Sex Pistols, que foram criados pelo dono de uma butique… Mas os Beatles foram, sim, um grupo popizinho comportado e sem valor musical maior por bastante tempo e na opinião deles próprios, até tomarem as rédeas do próprio trabalho e o virarem pelo avesso. E quanto à força da indústria, ela sempre esteve aí – aliás, já foi muito mais forte. Ela investe no Teló, e não em quem nós investiríamos? Muito bem. Outra coisa é afirmar que o Teló é “fabricado até o pescoço”, como a Rita Lee dizia do Sidney Magal. Não é, admitamos. Ele veio de algum lugar, tem representatividade junto a um público, sim. A música dele é rasa como uma poça? É, vamos e venhamos. Mas ficar repetindo raivosamente isso vai servir para alguma coisa? Duvido. Se alguém tem a pretensão de reduzir o Teló ou quem quer que seja (que pegar ele pra cristo também não ajuda muito) ao seu devido valor musical, o que quer que seja isso, terá necessariamente que ser pelo oferecimento de opções por outras vias, saindo da zona de conforto da crítica fácil. “Livros, discos, vídeos às mancheias, e deixem que digam, que pensem, que falem!” Abraços.

Pablo: Michel Teló pra mim só representa a depauperação simbólica por que passou nossa música depois de 30 anos de massacre midiático, idiotização, jabá, e censura, sim, censura que as gravadoras impuseram aos criadores que foram na prática impedidos de ter sua música veiculada nas bandas atmosféricas do rádio e tv nacionais. Engraçado como nos revoltamos contra as remoções das famílias para as gananciosas e superfaturadas obras da copa, mas somos instados a aceitar uma representação simbólica imposta por meia dúzia de famílias que mandam nas gravadoras e nas tvs e rádios de concessões públicas, que ainda tem a prerrogativa quase exclusiva de determinar o que vai ser ouvido ou não pela massa. Acho que esse discurso, embora sofisticado, do Hemano Vianna, essa relativização absolutista acaba por legitimar a monocultura idiotizada de sertanejos universitários, pagodes românticos, axés etc. em benefício de quem sempre mandou e continua mandando na seara simbólica de um país de 8 milhões de km2 que é praticamente a mesma do Oiapoque ao Chuí no que tange à música veiculada. Não temos sequer uma mínima regulamentação que permita pluralismo e auto representação nos meios de comunicação, e intelectuais blasés, como se descobrissem a roda, acham tudo isso muito lindo, divino, maravilhoso! Qualquer pesquisa bem feita concluirá que, dos anos 70 pra cá, a indústria fonográfica vem aniquilando a música brasileira enquanto patrimônio e representação simbólica do país, jogando todas as fichas em monoculturas de vendagem fácil e durabilidade mínima. Detalhe: não assisti à apresentação do Rio no encerramento das olimpíadas, porque sempre me aborreço com as sínteses estéticas que pretendem representar nações em eventos do tipo, embora tenha acabado de ler um texto elogiando o samba do crioulo doido que foi o mote para o filme de Daniela Thomas, e que, dentro do contexto cultural brasileiro contemporâneo, deve ter sido até bem sucedido. Não acho que essa representação tenha que hierarquizar o sofisticado acima do popular, o complexo como necessariamente superior ao simples, mas, juro, me causa náusea ser representado por Michel Teló e congêneres, não me reconheço aí. É o mal-estar na cultura brasileira, resultado necessário da mordaça simbólico-estética que assola nossa música de massas. Podemos continuar essa discussão no seu blog, depois! Abraços!

Retomo o debate, então, em primeiro lugar, afirmando que o entusaiasmado Hermano Vianna pode ser tudo, menos blasé. Dito isto, vamos tentar articular uns pensamentos sobre este capítulo a mais do eterno embate apocalípticos X integrados. Meu primeiro ponto: a Indústria Cultural adorniana está mesmo com essa bola toda? Está, mas não está, a meu ver. Está, porque seu campo de ação aumentou muito; não está porque, concomitante com este aumento de campo, aumentaram muito as brechas para atuar artisticamente por fora dela. Isto é visível não apenas no compartilhamento de arquivos na Internet, mas também no surgimento de categorias musicais como o sertanejo universitário e o tecnobrega do Pará ambos nomes reducionistas de cenas musicais exuberantes das Regiões Centro-Oeste e Norte do Brasil.

Ah, mas estes estilos são exatamente os apontados como, digamos, forçados goela abaixo do público pela Indústria! Então vamos lá: entender o processo econômico-histórico que levou estes e outros estilos a ganharem a atenção dos grandes centros urbanos e serem reconhecidos – não sem muita resistência – como integrantes das tradições musicais brasileiras exige lembrar também de outros movimentos anteriores desta expansão, como a chamada axé music, outro nome reducionista para outra cena imensa, que foi de Gerônimo e Olodum a bandas como É o Tchan e congêneres.

Mas então estamos falando de algo forjado ou genuíno? Aí é que está o busílis: as duas coisas simultaenamente. Porque trata-se de um investimento pesado, e necessariamente simplificador e diluidor, de movimentos que realmente acontecem, com forças incríveis (dê uma olhada aqui para ter um exemplo avassalador). Trata-se de uma tremenda rearticulação da Indústria ao se perceber enfraquecida, dentro do que o capitalismo faz melhor: recuar para permanecer no mesmo lugar. Se na década de 1970 a estratégia era fazer a música vendável, brega, financiar a MPB (pois sempre vendeu muito mais, embora sem reconhecimento nenhum), e na de 1980 era inserir a música vendável à força no repertório dos medahões (vide a dupla Michael Sullivan / Paulo Massadas, gravada de Xuxa a Gal Costa, passando por Alcione e Sandra Sá), agora ela ficou bem mais sutil, ainda muito eficaz – mas a discussão é se é nefasta, e o quanto…

Os fenômenos de popularidade do sertanejo universitário e o tecnobrega do Pará tem a mesmíssima explicação socioeconômica: eles vêm no rastro da expansão das fronteiras, antes agrícolas, agora musicais. Se tomarmos um mapa de IDH do Brasil, veremos que a região centro-oeste ascendeu economicamente. Assim como o Plano Real, em 1994, trouxe como consequência inesperada os grupos de pagode para uma população que agora podia comprar CDs (esta ainda uma expansão econômica, não geográfica, e facilitada de certa forma pelo alcance nacional do samba, substrato inicial destes trabalhos), a distribuição de renda operada no governo Lula permitiu que estilos musicais antes restritos a determinadas regiões se tornassem lucrativos em âmbito nacional. Pagode, sertanejo (do interior de São Paulo), axé, forró com teclados, sertanejo universitário, tecno brega paraense: são nítidos os círculos concêntricos de cada uma destas ondas em que ritmos regionais se industrializam e ganham as outras regiões. E então vem a capa da revista Época afirmar que Michel Teló traduz os valores da cultura popular para os brasileiros de todas as classes, tomando a parte pelo todo e invertendo o processo: são todas as outras classes que estão se apresentando para a classe média consumidora da revista…

Mas e a questão da elaboração formal? Este me parece ser o ponto de divergência que leva tantos a reclamarem desta música popularíssima. Pois a canção brasileira forjada a partir da geração de fins dos anos 1960, de herdeiros da Bossa Nova e marcados pelo Tropicalismo (seja para atuar nele ou para negá-lo em seus trabalhos) alcançou sem dúvida um tremendo nível de estruturação. É isso que leva os descontentes com o processo a acusarem nova indústria fonográfica de apostar na diluição, na baixa qualidade, na transformação de particularidades regionais numa imensa pausterização fácil de ser veiculada em qualquer lugar, e mesmo internacionalmente, e mesmo criar uma música falsamente representativa, que acaba representando realmente. (Neste ponto eu ia citar a relação ficção/realidade da música Vida de Empreguete, feita sob encomenda para ser cantada pelo grupo musical fictício da novela das sete e encontrando ressonância real numa classe social, merecia um estudo mais detido, mas fica para outra vez.)

Mas voltando à questão da elaboração formal (fugindo da palavra qualidade, estigmatizante demais para o meu gosto), fato é que, paralelamente ao aflorar desta diversidade, surgem músicos populares dispostos a usá-la em seus trabalhos, estes com um grau de elaboração maior. Mas não dentro do paradigma Edu Lobo (e lá vou eu estigmatizar por minha vez) de usar o folclore para uma composição de teor quase erudito, e talvez também não no paradigma Caetano Veloso, de aproveitar a estética pop para fazer metalinguagem (duas simplificações grosseiras propositais). Pois nestas manifestações a fusão pop/folclore já está dada, já foi feita, chiclete de banana. É necessário partir daí para além. E este amadurecimento estético se dá aos poucos, e não se dá à parte de um amadurecimento que é também socioeconômico.

Pois a classe média que sustentou o projeto musical MPB e suas sucessivas expansões, agora também se expandiu, e tem bagagens culturais diversas de suas diversas origens. Assim como nos últimos anos houve uma explosão na venda de jornais populares de assunto fofoca/futebol/crime, mas também explodiu a frequência a exposições gratuitas aqui no Rio, a música apelativa, elementar, de caráter imediatista, é parte saudável do processo histórico de afirmação desta gente que acaba de botar o nariz para fora d’água pela primeira vez em séculos. Essa gente que superlota o metrô do Rio começa a querer transporte melhor. Essa gente logo vai também cansando do trinômio do noticiário básico, e querendo ler outras coisas. E essa gente também vai moldar e remoldar a sua música, a seu bel prazer, sem amarras nem patrulhas.

Fenômenos passageiros, música descartável, sempre houve, não vai deixar de haver. Não há mais uma MPB só, de ponta, que toque no rádio e sirva de referência para ninguém. Ao longo da próxima década, certamente surgirão nomes sobre nomes que, como Beatles, Sex Pistols, Spice Girls, serão forjados para satisfazer este público, porque o capitalismo não para e sabe se adaptar rapidamente a qualquer situação. Mas, como já aconteceu tantas e tantas vezes, de vez em quando a criatura engolirá o criador. Deixando para trás visões tanto apocalípticas quanto integradas, sou pessoalmente otimista. Sem considerar que um estilo ou formato musical específico vá se firmar como preponderante, assim como os paradigmas Edu e Caetano conviveram e convivem não sem atritos, mas ambos prolíficos e relevantes, os novos formatos que são hoje gestados e testados ampliarão, e não restringirão, o espaço cultural, assim como os públicos são ampliados e se fazem ouvir.

A Indústria Cultural também estará aí, disposta a tomar partes desta produção e generalizá-la. Alguns recusarão, outros aceitarão. Certo é que os meios alternativos que hoje já permitem trabalhos independentes ganharem o mundo serão mais desenvolvidos, e darão condições a múltiplos caminhos. De Dori (Caymmi) a Gaby (Amarantos), o espaço se ampliou, há mais gente querendo se ver representada na abertura das Olimpíadas. Os responsáveis pela criação do espetáculo, daqui a quatro anos, vão ter trabalho. Acho ótimo. E viva o BNegão.

Alteração (Éa!) – BNegão e os Seletores de Frequência

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3 comentários em “MPPB – Música Popularíssima Brasileira

  1. Olá. Sou fã do blog mas o comentário é apenas a respeito dos Beatles. Eles já tinham uma, digamos, carreira na noite, em Liverpool e Hamburgo. O que o empresário, Brian Epstein, fez foi colocar ternos, padronizar o agradecimento ao final das canções e agendar shows. O produtor, George Martin, trabalhou ativamente com o grupo, mas a força criativa, jamais questionada, era dos quatro músicos da banda. As composições, já de alto nível no começo da carreira, ainda mais se comparadas com as dos grupos da época, e a escolha dos covers, presentes na primeira metade da carreira discográfica, sempre foram obra, goste-se ou não, dos próprios membros do grupo. Concordo com Pablo Castro: colocar Beatles na mesma sentença das Spice Girls é demais.

    No mais, é isso. Um abraço!

    • Márcio, é certo que usei os Beatles como provocação, exagerando um bocado de propósito, e a última coisa que quero é entrar numa polêmica sobre eles. Mas quando falei de influência sobre eles não me referia só ao Brian, mas também ao George Martin. Sobre a avaliação de seus primeiros trabalhos, citei o próprio John, que os renegava, mas é claro que as devidas proporções devem ser guardadas. Só me pergunto o quanto estas se devem ao talento dos rapazes à época (que obviamente existia, mas tornou-se muito mais evidente depois) e o quanto são diferenças históricas – ou seja, se hoje um grupo apadrinhado / tutelado e muito popular como elas resolvesse fazer dar a guinada que os Beatles deram, será que conseguiria? Será que manteria a visibilidade da mídia, a credibilidade, a popularidade? Não tenho a resposta, essa é uma discussão infinda. Certo é que, à parte as provocações, prefiro Beatles a Spice Girls, o que não deixa, ao fim e ao cabo, de lhe dar razão… Abraços.

      • O John renegava tudo, até Strawberry Fields Forever, imagina! 🙂 O que gerou a guinada, entre outras coisas, foi tempo livre. Com o número exagerado de shows marcados, eles só tinham tempo pra compor e olhe lá. Só foi parar de tocar ao vivo, que se enfiaram no estúdio com tempo de sobra e a coisa toda mudou pra valer.

        Pelo menos me alegra em saber que você prefere Beatles a elas, hehe!

        Abraço!

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