Luas, luas, luas, luas

A autorreferência, ou seja, citar a própria obra, é uma das maneiras mais óbvias de se tentar dar coesão interna a esta obra – quando não é uma demonstração inequívoca de narcisismo. Porém, se toda obra de arte é por natureza referencial, parece também natural que um autor refira-se a si mesmo não apenas como uma consolidação do próprio pensamento ou expressão de suas obsessões – o que é comum – mas também como uma maneira de levar adiante pensamentos diversos, porém traçando entre eles uma relação que é principalmente estética, estilística, mas que acaba se desdobrando também em significados, num processo que se retroalimenta.

Lua, lua, lua, lua é uma das faixas do álbum Jóia, de Caetano Veloso, lançado em 1975. Ele é acompanhado apenas pelo órgão de Antônio Adolfo e pela percussão não creditada, mas provavelmente de Perinho Albuquerque. Tem uma estrutura harmônica absolutamente singela: tônica, tônica diminuta (como um substituto da dominante do segundo grau), segundo grau, dominante (o famoso II/V), que volta para a tônica. A frase título, com sua melodia descendente por degraus ascendentes, movimenta-se da tônica para a diminuta, na primeira parte da cadência. E nesta frase se encontra o ponto de partida para a volta que a lua vai dar em algumas canções de Caetano.

Giulietta Masina

No álbum de 1987, Caetano canta uma ode à esposa e musa de Fellini. Nela aparece a primeira citação do verso descendente em degraus. Mas agora cumpre perceber um contexto harmônico diverso: Lua, lua, lua, lua agora surge exatamente no passo segunte da cadência da canção original, na passagem de segundo grau para dominante, o II/V. Como se a lua prosseguisse seu caminho no céu. Porém, há uma diferença: Giulieta Masina é uma canção em tom menor no modo dórico, e o II/V, em vez de ser uma passagem harmônica, agora é a sua sustentação básica. Esta canção tem uma harmonia em suspenso, como que sempre a caminho de se resolver na tônica, e sempre voltando ao aparente segundo grau, que é efetivamente o tom. Esta harmonia em suspenso ao mesmo tempo faz a lua flutuar no ar e evita a conclusão.

Mas esta não é a única citação de Giuliella Masina. Há outras duas: uma incidental, da melodia de Leãozinho na guitarra, já quase no fade out. E outra, que nos interessa mais: sobre a mesma harmonia deslizante do II/V, Caetano entoa um outro verso, de outra canção: existirmos, a que será que se destina?

Cajuína (os primeiros segundos do vídeo são do encerramento de outra canção, O ciúme, postos por engano)

A história de Cajuína, do álbum de 1979 de Caetano, Cinema Transcedental, é conhecida: foi feita para Dr. Heli, o pai do poeta piauiense Torquato Neto, depois do suicídio de Torquato (a história, contada pelo próprio Caetano, está aqui). Em Cajuína (como em Lua, lua…), o verso em questão abre a canção, como uma porta que se abre para que a história seja contada implicitamente, assim como o suicídio de Torquato paira sobre a pergunta. Esta idéia de abertura se traduz harmonicamente no tom menor que inicia uma cadência simples e muito próxima à de Lua, lua, lua, lua: da tônica para o quarto grau (em Lua, lua o quarto grau é substituído pelo acorde relativo menor, com a mesma função), deste para a dominante, e de volta à tônica, numa cadência inicial que se estenderá logo adiante.

Porém, ao ser citada em Giulietta Masina, a pergunta de Caetano, de introdutória, torna-se retórica, numa harmonia que, em termos tonais, não sai do lugar, e soa como posta entre parêntesis – e isso apesar da manutenção tanto da melodia quanto dos acordes que a acompanham, pois o que muda é a sua função. E com esta mudança, a inquirição dura e inconformada de Cajuína prescinde de resposta em Giulietta Masina, como que refletindo a reflexão suscitada no filme – vídeo de uma outra luz.

Em Cajuína, e Giulietta Masina, Caetano é acompanhado por formações instrumentais de grupo (na primeira, pela Outra Banda da Terra: Tomás Improta – teclados; Vinícius Cantuária – bateria; Arnaldo Brandão – baixo; e Bolão – percussões, e mais Dominguinhos e o próprio Caetano ao violão DiGiorgio), num suave contraste com os dois instrumentos de Lua, lua, lua, lua. Em 1991, no álbum Circuladô, ele voltou à formação de duo para mais uma etapa da órbita lunar.

Lindeza

Com Caetano ao violão e Ryuichi Sakamoto nos teclados, Lindeza é como um corolário de Lua, lua, lua, lua, em sua postura contemplativa. Porém, não há exatamente um sentido de conclusão, nem uma relação direta entre as duas canções. Ainda assim, há um sentido na terceira citação do mesmo verso. A primeira coisa a aventar seria que este agora estivesse na conclusão da cadência, que fosse cantado com a harmonia indo da dominante à tônica, terminando a trajetória iniciada em Lua, lua, lua, lua e continuada, sob outro contexto tonal, em Giulieta Masina. Entretanto, não é isto que acontece. Aqui o verso se encontra exatamente no espaço harmônico entre uma e outra: se na primeira canção ele ia da tônica à diminuta e na seguinte ia do segundo grau ao quinto, agora ele faz a passagem da diminuta para o segundo grau que executará o II/V, mas que é por sua vez adiado por outro II/V um tom acima, em empréstimo modal – um adiamento da definição, como uma órbita secundária a desembocar na principal. O desenvolvimento de sentidos do verso não se dá pela sua óbvia conclusão, mas pela descoberta de mais uma possibilidade de alocação harmônica. O que em Lua, lua, lua, lua era o lançamento de um mote a ser glosado e em Giulieta Masina era um comentário lateral adjetivo à personagem/tema/título, em Lindeza é exemplo definitório do tema/título, que por sua vez atribui retroativamente adjetivos às outras duas canções: o tema lindeza refrere-se ao tema lua e ao tema Giulietta. E por tabela a pergunta existencial de Cajuína, citada ao lado do verso Lua, lua…, ressoa também aqui, como um eco distante, já sem a dramaticidade de Cajuína, mas como parte da contemplação.

Mas há um outra leitura em que o verso tema deste artigo aparece com a forma de uma conclusão. Apenas esta não se dá na questão harmônica, mas na estrutural. Pois se em Lua, Lua, lua, lua, o verso é o inicial, em Giulietta Masina ele surge ainda na primeira estrofe, mas já em seu desenvolvimento, antes da parte B. E em Lindeza, ele é cantado na repetição da parte A, depois da B – diferença sutil, mas que já é a preparação para o fim da canção. Assim, ele se apresenta conclusivo, sem que sua harmonia o seja e sem mudar uma nota sequer, apenas por seu posicionamento na composição.

Todo este artigo baseado em sutilezas harmônicas pode parecer árido para não músicos. Paciência. Aquilo que se ouve sem se ouvir, que o sentido dá sentido sem passar pela impressão consciente, pode ter diversos caminhos de racionalização. Mas não há nada melhor do que ouvir o que se racionaliza, para poder sentir junto, e para isso os vídeos. Falta apenas falar de um detalhe: o acorde final de Lindeza, em que Sakamoto explora o extremamente grave e o extremamente agudo do piano, numa lancinância de acorde aproximadamente na dominante – ou seja, sem resolução – e que vai aos píncaros, como uma estrela cintilando, dolorosamente belo. Caetano usa os silêncios para falar de beleza e lua, desde o estanca da primeira canção, acompanhado por uma pausa no instrumental, até o ressoar deste último acorde, útimo som do álbum Circuladô, cintilando mesmo depois de o som desaparecer, internamente, na harmonia das esferas.

A trajetória do verso lua, lua, lua, lua certamente não é pensada e planejada, mas foi surgindo ao acaso das composições de Caetano, que tem com a lua uma questão (dedicou a ela outras canções, como Lua de São Jorge). Estas canções emaranhadas entre si não formam em si mesmas uma unidade, nem havia a intenção disso. Mas elas servem de sustentação, como uma coluna feita por colunas menores que se apoiam umas nas outras, de modo a dar à obra de Caetano uma parte de sua consistência e altitude. A citação a si mesmo, mais ainda que a alheia, precisa ser ressignificação, acrescentamento. Caetano é mestre nisso. Cada lua que ele canta é uma nova lua. Ou cheia.

E feliz 2013 para todos, são os votos do blog.

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4 comentários em “Luas, luas, luas, luas

  1. Leandro disse:

    Coisa linda é esse artigo!

  2. Assis Furriel disse:

    Olá Túlio,

    falar de Caetano é sempre um mundo! “Lua, lua, lua, lua” é um exemplo disso. Parabéns pelo artigo! Abraço e feliz ano novo pra ti!

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