Um dia na vida, uma vez na vida – Parte 1

Como é difícil falar dos Beatles, de quem tudo parece já ter sido dito! Um amigo costumava defender a tese de que todos os estilos do rock e mesmo de fora dele foram de algum modo estabelecidos pelos Beatles, desde o heavy metal com Helter Skelter até a bossa-nova com… não lembro mais que canção ele dizia que era precursora da bossa, mas de qualquer modo era chiste.

Mas se parece que já se falou tudo dos Beatles, por outro lado eles sempre voltam, e que bom que voltam, porque poucos na história da música partiram de tão pouco e foram tão longe. Me peguei outro dia reouvindo um exemplo que particularmente mostra o quão longe se pode ir na formatação de uma obra de arte tremendamente complexa a partir de uma estrutura tão simples quanto uma canção.

A day in the life

Certo, A day in the life não é uma canção qualquer. É a canção de encerramento daquele que é considerado o álbum mais importante de todos os tempos, Sargent Peppers Lonely Hearts Club Band, em que os Beatles levaram seu experimentalismo além do limites imaginados para a época, aproximando-se da música indiana, da música de vanguarda, flertando com a metalinguagem ao pensarem no álbum como sendo gravado por outra banda etc. Mas não deixa de ser surpreendente para mim que, em seu grand finale, eles tenham escolhido falar sobre nada mais que a vida comum. E ao fazê-lo, conseguem tornar esta vida comum absolutamente insuportável, e conseguem também o grand finale dos grand finales. Sgt. Peppers pode até não ser o melhor álbum da história, mas seu final sem dúvida é o mais impactante de todos os tempos.

As histórias de criação de cada canção dos Beatles são cantadas e decantadas. Esta é formada pelo encontro de duas meias canções improváveis, de dois parceiros que já conheciam bem os caminhos um do outro: John Lennon tinha o início e o fim de uma; Paul McCartney, o meio de outra, ambas incompletas e em tons diferentes. Encaixadas uma na outra, fizeram o contraste perfeito entre a irrealidade cotidiana e a inconsciência trágica desta irrealidade.

Porque é disso que trata A day in the life, fundamentalmente. Que se inicia muito despretensiosa, e esta é uma de suas armas – não se desconfia onde ela pode parar. A formação inicial – baixo, piano, guitarra e maracas na percussão – é acrescida da bateria de Ringo Starr na segunda estrofe, e a bateria é um dos elementos principais do arranjo. Praticamente todo o acompanhamento de Ringo consiste em uma série de viradas de bateria que ameaçam explodir, tornando-se furiosos, mas que acabam sempre melancolicamente numa batida de pratos que devolve tudo ao marasmo. Ao fazer isso repetidas vezes, há um acúmulo de tensão, uma expectativa de que em algum momento a canção vire o jogo, que jogue para o alto a frustação do dia-a-dia, da leitura dos jornais. A história cantada por Lennon nas primeira estrofes é exemplar: um homem ganha na loteria, e pouco tempo depois morre atropelado. I can get no satisfaction, cantaria Mick Jagger.

A letra da canção, embora feita de partes separadas de cada parceiro, tem ao menos um recurso de repetição em comum. Na parte de John, por duas vezes a crowd of people, uma multidão atua: primeiro ficando parada, como que hipnotizada pela tragédia do atropelamento; depois, indo embora em bando do filme que o personagem de John permanece assistindo. Em ambos os casos, reações algo automáticas, de manada, como que inconscientes. Já na segunda parte, o personagem de Paul por duas vezes encontra seu caminho (a letra diz, na primeira pessoa, found my way), primeiro descendo as escadas de casa, depois subindo as escadas do ônibus, num movimento de sobre e desce que também é circular (pois fatalmente se repetirá ao contrário no fim do dia) e que, ao contrário do significado literal da expressão, não parece levar a lugar nenhum.

As relações entre as duas partes da letra vão além: o personagem de John vê o mundo através da leitura de jornais, livros e filmes. Ao final, ele é despertado na frase I’d love to turn you on. Um despertador dá a deixa para então o personagem de Paul acordar e imergir em seu cotidiano que, de tão real, parece não ter nenhum significado. E ao entrar no ônibus e sentar, subitamente ele mergulha em um devaneio (I went into a dream), quando o personagem de John então retorna, fica claro que nenhuma das duas situações é mais real ou significativa que a outra, ambas retratam uma vida vazia de sentido.

Mas afora estes sutis jogos de espelhos, que por si já evidenciam o grau de elaboração de A day in the life , há o que a diferencia definitivamente, levando-a a assumir para si o caráter trágico da morte sem sentido narrada na primeira estrofe, e que no entanto absolutamente não afeta o leitor (pois as notícias dos jornais em geral não nos afetam – uma das muitas irrealidades cotidianas desfiladas na canção): as três intervenções de uma orquestra de 40 membros, que foi multiplicada em estúdio, com os difíceis recursos de 1967, até chegar a 160 integrantes. Uma orquestra que não toca durante a canção propriamente dita, o material original de John e Paul, mas apenas faz pontes entre as partes, criando as passagens entre sonho e realidade, mas sem definir qual é qual, ao contrário, como que convertendo um na outra e vice-versa.

A rigor, são apenas duas intervenções orquestrais, pois a que encerra a canção é a mesma que passou da primeira à segunda parte, cortada e colada, como aponta o crítico Alan W. Pollack neste estudo minucioso da gravação (em inglês). No entanto, estas duas/três participações são o que dá aos dois relatos cotidianos uma gigantesca dimensão trágica. O crescendo da orquestra se inicia em tom de sol maior (que o Alan W. Pollack aponta ter muito mais o espírito de um mi menor, pelo aspecto de desânimo expresso) e caminha para mi maior, tom da segunda parte. Mas o faz de forma propositalmente desorganizada, o que provoca um ambiente de caos absoluto, ao mesmo tempo que uma contagem subjacente de 1 a 20 contribui para aumentar gradativamente a tensão, à medida que as notas da orquestra se tornam mais e mais agudas. O impressionante é que este tumulto sempre maior surge a partir exatamente do cotidiano banal narrado por John. Como se a falta de sentido da realidade por um momento ousasse dizer seu nome, o terremoto subterrâneo viesse à tona, as máscaras caíssem revelando o desespero sob as faces calmas.

A massa orquestral subita e inesperadamente torna-se uníssono na nota mi, um despertador toca – havia sido posto por John na gravação apenas para guiar a entrada da voz de Paul na segunda parte, mas foi mantido por se adequar à perfeição. Todo o desespero era irreal, era pesadelo. “Levanto, pulo da cama, passo uma escova na cabeça”. A realidade chama. Mas, ao se acomodar no ônibus, o transe volta, o sonho volta a invadir a realidade. O tema orquestral agora é mais convencional, de notas reconhecíveis, mas que bastam para marcar sua presença e o retorno à primeira parte.

E então, talvez o final mais famoso da história da música popular. Após mais uma estrofe de John, a orquestra volta exatamente igual à primeira vez, mas agora o terror parece maior, como o retorno de um pesadelo recorrente é mais apavorante do que da primeira vez, até mesmo pela perspectiva de que ele ele passe a retornar indefinidamente. Novo chamado de John para que acordemos, nova espiral ascendente desgovernada, e desta vez a nota mi final não é emendada no piano do acompanhamento da segunda parte, que atenuava em parte o choque, amortecia a queda. Desta vez, após o fortíssimo, apenas o silêncio. Um segundo e meio de suspensão como uma eternidade. Como alguém que tomou distância, correu até chegar ao máximo da velocidade, e pulou. Um segundo de paz.

E então, o choque. Três pianos tocados a quatro mãos – John, Paul, Ringo e Mal Evans(Road manager e amigo dos Beatles) fazem um tremendo acorde de mi maior que impacta como um piano caindo do décimo andar, e ressoa por quase um interminável minuto. Mais potente que o som de 160 músicos, pondo fim ao absurdo da morte do vencedor da loteria, à absurda contagem de centenas de buracos na estrada, às notícias de jornais e filmes sem nenhum significado, ao absurdo e eterno vai e vem escada acima / escada abaixo. Talvez a morte, seguramente algo maior do que a vida. Talvez apenas a própria vida, em pessoa, real, afinal.

Depois do próprio fim, dois adendos, que não entraram em todas as edições do álbum. O último deles, uma montagem de sons em looping da recepção que foi oferecida pelos Beatles no dia da gravação da orquestra para amigos. E um apito para cachorros, um som em frequência inaudível por seres humanos, tocado por John. Como que para ter certeza de que alguém ao menos iria despertar.

________________________________________________________________________________

O Sobre a Canção está fazendo três anos de vida. O tempo tem sido mais curto e os artigos mais longos. Por questões pessoais, não tenho conseguido estar aqui tanto quanto gostaria, e com o tempo a gente vai elevando nosso padrão de exigência e só quer publicar algo se realmente tem algo interessante para dizer, e dito como gostaríamos que fosse realmente dito. Não falta assunto, a ponto de este artigo ter acabado dividido em dois. A segunda parte, sobre a canção Once in a lifetime, dos Talking Heads, será o próximo artigo. Só quero reafirmar que o prazer em escrever aqui não diminuiu nem um átomo neste tempo, e que não falta assunto. Obrigado pela presença de todos os que passaram por aqui, e vamos em frente.

E de brinde ao artigo e presente de aniversário, a versão avassaladora de Neil Young para A day in the life, com uma rara compreensão do significado terrível e grandioso desta canção.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s