Seo Zé, sertanejo universal

O título do álbum Verde, anil, amarelo, cor de rosa e carvão, de Marisa Monte, vem do verso de uma canção que não foi gravada nele.

Seo Zé – Carlinhos Brown, de Carlinhos Brown, Marisa Monte e Nando Reis

Seo Zé é uma das faixas do primeiro álbum de Carlinhos Brown, o subestimado Alfagamabetizado, em que ele envolve sua escrita elíptica em arranjos apuradíssimos (a produção é do americano/pernambucano Arto Lindsay e do francês Wally Badarou). As letras de Brown certamente são hours concours nas recorrentes piadas sobre letras incompreensíveis da MPB. No entanto, numa escuta um pouco mais atenta, suas canções podem surpreender pela coerência composicional. Mas a chave para a decodificação desta escrita talvez fique mais clara em outro lugar:

Quixabeira – Carlinhos Brown, de domínio público

Quixabeira na verdade não é uma canção, mas três. É uma fusão de Samba santo amarense: Alô meu Santo Amaro, Vinha de viagem e Amor de longe, três cantos de agricultores de comunidades rurais do semiárido baiano. Carlinhos as descobriu no álbum Da quixabeira pro berço do Rio, de 1992, resultado do trabalho do músico e pesquisador Bernard von der Weid, e gravou a canção juntamente com nada menos que os Doces Bárbaros: Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa e Maria Betânia, participação que tem em si significância tão grande quando a própria canção. Aqui, mais informações sobre o álbum, e aqui, a gravação do Samba Santamarence pelo grupo Quixabeira de Lagoa

A separação entre as três partes de Quixabeira é fácil de fazer, a partir mesmo dos títulos das que lhe deram origem, e não tem relação direta entre si. Mas sua junção também não se faz à toa. Pois entre elas há o elo da relação com o lugar, com a viagem: Amor de longe, benzinho, é favor não me querer; Fui de viagem, passei em Barreiros (pequena comunidade do município de Riachão do Jacuípe, Bahia); Tu não faz como um passarinho que fez o ninho e avoou; Alô, meu Santo Amaro, eu vim lhe conhecer. O pensamento não retilíneo pincela visões e personagens diversos num cenário comum.

A presença dos Doces Bárbaros, sendo dois deles santamarences, não é um caso à parte. Carlinhos em todo o álbum, a começar pelo título, trata de uma espécie de atualização/universalização das tradições musicais baianas mais profundas. A reunião bissexta dos quatro, de resultante maior que as presenças individuais, é não apenas um símbolo desta ponte, como uma bênção de quem a construiu antes, mas mais especificamente faz a ligação entre Santo Amaro da Purificação, terra natal de Caetano e Betânia, e a miscigenação musical/cultural proposta por Brown, como ele mesmo afirma.

Daí podemos voltar a Seo Zé, cuja letra vai se desvelando em pinceladas e associações de idéias que parecem sem direção, mas avançam sinuosamente em uma direção certa. Os versos de abertura, que batizaram o álbum de Marisa, avisam: falamos de humanidades. A profusão de referências bíblicas tão emendadas umas nas outras que mal são percebidas (Adão, Judas, o festim das bodas fundido com Buda, a entrada de Jesus montando uma mula em Jerusalém, aqui trocada por Belém) acabam servindo para colocar o homem do sertão (aqui um Antônio anônimo nômade que logo desaparecerá, substituído na canção pelo personagem título) no mesmo plano algo mítico (ou superior, já que ele rompe Adão com facão, superando-o como uma espécie de super-homem nietzscheano sertanejo).

Mas esta é apenas uma das miscigenações em Seo Zé. Outra é chamar Brás Cubas pra dançar quadrilha / pra subir pra Cuba com toda a família. O ritmo de Seo Zé está em algum lugar entre a salsa que se assume totalmente nestes versos e algo próximo de um batuque de roça em sua maior parte. O motivo da associação de Carlinhos entre estes ritmos além da ligação musical estrita, ou do paralelo jogo de palavras com Brás Cubas, permanece misterioso para mim. Mas a relação entre duas culturas fundadas no rural e de trajetórias paralelas, com mais em comum do que pode parecer, em música como em religião (e aí as referências católicas comuns citadas traçam referências duplas), é uma boa pista.

Pista que se complementa com a contraposição entre o personagem de Machado de Assis, elemento da cultura chamada erudita e urbana, com o elemento tradicional da quadrilha de São João. A associação de ideias de Carlinhos não é aleatória, tem direção certa: Brás Cubas se depara com sua incômoda raiz, e logo após percebe que esta raiz é tão universal quanto o meio urbano em que vive. Assim, torna-se um duplo de Seo Zé, outro lado da moeda identitária do brasileiro anunciada: tanto cor de rosa quanto carvão.

Mas o verso que define a canção, cantado num tom grave e discreto, quase em linha reta, ao invés de proclamativo, numa espécie de anti-refrão (que ao final se desabrocha e se assume nas repetições finais) é Seo Zé tá pensando em boi. É quando a síntese acontece, não é preciso dizer mais nada. Pensar. Memória. Em que pensa o Brasil? O Brasil Brás-Cubas/Seo-Zé pensa em boi. Pensa no tempo presente ou no atavismo, na referência, no passado que permanece. Como o Nordeste brasileiro hoje se desfaz de seus burros e os abandona tornando-os problema público ou os exporta para a China, no afã de comprar motocicletas, que serão exatamente o que eram os burros, assim o Brasil, para o bem e para o mal, segue pensando em boi. E o sertão é do tamanho do mundo.

No excepcional estudo A Representação sócio-cultural do cotidiano rural na produção artística do Grupo da Quixabeira (que gravou o álbum Da quixabeira pro berço do Rio), o pesquisador Ricardo Ferreira dos Santos cita Nietzsche:

A canção popular, porém, se nos apresenta, antes de mais nada, como espelho musical do mundo, como melodia primigênia, que procura agora uma aparência onírica paralela e a exprime na poesia. A melodia é portanto o que há de primeiro e mais universal, podendo por isso suportar múltiplas objetivações, em múltiplos textos. Ela é também de longe o que há de mais importante e necessário na apreciação ingênua do povo. De si mesma, a melodia dá à luz a poesia e volta a fazê-lo sempre de novo; é isso e nada mais que a forma estrófica da canção popular nos quer dizer: fenômeno que sempre considerei com assombro, até que finalmente achei uma explicação.

Por canção popular, nietzsche toma a chamada canção folclórica, em sua denominação anterior ao surgimento da musica popular como a conhecemos. Ricardo busca mostrar como o Grupo da Quixabeira atualiza sua tradição e sua música frente à tecnologia de gravação, assim como ao contato com as transformações do mundo, em manifestações que continuam vivas em suas transformações. Em suas palavras:

No processo de elaboração das suas canções, as comunidades inseridas no Grupo da Quixabeira (re) constroem a sua identidade cultural superando as fronteiras entre a música regional e a música pop. Seria a fronteira entre o folclórico e o tecnológico. Havendo uma necessidade dos artefatos eletrônicos para o registro das canções, e sua veiculação pública. Nesse sentido, a produção estética do Grupo da Quixabeira possibilita não apenas identificar o cotidiano das comunidades rurais, mas, sobretudo evidenciar uma representação cultural na contemporaneidade.

A ambição da música de Carlinhos Brown, segundo ele afirma em seu sítio (onde aliás estão disponíveis para escuta online todos os seus trabalhos), não era ser eterno, mas atemporal. Sua estratégia para isso envolve vários movimentos, aparentemente em sentidos opostos, como os músicos de várias partes do mundo com que gravou cantos interioranos. Mas mostra-se acertada ao fazer perceber que estes cantos interioranos já eram atemporais em suas transformações. A composição de Carlinhos segue a trilha destes cantos ao fazer música pop, sem emulá-la, mas efetivamente incorporando sua não linearidade, sua crônica do cotidiano, e mesmo do trabalho, transformada em festa, na visão nietzscheana da música como condição de possibilidade da existência humana, uma afirmação dionisíaca da vida.

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3 comentários em “Seo Zé, sertanejo universal

  1. Aliã Ferreira disse:

    Olá, cabe apenas uma correção ao texto, onde você menciona Barreiras a Cidade, na verdade a canção se refere a Barreiros, pequena comunidade do município de Riachão do Jacuípe, localizado na Bacia do Jacuípe e de onde o autor é natural.

  2. Elivaldo disse:

    Túlio. Deixo aqui meus parabéns pra seu riquíssimo texto. Passei o fim de semana em Santo Amaro e quando estou meio “alto” eu costumo prestar mais atenção nas letras das músicas. Rsrsrsrs. E parei pra ouvir Quixabeira na voz do grupo É o Tchan, que estava passando no trio. Hoje acordei com esta música na cabeça e fui pesquisar a história da canção. No youtube tem até um documentário com gente de lá de Quixabeira cantando. Fiquei me segurando pra não chorar. Não sei pq tenho sensibilidade a estas coisas. Acabei esbarrando aqui no seu texto falando sobre esta fusão das letras de música. Estou encantadíssimo com tanto conhecimento cultural. Meus parabéns mesmo. Ah! Ainda ontem Caetano e Betânia passaram ao meu lado. Sabe quando uma música fica grudada no juízo? Pois é, Quixabeira está grudada aqui no meu e vai ficar uns três dias. Rsrsrs.
    Um forte abraço.

    Elivaldo Bispo
    Estudante de Engenharia Química
    Coordenador Comercial
    Bobo, sensível e curioso

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