Marginal, fronteiriço, Beradêro

beiradeiro
[De beirada + -eiro.]
Substantivo masculino.
1. Bras. CE V. caipira (1).
2. Bras. PB Pessoa rústica que mora na circunvizinhança das vilas sertanejas.
3. Bras. PE Pequeno comerciante das margens das estradas de ferro.
4. Bras. BA V. barranqueiro.

Já virou lugar comum começar um texto com uma definição do Aurélio. Pouco importa. Esta é uma canção que fala de lugares comuns, em diversas acepções do termo, ao promover um diálogo, quiçá um debate interno, entre vários lugares, partes de um lugar, entre si e com um lugar em particular, e sobre suas fronteiras – suas beiradas.

Beradêro – gravação original Chico Cesar

Pois Beradêro vai pela beirada do repente, e também pela beirada da experimentação concretista. Vai à beira de ser temática, sobrepondo imagens e palavras que vão mudando de significado em relação à anterior e à seguinte: E o beijo que vós me nordestes / Arranha céu da boca paulista. Vai também à beira de ser um retrato do Brasil, mas este retrato se estilhaça na linguagem propositalmente desestruturada, na despretensão pretensiosa de não querer abarcar toda a multiplicidade, mas permanecer fronteiriço. Mas fronteiriço interno, não externo. Pois a fronteira do beiradeiro é a fronteira do sertão, interior, de dentro para dentro.

Beradêro é construída sobre o modo mixolídio, em que a sétima nota abaixada muda toda a hierarquia harmônica, fazendo do acorde dissonante o acorde da tônica, fazendo estável o instável. Beradêro, a bem dizer, poderia ser cantada inteiramente sobre um único acorde maior com sétima menor, sem variações. Mas isto seria um empobrecimento absurdo. E, sendo cantada à capela, sem acompanhamento, ocorre o inverso: na voz de Chico Cesar, sugerem-se variações harmônicas a cada desdobramento melódico.

Chico Cesar acompanhado da banda Cordel do Fogo Encantado

Nesta gravação, acompanhado por um acordeão ao longo da canção propriamente dita e por percussão no improviso / música incidental incorporado à canção, aquilo que era implícito na gravação à capela se torna explícito, o que permanecia à beira se assume em uma de suas possibilidades. Mas apenas uma delas. Porque, ao se materializar nas variações harmônicas escolhidas, negam-se todas as outras que são sugeridas na voz pura de Chico, assim como a escolha rítmica redunda o ritmo da sua voz. Um dos motivos para Beradêro ter sido regravada várias vezes (Mônica Salmaso, Zizi Possi, entre outros) é sem dúvida o número de possibilidades abertas no silêncio do acompanhamento da primeira gravação – e que às vezes foi seguido pelos arranjos minimalistas das outras, como que tentando não negar os múltiplos caminhos de escuta possíveis, não direcioná-los para um apenas pelas escolhas de interpretação dos músicos. E é impressionante então como os silêncios de acompanhamento de outras vozes são também outros silêncios, com significados diversos.

Com Mõnica Salmaso

Por tudo isso, permanecer à beira não significa renunciar a uma escolha que, como toda escolha, é excludente; ao contrário, significa a escolha de recusar a exclusão. Particularmente significativo é o verso E a moça cozendo roupa com a Linha do Equador, em que o marco ideal e abstrato de divisão geográfica é transformado em linha de unir, de juntar, de tecer. Este é o jogo semântico que percorre esta canção, uma linha que faça a ligação entre a Catolé do Rocha natal de Chico e a São Paulo onde ele se estabeleceu.

O meio de caminho entre estes dois pontos é ocupado pela humanização da paisagem: Cadeiras elétricas da baiana (outra vez a transformação de sentido a cada nova palavra cantada) e a incrível inversão dos versos E a cigana analfabeta / Lendo a mão de Paulo Freire, em que saberes em margens diversas se encontram no sertão. Não à toa, as notas mais altas de cada estrofe, indicativas de maior tensão e destaque, são ocupadas por partes do corpo: E a voz da santa dizendo; O olhar vê tons tão sudestes; No peito dos sem peito uma seta; e na última estrofe, o verso São sons de sim, não contudo vai originar a seção final, retirada de todas as gravações alheias mas fundamental, e que merece uma atenção especial.

A repetição do trecho do verso são sons de sim, acompanhada da palavra não em inglês e alemão (no e nein), por si só, já é expressiva o suficiente e nada sutil. Muito diretos também são os versos de origem popular que ele canta logo depois:

Catolé do Rocha / Praça de guerra
Catolé do Rocha / Onde o homem bode berra

Bari bari bari / Tem uma bala no meu corpo
Bari bari bari / E não é bala de coco

O bari bari bari – e aí chegou eu também à beira da interpretação se transformar em exegese – pode ser ouvido como buddy, buddy, buddy – numa tradução livre do inglês, colega, compadre, camarada – como soldados americanos chamam uns aos outros. Transportado para o universo sertanejo, podemos estar falando de cangaço, ou mesmo de episódios mais recentes, mas igualmente sangrentos. Neste ponto, ao traçar o paralelo entre guerras distantes entre si no tempo e no espaço, há, sim uma opção: Os sem amor, os sem teto / Os sem paixão, sem alqueire (atenção para a equiparação entre as duas instâncias), os marginais na acepção estrita da palavra – numa palavra, os beiradeiros, unidos geograficamente na sintaxe de Chico e na cidade grande que os iguala.

E se a opção pelo centro é naturalmente criadora de margens, a opção pela margem, ao contrário, tem o dom de não excluir o centro, mas mediar centros e outras margens. Beradêro radicaliza a característica híbrida da canção popular, sendo em sua forma beira entre folclore e vanguarda, e torna-se capaz por isso mesmo de dialogar com estas formas e subvertê-las:

Chico Cesar com a Jazz Sinfônica, no Kaiser Bock Winter Festival – São Paulo, 1996

A interpretação de Chico com a orquestra é apenas mais uma das muitas possibilidades que Beradero oferece. Mas uma possibilidade que, em vez de excluir as demais, é inclusiva ao confrontar o maracatu rural furioso do refrão final com o arranjo de viés erudito das primeiras partes, ao mesmo tempo explicitando o abismo entre eles e sobrepondo-os na mesma interpretação. Os versos finais Pé quebrado, verso mudo / Grito no hospital da gente, pessimistas numa primeira leitura, contrastam com as possibilidades de diálogo criadas a cada verso de Beradêro, mas a última frase serve como uma definição para ela própria. Ao tornar as beiras entre lugares lugares eles próprios, beiras entre saberes saberes eles próprios, Beradêro faz a ligação entre beiras por sobre abismos, barrancos e precipícios pela linguagem, como um grito que se ouve do outro lado, na outra beira.

Anúncios

6 comentários em “Marginal, fronteiriço, Beradêro

  1. Menino, quanta coisa você mostrou aí. E eu que já ouvi tantas vezes Beradêro nunca tinha pensado na metade delas… Gostei!

  2. Sensacional! Agora, engraçado que sempre ouvi o “bari”, como sendo “body”, já que, logo em seguida, vem o “corpo”.
    Um abraço.

    • Marcio, essa é ainda outra possibilidade, tinha pensado nela também. Acabei falando só da “buddy” porque me pareceu que a pronúncia ia mais para esta do que para “body”, no meu precário inglês, e porque justamente a palavra body me soava redundante com o verso seguinte. Mas, já que me fiz exegeta, não custa pensar até num trocadilho em inglês feito pelo Chico… Abraços e obrigado pela contribuição.

  3. ANA CLAUDIA VENTURA DOS SANTOS disse:

    MARAVILHOOOOOOOOOOOOOOOOOOOOSA INTERPRETAÇÃO. UMA VIAGEM. UM IR-E-VIR SENSACIONAL. ISTO É CHICO MARAVILHOSO CÉSAR, CABRA DO SERTÃO QUE UNIVERSALIZA A LINGUAGEM E A REALIDADE.
    OBRIGADÍSSIMA, TÚLIO PELA CONTRIBUIÇÃO.

  4. robson disse:

    não sei se vc ainda existe enquanto blog, mas me arrisco em 2016 mandar essa msg….
    vc tem livros escritos? Se não faça….que inveja do texto enxuto e cortante…parabéns, não só pela interpretação, mas pela maneira de comunicá-la.
    Robson, semi-alfabetizado.

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s