O Anterior, de uma perspectiva histórica posterior

PrestençãoSer músico popular em Minas Gerais tornou-se uma doce maldição depois do Clube da Esquina. A gigantesca influência deste grupo de músicos fenomenais não permite dubiedades: quem permanecer mineiro (diferentemente de um João Bosco, que, mineiro de nascimento, tornou-se músico carioca, voltando a Minas ocasionalmente muito mais tarde) será o que for, mas será, em alguma instância, em relação ao Clube. Seja indo radicalmente em outra direção (Nós já cagamos muito na cabela do Clube da Esquina, ouvi uma vez numa entrevista do mineiro Sepultura), ou para subir nos ombros de suas grandes obras e assim enxergar mais longe.

No fim de 2012, o músico Pablo Castro publicou no Facebook, e depois no site Massa Crítica MPB, de Luiz Henrique Garcia, uma seleção analisada de 30 canções do Clube da Esquina. (Mais recentemente, fez o mesmo com 30 lados B de Paul McCartney.) Só estas escolhas já dizem muito: Pablo nem pensa em negar a tradição. Mas isso não o faz um continuador automático ou mesmo reverente – antes um conhecedor que escolhe cuidadosamente o que lhe interessa continuar.

Num artigo excepcional sobre o Clube, Ivan Vilela (também um tremendo violeiro) diz:

O Clube da Esquina foi um movimento de síntese da música brasileira. (…) O Clube da Esquina traçou um caminho singular com harmonias muito próprias e originais, como se tivesse pegado um atalho e chegado na ponta das conquistas adquiridas ao longo das décadas. Olhando para a singularidade e ouvindo as harmonias de Milton Nascimento, Toninho Horta e Tavinho Moura fica-nos fácil perceber essa marca.

Este me parece ser o ponto de partida de Pablo Castro.

Anterior – Pablo Castro (clip voz e violão)

Dizer que um álbum de música popular brasileira é composto de canções pode parecer uma rotunda redundância. Mas no caso de Anterior, é pertinente dizer isso no sentido de que seu fundamento está numa tremenda depuração do formato canção. Pablo se esmera – ou mais precisamente esmera cada canção em um alto grau de refinamento. Isto é nítido em cada curva melódica, em cada progressão de acordes. Não que não haja fluência, que soe artificial, nada disso. Mas trata-se de uma fluência conseguida à custa não apenas de inspiração, mas de muita transpiração.

Mas – e aí voltamos à questão referencial, novamente baseados na avaliação certeira do Ivan Vilela – onde o Clube da Esquina é sintético, Pablo é prolixo. Uma das reportagens de lançamento o descreve como neobarroco, o que sem dúvida é uma tentação para um compositor mineiro, mas me soa algo exagerada, pois Pablo não permite que a profusão de detalhes se transforme em descontinuidade ou fragmentação. (caberia aqui uma extensa discussão sobre a influência do barroco sobre o Clube. A mim parece que cabe a aproximação, mas não exatamente estilística, no sentido de uma explosão de dramaticidade, e sim em termos de uma intensidade que não exclui contrastes internos, além da óbvia questão da religiosidade. Mas isso é outro assunto).

Pois em Pablo esta referência do Clube ainda assim me soa forte, mas no retorno do pêndulo. O detalhismo composicional de Pablo não é sintético como no Clube, e está atrelado a uma composição para violão (mais até que meramente uma harmonia) que vai ser sublinhado meticulosamente pelos arranjos do próprio Pablo, e também de Marcos Braccini, Avelar Jr, João Antunes, entre outros. Voltamos a Ivan Vilela:

Cada movimento usou o som orquestral de maneira distinta. A Bossa-nova utilizou a orquestra como uma moldura sonora em torno da canção. A tropicália tratou-a de forma mais discursiva, em que a orquestra narrava os acontecimentos da canção. No Clube da Esquina vimos uma orquestração de caráter mais impressionista, criadora de ambiências sonoras e timbres que resultam da junção de instrumentos distintos, que, por vezes, corrobora o texto.

Esta sequência típica da linha evolutiva permite ouvir as orquestrações de Anterior sob perspectiva. Pablo não economiza, isto é certo. e onde a canção diz mata o arranjo diz esfola. Como na Banda dos Descontentes, que já se inicia com um vigoroso violão solo, crescer em intensidade até explodir em revolta popular de metais e a voz de Pablo ultrapassando seus limites. Ou em Moby Dick, de primeira parte épica e segunda trilha sonora de perseguição, perfeita para uma caça à baleia. E em ambos os casos, posso estar falando tanto da canção em si quanto do arranjo, irmanados na mesma direção.

Mas agora deixo espaço para a entrevista/bate-papo que fiz com Pablo, enquanto ia ouvindo o álbum e preparando o artigo. Creio que na troca informal de impressões que tivemos, e que editei o mínimo possível, estão alguns dos maiores insights sobre Anterior:

Eu – Pablo, estou ouvindo devagar e gostando à beça, e quero fazer uma pergunta. Você ouve rock progressivo? Digo porque achei algo na condução das canções e mais ainda nos arranjos detalhados e com viradas meio inesperadas que me lembrou isso. E você sabe que o Clube da Esquina tinha essa relação. Faz sentido ou é viagem minha?

Pablo – Cara, já ouvi mais, mas sempre volto sobretudo ao Genesis com Peter Gabriel, não ligo muito para Yes e Pink Floyd, enquanto Genesis é fundamental, embora eu não aprove tanto aquele jeito de se fazer colagem em todas as músicas, sou mais da canção, e prog já é outra forma, embora em Genesis tenha muita canção foda entre uma aventura instrumental e outra. Saca The Lamb Lies Down on Broadway?

Eu – Cara, pois era exatamente nosso que eu estava pensando. A maneira de condução do instrumental me lembrou muito, essa vivacidade. O legal é ver isso com harmonias pós bossa nova e ritmos variados, sem preocupação explícita com gênero. Esta liberdade é que eu acho que me lembrou.

Pablo – É, é um disco que atira pra muito lado, né, tem uma camaleonice nele, mas isso também remete a Beatles, com aquele carrossel de estilizações que tem nos discos deles.
_____________________________________________________________

Eu – Pablo, vou te fazer uma pergunta batida, mas que acho que pode ter um viés diferente. Você enxerga Clube da Esquina no teu trabalho?Digo isso porque, para além de questões harmônicas, eu enxergo algo de Clube da Esquina ampliado, no jeito próprio de processar samba, bossa com rock, pop, algo nos arranjos (que me levou ao progressivo)… Você acha que faz sentido?

Pablo – Acho que faz sentido sim, com certeza, Túlio. Inevitável porque é algo que ouvi desde a infância. Acho que você tá na pista certa, talvez meu trabalho seja uma tentativa de processar esses elementos à maneira do Clube, só que de uma perspectiva histórica posterior. Tomando o rock, por exemplo, em alguns momentos, de forma mais central, com sua dicção harmônico melódica, como a tônica com sétima, algo que o Clube sempre tomou cuidado para modificar, e são raros os rocks típicos do Clube embora muitas músicas apresentem elementos dele. O Gil já se lançou sobre ele, sofisticando a harmonia repleta de empréstimos modais e da ambiguidade funcional dos acordes maiores com sétima, que funcionam tanto como tônica como enquanto subdominante. Mas o Clube sempre filtrou os elementos do rock de maneira a não se lançar tão dentro dele como o Gil fez. Enfim, tem muito Gil nessa história também, né, com essa coisa de depurar os estilos sem deixar de ser original em cada um deles.

Eu – Tem Gil, é verdade. Mas embora o seu som seja decididamente urbano, não me soa ligado à Tropicália. Você tem uma sofisticação harmônica que poderia remeter a ele. Mas a condução geral, e principalmente melódica, não vai por aí. Mesmo o harmônico vai no meu ouvido em algo entre Lô, Beto Guedes e Toninho Horta. Não por acaso você resenhou tantas canções deles de outra vez. É como se o alargamento no espaço que o Milton sonhou fazer com o Clube, chamando músicos estrangeiros etc. você o fizesse no tempo, e de forma muito mais natural – pois o tempo realmente passou…

Pablo – É, eu acho que a marca mais indelével do Clube no meu trabalho é essa busca harmônica mesmo, por um tipo de efeito surpreendente, algo que seja expressivo sem perder o sentido, e tem toda uma ressonância meio misteriosa que intuitivamente muitos compositores daqui buscam, até mesmo aqueles que não ouviram o Clube como eu e são bastante posteriores. Mas tem realmente uma busca. Coisas como O Grande Verão, Moby Dick, Ponto Oriental, O Sétimo Selo vão muito nesse viés. No Grande Verão, fiz uma referência direta ao Beto Guedes, com o quatro venezuelano e aquelas changuanas que permeavam os discos dele. O Sétimo Selo tem umas soluções harmônicas interessantes, a partir de acordes simples, sem tantas dissonâncias, acho que isso é uma invenção bem Miltoniana. Todo o disco também tem muitos traços daquela típica guitarra mineira harmônica do Toninho Horta.

Eu – Tenho a impressão de que ainda por trás destes paralelos e destas aproximações há uma questão de procedimento. Achei um artigo do Ivan Vilela sobre o Clube em que ele lembra que o Clube é o 1° movimento depois da Tropicália. Só que a mistura que na tropicália era heterogênea e chocante, no Clube virou um amálgama muito natural. A ponto de ele antecipar a world music. Esse negócio de aceitar a influência incorporando a uma sonoridade bem mesclada e amadurecida é algo que se aplica ao seu som. Seu samba não é samba típico, nem o rock, nem mesmo o baião que tem baião no título. Antes de ser idiomático, tem uma identidade comum muito forte.

Pablo – Cara, que bom que você pensa assim, porque o maior desafio de se tentar abarcar tanta heterogeneidade é perder justamente a capacidade de amalgamar e trazer todas as peças pra dentro do mesmo jogo, né. Há em geral uma tensão conceitual presente na feitura dos álbuns que é completamente diferente da composição de canções, uma a uma: como alinhavar esse conjunto de músicas num todo. Uma das soluções mais predominantes hoje é enfatizar, por algum viés, a unidade, seja pela adoção de um estilo muito específico, seja, pela instrumentação, o tom das letras, enfim, a sonoridade, a voz, e tudo mais que amarra um disco. A mim, pessoalmente, sempre me agradaram mais aqueles discos com várias vozes cantando (a exemplo dos Beatles e do Clube da Esquina), com maior variedade e de alguma forma relendo tudo aquilo sob o mesmo prisma. Mas, enfim, não sou um músico “natural” que seria capaz de inventar um estilo, ou apurar algo muito específico em alguma fresta de algum gênero musical, sempre tentei saber fazer um pop e também um samba-canção, uma valsa ou um baião, uma canção de câmara ou um rock despudorado. “O maior desafio é amalgamar”, e não perder a capacidade de amalgamar, como escrevi acima.
__________________________________________________________________

Eu – Pablo, dá uma olhada nisso que escrevi, diga para mim se faz sentido para você:

Um dos acordos tácitos que serve de base para a construção de uma canção é o da relação melodia/letra. A simbiose entre estes dois elementos é um dos objetivos da composição, e tanto maior for, mais longe a canção vai. Porém, se um dos dois elementos tiver que sobressair, usualmente, será a letra, capaz de conseguir comunicação mais direta com o ouvinte. (Obviamente, há inúmeras exceções a esta tese e ela própria é ponto de partida para diversas discussões. Mas parto dela como regra geral, e basta ligar o rádio para comprovar). Porém, na música de Pablo esta premissa parece se inverter, não propositalmente, mas como consequência natural da maneira como ele trabalha as melodias apuradas, que poderiam se bastar por si. Nas canções de anterior, a letra parece estar a serviço do efeito causado pela melodia, e não o contrário. Em Moby Dick, por exemplo, a narrativa quase óbvia dos acontecimentos serve a uma composição com dois climas bem definidos, um majestoso e épico, mas com um movimentos sincopado que balança como um navio sobre as ondas (se com isso se aproximar da dança de forma alguma) e uma movimentada segunda parte, em que o clímax da ação, a caça e o naufrágio falam por si, quase sem a necessidade da narrativa das palavras.

Pablo – Fiquei muito contente em ler seu texto, e acho que você sacou algo que eu mesmo nunca tinha pensado. Acho que é por aí mesmo, a melodia é muito estruturante nas minhas canções. Antigamente eu fazia praticamente a música inteira e depois ia pensar na letra. Agora, não mais, tem me sido mais decisiva a direção da letra no desenvolvimento da música, mas ainda assim, a melodia tem que ter um caráter mais íntegro pra que eu acredite na canção. Outro dia mesmo completei uma música que tinha um A que me agradava, para o qual fiz, com Murilo Antunes, algumas estrofes de letra, enquanto o B não havia e tentamos desenvolver a letra para depois musica-lo. No fim, acabei achando um padrão melódico convincente e aí terminei a melodia para depois letrar … um velho vício!

Eu – Mas eu acho que esse é justamente um ponto de ligação com o Clube também, e que criou uma geração inteira de letristas especializados – Brant, Dubas, Marcio Borges, o próprio Murilo. As suas melodias já contam a história. A da Banda descontente já se exalta sozinha, a da Feira já faz a feira, e assim por diante. Isso dá uma solidez muito grande às composições.

Pablo – Agora, acho que tem também um papel da harmonia aí, porque é meio estruturante aí uma certa busca de harmonias relativamente originais, cujos efeitos, conjugados com a melodia, são o que me importa mais. Não sei se consigo fazer uma melodia convincente para uma sequência harmônica banal.

Eu – Ah, certamente. E nesse ponto é que o encontro mineiro entre o pop rock e a bossa-nova se consuma. Tem uma complexidade aí que é muito particular, mas que também está a serviço. A harmonia é que abre o caminho para a melodia caminhar, não o contrário.

Pablo – Com certeza, são traços típicos mesmo dessa tradição do Clube. Claro que é uma herança que nem todos querem carregar (ou assumir), até porque implica uma exigência de elaboração harmônica que não é fácil manter. Mas é interessante, nesse ponto, comparar algumas outras propostas artísticas de meus contemporâneos conterrâneos, por exemplo , o trabalho do Kristoff Silva, do Rafael Macedo, enfim , vários outros muito bons compositores que provavelmente você não conheça. Para o Kristoff, com um diálogo intenso com a vanguarda paulista, especialmente Luiz Tatit, a harmonia é ainda mais complexa, mas sempre à serviço da letra. Já ouviu algo dele?

Eu – Ainda não. Já vi o nome relacionado a você e o Makely, que toma um caminho mais discursivo e de quem já falei no blog. É uma boa indicação. Vou buscar mais tarde. Pablo, acho que com isso o artigo se aproxima de estar pronto. Se tem mais algo que quer dizer, esteja à vontade.

Pablo – Cara, acho que talvez a única coisa que valeria acrescentar aqui, principalmente em contraste com a desconhecida cena autoral mineira contemporânea, de que faço parte, é que meu trabalho busca também um equilíbrio com a história da MPB, vamos dizer assim. Hoje, do que ouço de mais inovador na música popular, ultrapassaram-se certas formas arquetípicas de forma, melodia e tal, que eram estruturais na MPB clássica. Eu ainda busco dialogar com os “clássicos” de maneira mais sistemática, enquanto outros vão sem medo para um caminho radicalmente particular, às vezes beirando um certo hermetismo, mas ao mesmo tempo levando as soluções estéticas para lugares mais insuspeitos do que os meus. Talvez, num sentido muito específico, eu seja o mais tradicionalista entre os meus pares.

E meu P.S.: Talvez por isso um título inusitado como Anterior. Pablo não tem receio de dialogar com o passado. Sua música revela uma escuta apurada como condição inicial, e mais que isso, uma escuta escolhida que lhe permite uma construção meticulosa do próprio som. Um pé fincado no anterior, dando apoio e impulso para o passo à frente. De onde sempre se olha para trás com mais clareza, preparando o próximo passo.

O ponto oriental – de Pablo Castro e Luiz H. Garcia (clip voz e violão)

Moby Dick – de Pablo Castro e Luiz H. Garcia (clip voz e violão)

E o serviço: Pablo viabilizou este álbum pelo sistema de crowdfunding, por este site. A campanha já está encerrada, mas pode-se entrar em contato pelo email palavrasom@gmail.com . Ou comprar o CD aqui.

Anúncios

4 comentários em “O Anterior, de uma perspectiva histórica posterior

  1. Bacana demais Túlio. Quanto à relação dialógica e seletiva com o passado, um certo parceiro historiador compactua plenamente dela 🙂 . Um canal para compra o CD pode ser http://lojamusicaquevemdeminas.blogspot.com.br/2013/04/pablo-castro-anterior-2013.html Grande abraço.

  2. […] mais aproxima Anterior do que poderia se chamar de neobarroco. Essa definição foi problematizada na brilhante resenha do Tulio Villaça, que também esboçou uma discussão sobre até quando o Clube da Esquina foi, de fato, barroco. Em […]

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s