Um dia na vida, uma vez na vida – Parte 2

Alguns críticos consideram que Once in a lifetime, lançada em 1980 no álbum Remain in light, seria uma espécie de antecipação dos excessos da década dos yuppies e da ascenção do consumismo. David Byrne diz que não, que a letra fala apenas… do que ela fala. Em uma entrevista, afirmou:

Somos em grande parte inconscientes. Levamos nossas vidas meio dormindo, em piloto-automático, e terminamos com uma casa e uma família e um emprego ou o que quer que seja, e nunca paramos para nos perguntar: como é que eu vim parar aqui?

Duas informações são importantes no entendimento de Once in a lifetime. Primeira: os Talking Heads foram um banda difícil de enquadrar em uma categoria musical. Surgidos em 1974, na ressaca do punk que deu origem ao chamado new wave, eles fizeram música entre o funk, o rock e a que ainda seria chamada de world music, ao ir pesquisar ritmos africanos. Brian Eno, produtor da banda à época, os apresentou a Fela Kuti, e a partir desta descoberta produziu Remain in Ligth.

Segunda: a postura de David Byrne vocalista da banda, meio nerd com paletós largos demais (ou no caso deste videoclip, um conservador smoking), seus óculos e o penteado, causam estranhamento em contraste com o meio em que ele se insere, seja pela música com influência rítmica forte de regiões “não civilizadas”, seja pelo seu próprio gestual explícito. (Byrne é escocês, difícil imaginar alguém fisicamente menos apropriado para lidar com música e dança africana). No vídeo, ele alterna um gestual de espasmos e movimentos bruscos, fora de sincronia com projeções dele mesmo ao fundo, com a repetição de gestos rituais de povos africanos também projetados atrás, que se tornam ridículos feitos por ele. Em alguns momentos seus gestos parecem o prenúncio de um ataque epilético, em outros de uma incorporação espiritual. Em ambos os casos, algo fora de controle. Seu corpo. Mas talvez mais.

Letting the days go by / let the water hold me down
Letting the days go by / water flowing underground
Into the blue again / after the money’s gone
Once in a lifetime / water flowing underground

Deixando os dias passarem / deixe a água me levar
Deixando os dias passarem / água fluindo subterrânea
Novamente em depressão (no azul) / depois que o dinheiro se foi
Uma vez na vida / água fluindo subterrânea

Este refrão de estrutura próxima do gospel – a melodia de Eno, que também o canta, associada aos versos cria uma estrutura de pergunta e resposta típica dos cantos protestantes negros americanos – é o contraponto perfeito para o restante da letra, discursada por Byrne sem melodia tradicional, mas com inflexões vocais fixas que criam uma espécie de melodia não tonal. A letra de Once in a lifetime, à primeira vista, trata de uma crise de meia-idade. É construída aos poucos, descritivamente. As possibilidades iniciais, muito variadas,

And you may find yourself living in a shotgun shack
And you may find yourself in another part of the world

Você pode um dia se ver vivendo numa casa de cômodos (livre tradução)
Você pode um dia se ver em outra parte do mundo

são logo substituídas pela descrição da realização do american way of life:

And you may find yourself behind the wheel of a large automobile
And you may find yourself in a beautiful house, with a beautiful wife
And you may ask yourself-Well…How did I get here?

E você pode um dia se ver atrás do volante de um carrão
Você pode um dia se ver numa linda casa, com uma linda esposa
E você pode se perguntar: Bem, como eu consegui isso?

Mais um pouco sobre o canto fala de Byrne, ele tem um duplo aspecto. Embora pareça aleatório ou arbitrário como seu gestual, é tão estudado quanto eles, em cada inflexão. Por outro lado, o fato de ser um discurso falado aproxima o ouvinte. Associada à persona de homem comum quase no limite da caricatura que Byrne representa, cria-se uma identificação: a reflexão existencial da letra pode ser feita por qualquer um.

Se eu tivesse que escolher uma palavra para definir a música dos Talking Heads, diria: estranhamento – tendo seu corolário em Once in a lifetime. E nela se expõe, a partir da impressão dupla da interpretação de Byrne, descrita acima, uma outra dupla visão, um duplo estranhamento, expresso de um lado na letra e de outro na sonoridade da canção – e de quebra no clipe.

A da sonoridade já ficou clara: um escoces traz Fela Kuti para o seu rock. A levada dançante da música é resultado de um truque: ao tocar, metade da banda põe o tempo forte no início do compasso, e a outra metade põe no meio. Isso era usado por Fela Kuti em sua música, e é o que dá à canção seu balanço. E aí se dá o estranhamento – lembremos que o álbum é de 1980. E cabe aqui uma generalização.

Sim, o rock, em última instância, veio em boa parte da África. Mas não, não há África perceptível no rock produzido na década de 1970, seja o progressivo ou o punk. A mistura dos rescaldos do punk com ritmos africanos ganha assim o contorno de um contraste que não é meramente sonoro ou estético, mas extrapola para cultural, para o civilizacional. Como imaginar Fela Kuti tocando ao lado de Sid Vicious (e no entanto a fúria contestatória de ambos tem pontos de contato, o que não deixa de ser também um sinal).

Paralelamente, temos as imagens do vídeo: Byrne repete gestos rituais africanos como um autômato. O choque cultural se torna patente, porque o ridículo é ele diante do diferente. O estranhamento não é em relação à outra cultura, que na verdade mal é apresentada, mas em relação à incapacidade da cultura de Byrne, que ele representa em seu smoking, de se relacionar com a outra ou compreendê-la. Assim como a civilização ocidental se considera superior às outras outorgando-se um sentido que não enxerga nelas, aqui o civilizado se mostra sem sentido em contraste com elas. Estranhos somos nós.

E enquanto isso, a letra:

And you may ask yourself: How do I work this?
And you may ask yourself: Where is that large automobile?
And you may tell yourself: This is not my beautiful house!
And you may tell yourself: This is not my beautiful wife!

E você pode se perguntar: como eu lido com isso?
E você pode se perguntar: Onde está aquele carrão?
E você pode se dizer a si mesmo: esta não é minha linda casa!
E você pode se dizer a si mesmo: esta não é minha linda esposa!

É quando o estranhamento fecha o foco, toda uma vida construída segundo os ditames culturais certos e superiores parece não fazer sentido nenhum.

And you may ask yourself: What is that beautiful house?
And you may ask yourself: Where does that highway go?
And you may ask yourself: Am I right?…Am I wrong?
And you may tell yourself: MY GOD!…WHAT HAVE I DONE?

E você pode se perguntar: O que é aquela linda casa?
E você pode se perguntar: para onde aquela estrada vai?
E você pode se perguntar: Estou certo? Estou errado?
E você pode se dizer a si mesmo: Meu Deus, o que foi que eu fiz?

A sensação é de perda de controle. Deixei a água me levar, a água subterrânea. A inconsciência de que Byrne fala ao comentar a música é capaz de levar alguém apenas aonde o rio vai. E o rio é formado por milhões de inconsciências indo na mesma direção. Uma civilização que acha que sabe aonde vai, até descobrir que não sabia, e que não sabe onde chegou. Same as it ever was / assim como sempre tem sido.

Grande parte da obra do Byrne é dedicada a este estranhamento da realidade ocidental e de suas tradições e instituições em favor de outras possibilidades. O fato de Byrne não se despir de sua roupagem ocidental, ao contrário, radicalizando-a, enquanto sua música (e toda a música popular ocidental, desde o gospel emulado no refrão, que deu origem ao rock) vai buscar influências nas culturas que despreza é todo o tempo ressaltado, de diferentes formas, sob diferentes aspectos. Olhar a própria cultura, a própria civilização, a própria vida como se não a reconhecesse: é disso que quase todo o trabalho dos Talking Heads trata. Once in a Lifetime fala apenas o que fala, mas fala bem mais que o que fala.

Ao vivo no filme Stop making sense, de Jonathan Demme

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