Quero ver a canção agora

E lá vamos nós de novo na discussão sobre a crise da canção e sua reinvenção. Discussão mais que necessária, por sinal. Cenas (sintéticas até a esquematização) dos últimos capítulos: a canção pré-bossa-nova tinha dois elementos-guia, melodia e letra. Compositores usualmente faziam suas canções sem instrumentos harmônicos de referência, pois a harmonia era próxima da óbvia, seguindo os elementos funcionais diretos. Isto não desmerece as criações deste paradigma, pois com estes dois elementos obras primas foram criadas.

Porém, com a bossa-nova, um elemento musical assume pé de igualdade com os outros: a harmonia se junta a melodia e letra no protagonismo da canção. Depois de Tom Jobim, o acorde óbvio não é necessariamente o acorde usado, a dissonância é incorporada, o movimento da harmonia conta histórias tanto quanto suas companheiras. Com João Gilberto, até mesmo o repertório anterior à bossa – Noel, Geraldo Pereira, Ary Barroso, tantos outros – é revisto à luz deste poder ascendente da harmonia, dos tetracordes e suas extensões. E este se torna o paradigma sob o qual será construído o imponente edifício da MPB, que ora rui.

Rui? Pois rui para se alargar, alegam muitos. Pois é chamado mais um personagem à boca de cena. Assim como a canção pré-bossa-nova fazia sentido cantada sem acompanhamento mas da bossa-nova em diante não, esta pode não fazer sentido acompanhada apenas por seus acordes, pois o timbre se impõe como um elemento funcional disposto a ser ouvido ombro a ombro com melodia, letra e harmonia. Essa música é feita a partir do timbre? Mais especificamente pode-se pensar que ela é construída como um todo semiótico com o arranjo. Tom Jobim pensava os arranjos em conjunto com as músicas, mas em seu pensamento o arranjo estava sempre a serviço da canção, enquanto a harmonia era também a canção (e aqui radicalizo propositalmente o esquematismo e ignoro numerosas exceções). Agora o arranjo é a canção, tanto quanto a letra, tanto quanto a melodia que muitas vezes vai da modulação direta da voz a notas definidas e volta quase indistintamente – corolário, ou talvez retorno, do caminho da canção como estilização da fala, segundo o pensamento de Luiz Tatit.

Músicas desta nova geração frequentemente não se prestam a rodas de violão. Não são passíveis de serem despidas de sua parte instrumental impunemente, não são cifráveis nas revistas Violão e Guitarra – Vigu, dos anos 70, já que os caminhos dos arranjo se afastam decididamente da sequência de acordes e partem em busca de riffs, entre muitas outras soluções. O que gera um desafio para regravações, pois a substituição do arranjo original por outro implica mais que nunca numa recomposição. E é exatamente o que se faz continuamente. Outro grande desafio é dar a esta nova forma uma estruturação que permita alçar voos altos, quiçá duradouros – se é que esta é uma ambição desta geração (tenho para mim que é).

Discussão da forma, discussão do conteúdo. Pois se há cada vez mais elementos dispostos a contar sua história, ao ser dividida entre eles, ela é contada de forma menos verbal, mais vaga – mas não necessariamente menos incisiva. O desafio de torná-la consistente é paralelo ao da narrativa literária, do conto etc. Tanto para letra quanto para melodia, não precorrer o caminho da forma tradicional implica em escolha de outro caminho que pode ser desamarrado, procura de uma nova (outra vez) consistência. A melodia pode dar a impressão de não saber aonde ir, e esta pode ser uma escolha consciente (neste caso, ela sabe aonde ir exatamente, e vai de propósito). Há hoje um tatear composicional nos músicos que se percebem integrantes de uma nova forma de fazer MPB. Uma multiplicidade de referências e de significações que incorpora os instrumentos. Há uma assimilação da cultura pop que é ao mesmo tempo entrega e cinismo, simultaneamente sincera e desconfiada. Tanto resistência quanto rendição. Antropofagia passando de nível no videogame.

Mas do que é que eu estou falando afinal? Disso.

Quebra tudo – Gabriel Muzak

Um dos meus questionamentos mais ferozes a partir do surgimento desta geração difusamente (auto-)denominada Nova MPB e seus novos procedimentos é exatamente a capacidade de criar obras com a capacidade de duração e de fixação que tiveram os nomes hoje clássicos da MPB. A capacidade de estabelecer algo que sirva de influência para a próxima (ainda que para os iconoclastas do futuro) e se estabelecer como a MPB simplesmente, sem o eterno epíteto de nova. E para isto é necessário um domínio destes procedimentos e um equilíbrio entre eles que eu já vi em lampejos em diversos trabalhos, mas que é em si um processo de amadurecimento, inevitável diante de parâmetros novos em que o próprio formato da obra se reconstitui. Pois bem, esta canção de Gabriel Muzak é para mim um exemplo acabado deste amadurecimento e de onde ele pode dar. Não sei se vai se tornar um clássico, nem se é possível que uma canção com este formato se torne um clássico, ou se seria bom que se tornasse… Mas acho que é uma demonstração, entre outras possíveis, da safra que são os frutos desta nova MPB.

(Repito para ser claro: falo do processo composicional especificamente. Gravar uma canção anterior com procedimentos de arranjo novos, assim como João Gilberto fez, é algo corrente e necessário até como treinamento e referenciamento, para músicos e ouvintes, uma transição geracional indispensável. Mas refiro-me às composições exclusivamente feitas segundo esta nova formatação, incluindo timbre nas mistura em igualdade de condições)

Então vamos por partes. Primeiro o nome do Gabriel. Na Le Monde Diplomatique Brasil deste mês (agosto/2013), no artigo Marketing sonoro invade as calçadas, a produtora Juliette Volcler conta:

(…) a Muzak Corporation inventou a música ambiente nos anos 1930 e criou, para promovê-la, o conceito de “progressão de estímulo”. A melodia tinha por função, além de esconder os ruídos do trabalho, melhorar a produtividade: tônico quando a energia caía, calmante quando a distração rondava. A “progressão de estímulo” hoje continua a ser adaptada aos mais variados universos, supostamente para prolongar o tempo de permanência de um cliente numa loja ou, ao contrário, para acelerar a rotatividade num restaurante.

Gabriel, por sua vez, informa que tirou seu sobrenome artístico da canção Épico, de Caetano Veloso, do álbum experimental Araçá azul. Canção (se é que chega a ser canção) que não tem nada de muzak, mas em cuja letra Caetano, em determinado momento, alterna as palavras Muzak e Smetak, compositor que influenciou decisivamente o Tropicalismo. Pois se Caetano equipara muzak e Smetak semanticamente ao enfileirá-los sintaticamente, ao adotar Muzak como sobrenome, Gabriel novamente o equipara a Smetak, nomes-espelho na canção de Caetano. Gabriel, assume para si todo o arco que vai de um extremo a outro, de Muzak a Smetak, seu nome é ele próprio esta provocação que faz questão de não recusar toda e qualquer fonte.

É exatamente isto que se ouve no álbum de Gabriel, Quero ver dançar agora, aberto com um carimbó das arábias na definição dele, seguindo com sambas (a introdução de Uma mulher lembra imediatamente Tom Zé), faixas instrumentais, em outras línguas, tudo misturado, mas com uma unidade interna que vem despreocupada, naturalmente, pelo evidente domínio da linguagem de que falava acima (não tanto das línguas, como ele brinca dizendo: Sou um polianalfabeto). O que nos leva à canção que me chamou a atenção, Quebra tudo. Gabriel comenta para o site O Esquema:

Quebra tudo tem esse nome porque foi composta em compassos não convencionais, ora de 3 tempos, ora de 5. Além disso narra tempos difíceis, estabelecimentos comerciais são o objeto da espreita dos cidadãos acossados por suas dificuldades. Fala do mundo insustentável da opressão, do consumismo como fator de afirmação social e de como o mundo caminha nos tempos da imagem.

O truque semântico de Quebra tudo é simples. A passagem de sentido dos estabelecimentos comerciais listados à música e ao ritmo, da figuração literal à metalinguagem, poderia não passar de uma pegadinha, mas a ultrapassa em muito, justamente porque não se limita ao formato tradicional de canção. O que dá a Quebra tudo a dimensão de uma declaração (senão um manifesto) ao mesmo tempo política e estética é o fato de tudo nela caminha pari passu, de letra e melodia ao arranjo, o novo/velho elemento timbre.

Vejamos: Na letra – que não passa de uma lista, daquelas que ganham força a cada item acrescentado -, passagens irônicas como a promoção-relâmpago mais cinco minutos, na segunda prateleira da esquerda pra direita!, ou os quase slogans Lojas da lingerie da mulher moderna e Hamburguer de carne bovina, ironias tão próximas do clichê quanto uma melodia poderia estar da muzak, a música ambiente que toca nestes lugares e da qual o vendedor da promoção-relâmpago faz parte. O que realmente acontece no fraseado melódico destes momentos, mais próximos da artificialidade, enquanto em outros o vagar entre canto e fala quase faz esquecer que há uma melodia explícita, e em outro ainda transforma a entonação de açougue! num esgar. No ritmo, um quinário quase dançante quebrando o tempo dá lugar ao ternário furioso (que me lembra Titãs e sua iconoclastia dos melhores dias) trilha sonora das coisas quebradas – difícil dizer qual o literal, qual o metafórico. Na harmonia, um padrão que se repete insistentemente do começo ao fim, em que acordes são o que menos importa (adeus, rodinha de violão). E junto a tudo isso, a voz metálica de Gabriel que parece zombar do que ele mesmo diz. Todos os elementos a serviço. Sem um deles, perde-se não apenas força expressiva, mas significado mesmo. Sem um deles, a canção perde sentido. Juntos constroem um todo bem maior que as partes, como deve ser. E com mais partes do que nunca.

E o refrão, que nomeou o álbum. Quero ver dançar agora é o lançamento de um desafio que vai na direção contrária do restante da letra, já que a encerra, fazendo todo o caminho de volta instantaneamente. Se a letra parte dos estabelecimentos comerciais e de uma possível crítica do consumismo para o ritmo da própria canção, o refrão parte deste refrão e remete de volta à questão política. Junho de 2013, Gabriel, em 5/4, canta/fala, recita com um desenho tão claro que pode ser posto em partitura: Quero ver dançar agora! Junho de 2013, o povo na rua grita para seus representantes que não os representam, para a grande imprensa movida por interesses comerciais, para grandes empresas mancomunadas com políticos: Quero ver dançar agora! (na verdade a canção é de 2010, o que a torna ainda mais interessante, por não ter sido feita a molde dos acontecimentos, e sim o contrário.) Estética e ética, Smetak e muzak se fundem num só. Gabriel incita: quebra tudo, DJ! e insere explicitamente o DJ como músico, como personagem, como autor da canção. Um desafio que retorna à questão estética uma vez mais ao ser lançado à própria música, se pensamos na tão famosa e contestada linha evolutiva da MPB pensada pelo Caetano Veloso – que involuntariamente batizou Muzak. MPB que desde seus primórdios agrega novos elementos, quebra tudo e se reconstrói e se relê a cada dia. Gabriel é um dos que segue inserindo a música na vida nacional e vice-versa, com imensa propriedade, que está pensando e trabalhando no sentido de levar avante uma tradição reinventando-a continuamente. Gabriel quer ver a música brasileira dançar agora. Eu também.

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Um comentário em “Quero ver a canção agora

  1. Mauro Aguiar disse:

    Eu quero música velha
    que o neurônio anônimo inaugura
    não o gem de garagem, mas jóia enxuta
    que não chuta o balde debalde.
    O desbunde, o bonde das pirigueixas
    As miguxas da tv de plasma.
    Essas fiquem onde são: insanas fotografias.
    Eu quero a música encarquilhada dos violões barbeiros,
    os pregoeiros da Bahia.
    Eu quero a ida à lua agora
    na voz seresteira do anticiclone.
    Música ruga, regada a faca.
    Não a fraca tímbrica do bate-estaca.
    Quero montanha russa, lógica cossaca
    da nota torta. Música óssea, impulsiva.
    Troço quente na mão, não essa fumaça.
    Eu quero música crestada, cripta, não essa
    kriptonita super avantajada, cheia de nadas.
    Fiquem com os defeitos do sistema, os robôs
    ébrios, as roubadas. Fiquem com as súbitas
    ciladas do riso raso. Eu quero o realejo realengo
    assobiado no adro de uma igreja alijada do mundo.
    A letra escrita no muro por um louco de carvão na mão.
    Eu quero a ruína ruidosa que vaticina o novo sem ser
    só nuvem e não.

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