Três ao mesmo tempo e seus encontros

Já falei aqui, tanto recomendando quanto escrevendo artigos a partir dele, do debate entre Rômulo Fróes e Walter Garcia, mediado por Paulo da Costa e Silva, na série Desentendimentos da revista digital Serrote, do IMS. Pois vou espremer mais um pouquinho esta conversa deles para tirar mais um caldo. Na quarta parte do debate, ao comparar as escolhas – e escolas – de Chico Buarque por um caminhoo composicional e musical que privilegia a tradição harmônico melódico, e de Caetano Veloso tratando o timbre como um elemento em pé de igualdade com os demais – a mesma velha discussão de sempre, ocorre um desentendimento real entre eles, ao citarem dois trabalhos distintos do violonista e compositor Kiko Dinucci, o Padê e o Metá-Metá. Transcrevo aqui o trechinho da discussão:

Walter: Sob esse seu critério, o Padê, sobre o qual eu já ouvi e já falei, ou vou ouvir e falar: “bom, isso aqui também é uma sonoridade ultrapassada”, e não é! Dá conta extremamente das canções.

Rômulo: Nada! O Padê? Como assim?

Walter: Exatamente. O Padê é muito mais próximo do disco Chico do que do disco do Caetano Veloso.

Rômulo: Ah, não. Não é, não é. POde até num sentido de chagar… eu tenho certeza que não é porque eu participo do Padê também. Não diretamente, mas eu tô ali. Eu tô ali o tempo inteiro, no Metá…

Walter: O Metá é bem diferente do Padê.

Rômulo: E é uma coisa alí que tem uma certa atualização de uma vanguarda paulistana, na pesquisa do Kiko e da Jussara com a música africana que é diferente – só pra citar…

Walter: Estou falando da sonoridade.

Rômulo: Então, a sonoridade é diferente, o modo como o Kiko toca aquele violão não é o violão da harmonia e melodia.

Paulo: Deixa só eu fazer uma pargunta…

Walter: No Padê é!

Rômulo: É mais do que isso. É como ele soa.

Walter: Não. Não só, mas…

Rômulo: Não só, claro. Mas é principalmente.

Walter: Então, mas é diferente do Metá-Metá. Você falar do Metá-Metá tudo bem, eu concordo. Mas não no Padê.

Rômulo: O Padê tem uma coisa de botar plástico na corda…

Walter: O Padê não tem, isso é do Metá.

Rômulo: Desculpa, o Metá-metá, que vai muito além… Mas o Padê, aquele comportamento, o modo como as cordas são feridas pelo violão do Kiko…

Walter: Isso está na tradição total dessa de trabalho de harmonia… basta você comparar o Kiko tocando a música do São Jorge, “gerrreia no lombo do meu cavalo”, vê ele cantando isso, tocando, no show do Metá-metá, é uma sonoridade que tem tudo a ver com isso que você está falando, mas n ão é igual à gravação do Padê.

Rômulo: Claro, é diferente.

Walter: Então, a gravação do Padê, aquelas gravações do Padê estão nesse caminho de tratamento mais tradicional, se você quiser chamar, ou anacrônico, eu não concordo não, acho que isso que você falou pode ser um dos critérios, pode ser uma das coisas, mas não acho que seja a decisiva não.

Ouvindo esta parte do debate, sobre dois trabalho que eu não conhecia, fiquei como surdo em tiroteio, e fui procurar saber. Padê é o trabalho lançado em 2007 por Kiko com a cantora Juçara Marçal, Metá-metá é o trabalho de 2011 em que a eles se soma o sax e a flauta de Thiago França. E entre estes dois trabalhos, como notou Walter, há mais que a diferença de um instrumento a mais. Mas a entrada deste instrumento também é uma diferença maior do que pode parecer.

Antes de tudo, é bom saber que Kiko Dinucci é um estudioso das tradições afrobrasileiras. Em 2006, dirigiu o documentário Dança das Cabaças – Exu no Brasil, em que investiga a distorção que o orixá Exu, originalmente um mensageiro (entre muitas outras simbologias, à semelhança do Hermes grego) para sua associação com o Diabo feita pelo Catolicismo.

Não por acaso, Padê é a denominação de uma cerimônia de oferenda para Exu, mas também significa encontrar em iorubá. O álbum Padê parte exatamente daí, dos cantos do candomblé para encontrar possibilidades novas.

Imitação – com Padê

Porém, como assinala o Walter, em Padê o violão de Kiko segue em linhas gerais o desenvolvimento harmônico / melódico da tradição da MPB. Neste sentido, o ponto de ligação por excelência entre estes dois são os Afrossambas de Vinícius de Moraes e Baden Powell. Vinícius e Baden promovem em seu álbum referencial uma espécie de negociação entre o canto de candomblé e a poesia erudita, entre a divisão rítmica / escalas modais e o toque novo do violão de Baden, e o resultado impressionante a que chegam é o meio termo entre estes opostos, que se consolida em canção e MPB.

Pois onde Padê de alguma forma segue a tradição, Metá-metá a quebra, e a quebra radicalizando sua proposta. Metá-metá está bem num meio de caminho entre sofisticação e crueza. Mas não, no meio do caminho é justamente onde não está. Está na sofisticação e na crueza, em bicorporeidade, ou melhor, em ubiquidade, pois trata-se de um só corpo em dois lugares simultaneamente. Metá-metá faz a fusão do afrossamba sem sob uma outra forma (nos dois sentidos da palavra que não tem mais acento), por uma outra via que permite que cada elemento constituinte fique mais nítido o que é cru fica mais cru, o que é sofisticado soa mais sofisticado (não fossem sofisticadíssimos a poesia de Vina e o violão de Baden, que no entanto ficam parecendo fáceis ao ouvir os Afrossambas, no sentido de uma síntese de elementos e de uma poesia mais singela e mais direta, que era a que o Vinícius usava em letras.) Em Metá-metá, ao contrário, há espaço para ir mais longe nas duas direções, espaço que só é possível, obviamente, por ser aberto a partir do que já fora conquistado.

Por isso, é possível pensar Padê como uma espécie de preparação para o Metá, ou Metá como um desenvolvimento do Padê? Como que um tomar posse, um dominar a técnica, para depois ultrapassá-la? Sim, porque ao longo de quatro anos, se a visão de um músico não se desenvolve, alguma coisa está errada. Mas não, porque trata-se de dois trabalhos que partem de pressupostos diversos, assim como no debate Rômulo e Walter contrapõem visões de Chico e Caetano sempre sem permitir hierarquizações. Se em Padê, o acompanhamento harmônico é a base, em Metá o pressuposto é outro. Kiko acompanha canções inteiras fazendo um único riff ao violão; toca violão preparado, colocando papel ou plástico sobre as cordas (como nota o Rômulo); o sax de Thiago França é escrito e arranjado pari passu com o violão, dobrando os riffs, fazendo às vezes o baixo ao definir a harmonia mudando a nota enquanto o violão repete o mesmo desenho, dando peso e volume ao som, em posição muito diversa de um instrumento solista, até mesmo fora do idioma do instrumento, completamente a serviço da canção.

Em língua ioruba a palavra metá significa três, sendo assim metá-metá pode ser traduzido em um sentido mais próximo à tradição africana como três ao mesmo tempo, ou seja, a síntese de três elementos em um, informa próprio grupo. O terceiro elemento incorporado ao som é aquele que, à falta de nome melhor, tem sido chamado de timbre, mas que na verdade é a visão deste como condutor, a possibilidade de um mesmo desenho de violão se repetir na condução inteira da canção, sem que ela fique pobre por isso, como em Obá Iná. Ou de reverberar o choro tradicional paulista emulado por Caetano em Sampa e ao mesmo tempo o canto-fala da Lira Paulistana em Trovoa. Ou injetar uma boa dose de delicadeza no lirismo de Vale do Jucá, mas também de estranhamento, ao repetir o mesmo dedilhado no violão preparado e a mesma linha da flauta de forma hipnótica, para a voz de Juçara quase flutuar sobre esta base.

Em todo o álbum, o diálogo implícito na cultura afrobrasileira ocorre, como em Umbigada, quase didática como um manual de semba. À parte participações especiais, apenas na segunda metade as canções passam a ter acompanhamento percussivo explícito, e de certa forma, quando surge, a percussão dá peso adicional ao arranjo, mas pode ser pensada como estando no limite do redundante, diante do vigor percussivo do violão do Kiko.

Metá-metá, com Padê, são aberturas de caminho, são possibilidades, explorações. São demostrações de que a pluralidade de caminhos da música brasileira é algo a ser valorizado, que vertentes diversas são passíveis de diálogo, de acrescentamentos, de análises combinatórias. Que a sofisticação da da cultura popular e a força da cultura erudita, e vice-versa, podem ser conciliadas no projeto de país que a MPB representou e representa, mas não de forma monolítica, pois o contraste interno entre estes elementos numa canção também são de uma potência e uma beleza explosivas. Que a fusão sensacional da bossa-nova encontra correspondente na fusão sensacional do rock, e que estas fusões também são fundíveis entre si em diferentes combinações. E que a sentença já meio batida de que a soma de elementos é maior que os elementos em si, quando se quer encontrar algo, continua valendo, para pessoas, culturas e sons.

Trovoa – do Maurício Pereira

Vale do Jucá – do Siba

Obá Iná – do Douglas Germano

Serviço, então:
My Space – Kiko Dinucci;
My Space – Juçara Marçal
Para baixar Padê; e
Para baixar Metá-metá (há um aplicativo para baixar o álbum com vídeos e ficha técnica, mas pessoalmente não consegui. Mas dá pra baixar só o MP3 também).

P.S. Depois de escrito e publicado o artigo, descobri no perfil do Kiko Dinucci no Facebook que o Metá-metá está com um segundo álbum pronto, chamado… Metal Metal! O trocadilho infame e ótimo (pois trocadilho é melhor quanto mais infame) aprofunda o caminho tomado no primeiro álbum. Aguardamos por aqui.

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