Sobre o Porto Musical 2013 – Parte 1

O blog passou pela cidade do Recife entre os dias 30 de janeiro e 1º de fevereiro, no Porto Musical 2013, a principal convenção de música e tecnologia do país. Gente da Argentina, Uruguai, Cabo Verde, África do Sul, França, Alemanha, Austrália, Hungria, Dinamarca, o diabo a quatro, e mais de tudo quanto é parte do Brasil. Infelizmente, não pude ficar no terceiro e último dia do encontro. Ainda assim, tive a chance de assistir e participar de vários debates sobre a situação atual e os caminhos possíveis para o mercado de música brasileiro, e diversos shows de gente que não conhecia e que de que falarei no próximo post. Neste primeiro, quero registrar, de forma meio anárquica, aquilo que foi sendo apontado e fui anotando nos debates e conferências como mais relevante e conclusivo, o que me foi ficando como fundamental.

– A questão do patrocínio: dinheiro público X dinheiro privado; dinheiro de patrocínio X ingerência de patrocinadores: como manter a independência nesta corda bamba? Como impedir a pressão por nomes que atraem público mas estão fora da linha do festival? Uma cervejaria que patrocina um festival pensa na quantidade de cerveja vendida; um governo ou político no governo pode pensar em termos de retorno. Um governo que contrata a Ivete Sangalo para um show pode ser massacrado por críticas, especialmente se pagar uma fortuna; em compensação, um secretário da cultura como Chico Cesar, atualmente no governo da Paraíba, que se recusa terminantemente a patrocinar eventos em que esteja presente o forró de plástico (leiam-se as bandas de forró à base de teclados, que fogem à forma tradicional do gênero e tem em geral trabalhos bastante rasos e de prioridade comercial) periga cair no extremo oposto; como apontou um conferencista em conversa comigo, uma parte da população que paga impostos gosta destes artistas e também tem direito de opinar. Então, tanto um como outro pode se tornar desrespeitoso ao eleitor. É preciso encontrar estratégias para conseguir introduzir trabalhos de qualidade e pouco conhecidos nas programações.

– Sobre esta dificuldade, foi assinalado que 95% do público hoje quer assistir shows com músicas que saiba cantar. O esforço de apresentar músicos e bandas novos é difícil. Mesmo em festivais consagrados, pouco da afluência de público se dá pela confiança em uma programação nova e de qualidade, ou seja, poucos vão para serem surpreendidos pela curadoria, a maioria vai porque uma banda o interessa, e pode eventualmente acabar gostando de outra programada para o mesmo dia. Esta reação conservadora se soma à atitude de muitos artista iniciantes que, ao serem convidados para um festival, pensam que esta é a hora de ganhar dinheiro, quando na verdade é a hora de angariar uma visibilidade maior e conseguir contatos, mesmo que sem receber tão bem.

– Hoje, não há infraestrutura apropriada para a introdução da música brasileira na Europa, embora o Brasil esteja já há alguns anos na moda por lá. As iniciativas são pessoais e pontuais, e, graças à crise, as subvenções governamentais, tanto de lá quanto de cá, tendem a decair fortemente. Para a música brasileira se estabelecer na Europa, é fundamental a criação de uma plataforma de lançamento, uma ponta de lança como uma rádio ou um festival de música brasileira. Para os músicos, é fundamental ter álbum, independente ou não, mas editado, até porque muitas rádios européias só tocam música com registro, numeração industrial etc., por causa da questão do pagamento de direitos. É preciso, mais que tudo, uma ação coordenada para informar e sensibilizar o público europeu para a música produzida atualmente no país e um investimento continuado, como Caetano e Gil fizeram em shows anuais por lá durante anos, até terem efetivamente um público lá que não é apenas de brasileiros residentes.

– Ainda sobre carreira na Europa, o público europeu não quer simplesmente música ao assistir um músico brasileiro: ele quer o Brasil. Quer uma experiência – isso não significa estereótipos, mas sim ter consciência do que um músico brasileiro representa no exterior. O Brasil é uma marca forte, mas mal aproveitada.

– O mercado digital de música mais que dobrou em 2012. Entre 2007 e 2015, o mercado físico terá se reduzido a 2/3 do que era, o de shows e o digital quase dobrado, tendo estes dois somados superado o primeiro. O Brasil é o 5º lugar mundial em downloads pagos, e seu mercado cresceu 78% em 2012, com a chegada do iTunes. O músico tem a obrigação de enxergar, para além de tocar, as possibilidades de comercialização ligadas à sua música: além de camisetas, bottons etc., a própria música em distribuição digital (streaming, rádios online), uso em TV, comerciais, games, sincronização no YouTube ou Vimeo (recebimento de direitos por uso da música por terceiros nestes sites), além do uso de serviços de análise de acesso em redes sociais (quantos e quem são seus fãs em cada rede, por exemplo).

– O mercado internacional de música até 10, 15 anos atrás, funcionava via gravadoras multinacionais e sua filiais. Um artista Sony Brasil ia à Sony Argentina, e sendo grandes empresas, havia dinheiro para investir durante anos em uma carreira internacional. Hoje, as gravadoras perderam força (e só investem em artistas cuja carreira pode ser manipulada à vontade, acrescento eu), o mercado se estilhaçou, há possibilidade de comunicação direta entre o artista e seu público, mas ao mesmo tempo uma multiplicidade de oferta que dificulta muito esta comunicação. O desafio é encontrar os novos meios.

– Um país deve ter vergonha de exportar sua cultura, de parecer imperialista por isso? Houve quem defendesse que não, que, ao contrário, isto é obrigação de todo país. O que não significa se fechar a outras culturas. Há que se estabelecer a troca, e para isso é preciso uma movimentação ativa. O público brasileiro tem uma rejeição à música latino americana e até mesmo à africana, e há razões históricas (diferentes para cada lado: na primeira um isolacionismo que serviu ao colonizador, na segunda uma reação a séculos de ligação escravocrata) que precisam ser enfrentadas.

– Ainda sobre festivais: uma estratégia eficiente para viabilizar a vinda de artistas estrangeiros ao Brasil consiste em traçar uma rota de festivais próximos em data e estabelecer uma logística e um calendário que permita a este artista comparecer a três ou quatro festivais em um período de dez a quinze dias, conseguindo com isto dividir as despesas e levar o artista a um público maior. Para isto, urge mapear e estabelecer um calendário nacional de festivais, iniciativa que está em andamento, inclusive com a criação de associações de festivais (que no entanto segue meio acidentada, com rachas e ligas paralelas). Por outro lado, para o estabelecimento e o reconhecimento de um festival, é imprescindível que este saiba encontrar a sua linha, suas proridades de repertório e seu público. Outra possibilidade interessante consiste em uma banda brasileira convidar uma estrangeira para participar de seus shows no Brasil e vice-versa, apresentando cada uma a outra a seus públicos.

– Uma possibilidade promissora apontada é o crowdfunding, em que o público patrocina o evento antecipadamente, algo a ser desenvolvido a partir de alguns sucessos como o movimento Queremos!, no Rio de Janeiro. Ele consiste na venda de cotas do evento a serem recompensadas (não só) com ingressos. Se uma quantia mínima for alcançada, o evento acontece e os primeiros a se arriscar são recompensados. Se não é alcançada, o dinheiro é devolvido a todos. Recentemente, empresas também passaram a poder comprar cotas, e assim pequenas empresas que não tem como patrocinar eventos passaram a ter como associar seus nomes a eles. O outro lado é a cultura do evento gratuito, da lista amiga, que são contrariados pela premissa de pagar o evento com antecedência. Além disso, apontou-se a tendência de eventos financiados e gratuitos enfraquecerem as casas noturnas, com uma espécie de concorrência desleal. Algo a ser enfrentado pelos produtores, sem que um anule o outro.

– É absolutamente necessário que seja estabelecida uma nova visão de negócio para a música brasileira por parte de seus músicos. O representante de uma empresa de games musicais brasileiros contou que músicos estrangeiros já ligaram para ele, sem o conhecerem, pedindo para que suas músicas fossem incluídas em jogos da empresa – no que foram atendidos e ganharam dinheiro com isso, enquanto músicos brasileiros olham este tipo de possibilidade com desconfiança. Foi citado o exemplo da Rio Content Market, feira do mercado de audiovisual que existe há apenas dois anos e já tem resultados expressivos, e a necessidade de o mercado de música se organizar neste modelo.

– Finalmente, sobre a resistência de alguns às novidades tecnológicas (tanto para produção/escuta de música quanto para divulgação/venda), a premissa simples é: tecnologia realmente muda a música, mas tudo é tecnologia. Recuando no tempo, autotune, MP3, sintetizadores, videoclipes, guitarra elétrica, tecnologia de gravação, rádio, sistema temperado de afinação, flauta de osso – cada um destes correspondeu a uma nova tecnologia que gerou resistências enormes, mas afinal se impôs, e não poderia ser de outro modo. É absolutamente necessário saber usar estas possibilidades a seu favor, e isto significa usá-las de forma criativa e inovadora, em vez de copiar o que já se fez. Mais do que colocar o seu conteúdo no sistema que já existe, criar novos sistemas é o que pode fazer a diferença. Quem domina a tecnologia domina a cultura. E se fôssemos nós?

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