Ascenção e queda da rainha da seresta

Uma vez um amigo, ótimo violonista e MPBista de carteirinha, ao ser convidado para uma seresta, respondeu: Temo não ser esta minha intenção. O trocadilho infame como todos os bons trocadilhos diz um bocado sobre o preconceito da música brasileira pós-Bossa Nova com um gênero que chegou a ser um dos principais da produção nacional.

A tradição da serenata forma-se quase ao mesmo tempo que as cidades medievais, e o próprio instrumento violão vai se aperfeiçoando juntamente com ela, desde a vihuela e o alaúde. Alimentado no Brasil pela modinha, o gênero desembocou no samba-canção (chegando às raias do bolero mais tarde), até ser desbancado pela Bossa. Urbana, mas de uma época de pouca velocidade, de charretes e caleças e não automóveis a 100 por hora, a seresta tornou-se quase sinônimo de saudosismo, mas é um gênero que foi trilha sonora desta urbanização ao ser continuadora da tradição citadina européia.

Chão de estrelas, representante mestra do gênero, foi lançada em 1937, mas acabou fazendo um sucesso estrondoso na década de 50, ao ser regravada pelo mesmo Sílvio Caldas. Composta em 1935, tinha o pomposo título de Foste a sonoridade que acabou (mudou de nome por sugestão do poeta Guilherme de Almeida). Caldas musicou um poema de Orestes Barbosa, todo em decassílabos (aproximação com uma tradição poética lírica com raízes profundas, desde as canticas de amigo que alimentaram as serestas medievais).

Com Silvio Caldas

Sua melodia merece especial atenção. Praticamente todos os versos da canção se iniciam com uma linha melódica reta, que vai sofrer variações nas últimas notas. Luiz Tatit aponta que a melodia reta pode ser enganosamente considerada a mais próxima da falada. Na verdade, a voz falada se aproxima bem mais de uma linha de duas notas alternadas, dó ré dó ré, por exemplo, com suas variações naturais de inflexão. A melodia reta, ao contrário, embora não deixe de estar próxima da fala em sua simplicidade, carrega dentro de si uma tensão resultante como que da “vontade” da voz de cair nas variações da fala, mas impedida, e esta tensão é carregada para a interpretação. Em Chão de estrelas, como compensação, há a coloquialidade da divisão rítmica tremendamente livre, quase um ad libtum – escrever a divisão desta canção a partir de sua interpretação, seja por que intérprete for, é tarefa hercúlea. Esta combinação dá à canção o caráter de um desabafo, permitindo ao mesmo tempo uma certa contenção melódica e o esparramar lírico rítmico.

Outro ponto importante é a estrutura AABB, sem repetição, que a caracteriza. As duas primeiras estrofes são cantadas no patamar da quinta do acorde do tom, tessitura intermediária que ganha o caráter de um lamento nostálgico. Porém, nas duas estrofes seguintes, a melodia sobe de patamar, passando a se iniciar na terça da tonalidade, mas uma oitava acima, e ainda ganha um ápice agudo nos versos pareciam estraaaaanho festival e salpicava de estreeeeelas nosso chão. A tensão melódica represada na linha reta então explode, o lírico se torna dramático e o lamento pode chegar ao pranto. Diante do final peremptório, da enunciação da ventura desta vida, torna-se impossível um retorno, e quase se exige uma finalização diversa para a última estrofe (muitos intérpretes realmente mudam a melodia. A gravação de Sílvio Caldas contenta-se com uma elegante troca de acorde). O último verso, mais que tratar da mulher amada, tem o matiz de verdade filosófica, definitiva.

Chão de estrelas, como disse, após a Bossa Nova parecia coisa do passado. Mas aí os Mutantes chegaram, e com eles o circo.

A gravação dos Mutantes para Chão de estrelas, de 1970, seria de deixar qualquer um atônito, se as gargalhadas não se sobrepusessem ao espanto. Tudo que era metáfora na letra original é levado ao pé da letra, e fazendo isso Rita, Arnaldo e Sérgio efetivamente transformam a canção num circo, aproveitando desde logo a deixa da primeira estrofe, eivada de metáforas circences. Cada estrofe de Chão de Estrelas tem uma aclimatação particular: circo na primeira, viveiro na segunda, festividade na terceira, céu na quarta, metáforas sempre realizadas por várias palavras referentes a estes universos, e sempre tratadas num sentido trágico (aqui, uma análise acadêmica da letra). Os Mutantes, a cada nova metáfora, trazem o correspondente som ambiente ao arranjo, literalizando tudo e destruindo metodicamente cada recurso poético original. Depois, a anarquia iconoclasta toma conta, colocando o romantismo exacerbado cara a cara com uma realidade que não tem nada de romântica (a Ave Maria no Morro também idealizava a favela). Aqui, os furos no zinco pelo qual passam os raios de luar foram causados por balas perdidas.

Mas a gozação não se limita à letra: ela vem desde o início arrastadiço e pode até passar despercebida aos desavisados, por ter ainda a aparência da seresta, que depois será substituída por um andamento quase de fox-trote. O começo da canção, na voz derramada de Arnaldo Baptista que vai se estender até o final, já é uma condenação absoluta da seresta em si. Toda a espinafração seguinte não passa da explicitação desta sentença que já era implícita desde a primeira nota da introdução. Delenda seresta: ao contrário de gravações feitas pelos tropicalistas como a de Coração Materno, de Vicente Celestino, por Caetano Veloso, não há carinho na dos Mutantes. Ao final, com a troca dos versos finais por baboseiras já abertamente debilóides, sobra apenas terra arrasada.

A gravação dos Mutantes é tão forte, tão impressiva, que torna praticamente impossível a interpretação de Chão de Estrelas depois, pois qualquer alusão ao tradicionalismo seresteiro que impregna a canção imediatamente remeteria à esculhambação mutante e provocaria risos em vez de efusões lacrimejantes. Caetano faz na canção Livros uma citação algo enviezada do verso que Manuel Bandeira uma vez considerou o mais belo da língua portuguesa, e que de tu pisavas nos astros distraída torna-se tropeçavas nos astros desastrada. Mas mesmo esta citação, que não deixa de ter o seu carinho, acaba impregnada pela sonoplastia incidental dos Mutantes, de coisas sendo pisadas e destruídas, e pelo tom de hilaridade impingido por eles. A única saída para possibilitar uma reinterpretação de Chão de Estrelas seria retirar dela, tanto quanto possível, a dramaticidade original, para permitir a visão lírica que a motivou originalmente. Despir a canção o mais possível, retirar dela aquilo que a consagrara: a seresta.

Com Zé Renato – de 1992

É isto que Zé Renato se dispõe a fazer, para o bem e para o mal. Descarta a formação clássica seresteira (mas a guitarra de Vitor Biglione é ela própria herdeira do violão e da vihuela); voz sem vibrato e com o mínimo de exaltação nos agudos, alcançados sem grande tensão pelo falsete característico. Assim, consegue não lembrar o que os Mutantes fizeram, e (não gosto da expressão, mas aqui é válida) a resgata da desmoralização. Tirando dela tudo que era característico, porém assessório, Zé consegue nos fazer lembrar a linda canção que nunca deixou de ser.

Com Maria Bethânia – de 1996

Quatro anos depois, Bethânia vai mais longe. Sua conhecida familiaridade com a poesia permite que ela retome a dramaticidade deixada de lado por Zé Renato. Mas o caminho que escolhe é outro. Mais que cantar a tragédia do abandono do eu lírico pela pomba rôla que voou, Bethânia transforma a própria canção neste eu lírico. Bethânia canta o abandono de Chão de estrelas, por anos a fio, sua humilhação, o vexame a que foi submetida e o esquecimento posterior, para então abraçá-la carinhosamente num quente e envolvente arranjo de cordas. O tratamento de Bethânia permite inclusive a repetição da segunda parte, pois importa menos a história descrita na letra em si, e sim o fruir das imagens desta letra, menos a tentativa de conciliação da urbanização carioca com a atmosfera romantizada rural (importantíssima quando de sua composição, pelo momento histórico) e mais a reconciliação com as obras resultantes destas tentativas, frustradas ao serem confrontadas com a velocidade e violência crescente das cidades, com a realidade, enfim (como os Mutantes explicitaram), mas vitoriosas nas canções que as levaram avante. O canto de Bethânia, tributário da seresta mas também da Bossa Nova, nos traz de volta Chão de estrelas como um filho pródigo, que talvez não seja mais possível hoje, mas que faz parte da nossa história. E reabilita a seresta, se não mais como um gênero ativo, como uma inesquecível lembrança.

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2 comentários em “Ascenção e queda da rainha da seresta

  1. Assis Furriel disse:

    Caro Túlio,

    mais uma vez estamos por aqui aproveitando seu texto tão enriquecedor. Como em outras oportunidades nossos textos se aproximam por razão de interesse. Curiosamente, escrevi sobre essa música, quando tratei do disco do Zé, “Arranha-Céu”. Se quiser, passe lá para conferir. Parabéns para uma vez pelo belo artigo.
    Abração do Chico!

    http://blogdochicofurriel.blogspot.com.br/2012/03/arranha-ceu-ze-renato-interpreta-sylvio.html

    • Fala, Chico, não sabia do seu artigo, já até passei lá agora. Este álbum do Zé Renato é de uma tremenda elegância, gosto muito. Obrigado pela assiduidade por aqui, que motiva a minha própria… Abração.

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