Zé Manoel, brasileiro, pernambucano e brasileiro

PrestençãoZé Manoel não é um músico pernambucano. Nascido em Petrolina, mora no estado de Pernambuco até hoje. Mas não é um músico pernambucano, sustento. Porque sua música não é a que se poderia esperar – especialmente em se tratando de um turista carioca como eu, que assisti uma apresentação sua em Recife. Não vai preconceito aqui, eu não esperava nenhuma apresentação folclórica, e não duvido da capacidade cosmopolita de Recife. Mas…

OK, talvez vá sim um pouco de preconceito. Escusado pelo fato de sempre se esperar que a cultura local, a ambiência impregne de algum modo aquilo que o turista vai ver. E no caso particular de Pernambuco, de música riquíssima e bem conhecida no Rio de Janeiro, mais difícil ainda não ter esta expectativa. Mas, neste sentido, e não apenas neste, a música do Zé Manoel foi mais de uma surpresa, e isto porque, em vez de lidar com esta cultura natal no caminho de ida, ele a põe em sua música no caminho de volta.

Explico. A música brasileira, digamos, mainstream – a dita maldita bendita linha evolutiva da MPB bossa-nova/tropicália etc. vem em ondas, como o mar, incorporando sucessivamente as manifestações de territórios diversos ao longo das décadas, e isto sempre com a ida destas manifestações e sua aceitação no eixo Rio/São Paulo. Grosso modo, Pernambuco teve ao menos três ondas ao longo da história da música brasileira se incorporando a este mainstream: a pré-onda Luiz Gonzaga (quase um maremoto, convenhamos), a onda chamada Nordeste 70 de Alceu, Ramalhos e companheiros, e a onda mais recente, mas não menos relevante, do Mangue Beat.

Só que, ao mesmo tempo que estas ondas chegavam ao Rio, a onda inversa, radiofônica, batia nos recifes de Boa Viagem. Porque a MPB igualmente ouvia e reprocessava segundo seus cânones a música que chegava não apenas de Pernambuco, seguindo a cartilha villalobiana, guerrapeixeana, e mais ainda mariodeandradeana do uso do regional na construção do nacional. O resultado foi parar na produção de Edu Lobo, Ivan Lins, Baden Powell, Francis Hime, e voltou, onda agora hertziana distribuída para todos os lados. É esta a música de Zé Manoel: a música da onda que volta. E por isso eu, preconceituosamente, admito, fiquei tão surpreso. Porque o Zé Manoel não se limita a seguir esta cartilha, mas dá também seus próprios passos a partir dela. E por que não deveria ser assim?

E aí vem a outra surpresa, na verdade uma série, uma a cada canção. Porque em cada uma Zé Manoel deixa soar uma vertente desta música que recebeu a influência de sua terra e a influenciou de volta, quase sempre situada em volta dos anos 1970. Como eu disse no Facebook ao assistir o show: a multiplicidade de referências e o conhecimento que transbordam das canções fazem do trabalho dele um jogo divertidíssimo, já que a música se aproxima de um determinado estilo, flerta com ele e logo toma outro caminho. Em uma, o piano de Francis ecoa; em outra uma cadência harmônica típica das canções de Antônio Adolfo; em outra Ivan Lins, em outra, o Toquinho da parceria com Vinícius… E isso sem sombra de emulação, mas com a maior naturalidade. As semelhanças surgem espontaneamente em passagens e dão lugar a outras, sem que isso despersonalize o que se ouve – não parecem canções de outros, parecem dele, Zé Manoel, que os ouviu, e soube ouvir (e isso vale também para canções de outros autores gravadas por ele. A escuta e a escolha de repertório são, em algum nível, também autoria).

Comparação estranha mas eficaz: o álbum de estréia do Zé Manoel é como um milkshake mal batido. Em determinados momentos o sabor de algum ingrediente aflora, em outros o que se saboreia é a mistura, a combinação deles, que tem uma resultante diversa, superior à soma dos ingredientes, como uma receita que se preza tem de ser. Se a harmonia de Deixar Partir em certo momento parece a de algum samba de Toquinho e Vinícius que teima em não se identificar, ou se a introdução de Samba tem lembra por instantes a de Madalena, de Ivan Lins e Ronaldo Monteiro de Souza. Mas sabe também, respeitando as características idiomáticas de cada estilo, construir estruturas sólidas de harmonia/melodia, como na Valsa da Ilusão, e sabe também o jeito de usar um minirefrão pegajoso e contagiante como assim como nasce o dia em Sol das lavadeiras.

Ainda assim, depois de tudo, ficou um desconforto. Afinal, não se foge do lugar onde se nasceu. Ao fugir, aí é que ele é levado longe dentro de si. Uma música deslocalizada, que fosse simplesmente a continuação dos nomes que fizeram a releitura da cultura brasileira nos anos 1970, por mais que fosse meritória, seria também uma negação. Duas gravações de Zé Manoel, uma delas mesmo sem estar no álbum, ajudam a resolver esta questão e, de certa forma, se irradiam sobre as demais, esclarecendo-as e fazendo de forma mais direta e mais firme a ligação entre a leitura, digamos, primeva, local, com a secundária, escutada e reaplicada em seu trabalho. São dois encontros que se dão de formas muito diversas, mas complementares (as gravações não estão em condições ideais, mas valem a escuta).

Sabiá, de Luiz Gonzaga e Zé Dantas

Sabiá é um dos tantos e tantos hinos de Gonzagão, carregada de uma carga simbólica enorme, que chega a contrastar com seu lirismo delicado. Não por acaso, foi escolhida para abrir o show/álbum da reunião de quatro nomes da geração Nordeste 70, chamado O Grande Encontro (Alceu, Elba e Zé Ramalho e Geraldo Azevedo), como um pedido de bênção. Pois Zé Manoel, iconoclasticamente, a vira do avesso transformando-a num bolero em inglês. Zé avisa: sua música não vai na obviedade do típico. Seu pedido de bênção é daqueles que riem do avô catacego, mas ainda assim querido. Zé distancia a referência direta não a negando, mas a ressituando para se permitir a liberdade de viajar para outros lugares, outros ritmos, até mesmo outras línguas. Mas o ponto de partida permanece lá, distante mas presente.

Fantasia de um alecrim dourado, de Zé Manoel, sobre tema folclórico

A construção de uma canção a partir de um tema conhecido como Alecrim é, por si só, carregada de significado. Com ela Zé Manoel consegue ao mesmo tempo estar dentro do raciocínio edulobiano etc. de que falei, da releitura do folclore, e da referência direta à cultura popular. Isto acontece por causa da maneira como ele constrói a canção: o tema melódico é respeitado quase que integralmente, apenas rearmonizado, e mesmo a segunda parte, composta por ele, parte da frase melódica inicial para se estruturar. Assim como a letra segue não apenas o clima campestre do original, mas segue a letra no verso Foi meu amor e na terminação em alecrim – quando boa parte da platéia finalmente reconhece o que está ouvindo. O que Zé Manoel faz é, tanto quanto em Sabiá, uma ressitualização: o campo de Alecrim é outro, mas se reconhece na memória, assim como o Sabiá voa longe, em outras terras, mas traz notícia da amada, ainda que em esperança.

A música do Zé Manoel não é revolucionária, nem mesmo reformista, longe disso. Ela é continuação de tradições, passo adiante nestas tradições. A música do Zé tem muita gente atrás de si. Ainda tem amadurecimento pela frente, talvez em trabalhos futuros o milkshake se torne mais homogêneo, ou talvez inclua novos ingredientes. Talvez sua música perca um pouco da ingenuidade que transparece nela hoje. Mas hoje ela já tem elementos mais que suficientes de interesse, ela já aponta direções novas, e já sabe usar sabiamente o lastro que carrega para tornar-se leve. Um mal-humorado, numa escuta apressada, poderia dizer que como Zé Manoel há muitos. Eu só poderia responder: Deus te ouça.

Valsa da Ilusão, de Zé Manoel

Sol das lavadeiras, de Zé Manoel e Mavi Pugliesi – com o Grupo Bongar

Serviço:
Site pessoal do Zé Manoel, aqui

Zé Manoel no Soundcloud:

P.S. Com este artigo, finalmente encerro meu inventário pessoal do Porto Musical 2013.

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2 comentários em “Zé Manoel, brasileiro, pernambucano e brasileiro

  1. Elson disse:

    Cara! Adorei tua apreciação do trabalho de Zé! Há quatro anos, vivo em sua cidade natal e quando o ouvi ao vivo, especialmente nessa versão de “Sabiá”, tive impressões muito parecidas. Fiquei divertidamente chocado! A voz dele é uma coisa excepcional, assisti ao show em que ele foi premiado, na musical e mítica Juazeiro, vizinha baiana de Petrolina, em 2011. O público parecia não acreditar… Eu não conhecia esse teu espaço aqui, li os textos sobre “Bye Bye Brasil”, sobre Kiko Dinucci e Juçara Marçal, cujos trabalhos também acompanho, e gostei extremamente de tudo!

    • Obrigado pelos elogios, Elson, sinta-se à vontade aqui, inclusive para reclamar ou corrigir, que o prazer é todo meu. Eu confesso que minha primeira reação ao ouvir a versão de Sabiá também foi meio “o que é que esse cara está fazendo?!” Fica mais chocante justamente por ele ser de lá de Juazeiro, mas depois me perguntei: “por que não?” No fim, achei uma pena ele não ter gravado. Talvez a iconoclastia desta versão seja exatamente algo a se somar ao lirismo que já tem o trabalho dele, acho que ia crescer muito. Mas como está já é muito bom. Abração e volte sempre.

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