Nada de novo, tudo de novo em 66

Quando Chico Buarque, na já célebre entrevista à Folha de São Paulo em 1994 (e lá vou eu novamente usar isto com ponto de partida. Mas o bom é que dá para ir para partes diversas a cada vez.) aventou de passagem a hipótese do fim da canção, ou seja da exaustão do formato canção como foi pensado e elaborado pela música brasileira pós-Bossa Nova, provavelmente ele não tinha ideia do furacão que ia causar. Mas é certo que o dilema da criação artística e a sensação de que tudo já foi tido é algo muito mais amplo que um formato ou que a nossa música popular, que tem a ver com inúmeras mudanças, inclusive da própria maneira como enxergamos a obra artística.

E aí dava para entrar em uma série de elucubrações (que por sinal também não seriam nada originais): desde a virada do século XX, praticamente todas as modalidades artísticas existentes tiveram que se reinventar, quase todas indo na mesma direção: o abstrato, o atonal, o atemático. artes plásticas, literatura, música. O que na maior parte dos casos correspondeu a um distanciamento do público, e não é por acaso que a música popular brasileira se haure até hoje da influência impressionista e de Debussy, último degrau antes do dodecafonismo e da música sem tom.

O que nos leva a duas constatações: a primeira, que, assim como a linha evolutiva evocada por Caetano tem encontrado desvios e bifurcações, na história da arte em geral a atonalidade foi um degrau que nos levou… a todo lugar, inclusive à volta de formas clássicas, agora sob novas visões permitidas pelo passeio pelo atonal – mas também ao radicalismo eletroacústico, em que mesmo notas musicais e quase tudo que se possa reconhecer como música é abolido. E assim, novamente, em toda forma de arte. E a segunda que, se tratamos de música popular, a relação com o público se dá em outro lugar em relação aos caminhos que a música chamada erudita tomou. E especificamente no formato canção, há pelo menos uma coisa que mantém um dos pés firmemente no chão (para que o outro possa ir alto e longe): estamos falando, afinal, de versos musicados. A simples e tão maleável forma, exaurida, superexplorada, o que for, está aí, e é dela que se precisa partir. E foi dele que partiu – ou melhor, foi nele que chegou – o Terno.

66 é do primeiro álbum do Terno, álbum de uma banda em formato de power trio que vai fazendo seu caminho enquanto aprende, e seu aprendizado está exposto, o que é muito interessante. Tim Bernardes, o cantor e compositor, é filho de Maurício Pereira, o também compositor e cantor paulista que é metade dos Mulheres Negras com André Abujamra. Neste primeiro álbum, a segunda metade do repertório é de regravações de canções de Maurício, e a primeira, de canções de Tim. Se isto já fala muito do processo de aprendizado e busca de uma fluência própria na sua música e no seu repertório, a própria 66 é uma anti-declaração de princípios, um pedido de socorro, uma tese sobre tudo o que falei acima e uma ótima piada, entre outras coisas.

Que esta seja exatamente a primeira canção divulgada do primeiro álbum da banda de rock destes rapazes é sintomático da era em que vivemos. Pois se o Chico Buarque manifestou sua crescente dificuldade em compor sem se repetir no fim de uma carreira longeva e vitoriosa, Tim manifesta a mesmíssima preocupação logo de cara e explica em entrevista ao Portal IG:

G: Como surgiu a ideia da canção “66”?
Tim Bernardes: Acho que foi uma das primeiras músicas que eu fiz. Sentava para escrever algo novo, e não fazia nada, porque sempre parecia com algo que já tinha sido feito. Queria resgatar uma energia que eu gosto muito nas músicas dos anos 1960, mas não uma coisa nostálgica sem graça. Uma hora, acabei escrevendo um texto falando o que eu estava pensando. Depois, comecei a cantar algumas coisas em cima desse texto. Foi um desabafo que tomou forma de música.

Fica para outra vez a explicação sobre a contradição da resposta: se ele estava fazendo uma de suas primeira canções, como é que as tentativas podiam parecer sempre com outras que ele já fizera? Mais provável é que parecessem com algo que ele conhecia. Se a dificuldade de escapar da repetição logo na estréia é um sinal dos tempos, a forma como ele conseguiu escapar desta falta de originalidade também é típica (e nada original): assumindo os clichês com humor e autocrítica, e fazendo boa metalinguagem. 66 é toda calcada neste estratagema, mas o que a torna interessante é conseguir usar estas fórmulas já gastas, criadas para escapar de outras fórmulas mais gastas ainda, como um trampolim, apoiando-se nelas para alcançar uma altura maior. Ou, como eles próprios reconhecem logo nos três primeiros versos:

Me diz meu deus o que é que eu vou cantar
Se até cantar sobre “me diz meu deus o que é que eu vou cantar”
Já foi cantado por alguém

E com efeito, grande parte dos procedimentos de 66 são reconhecíveis e bastante próximos ao Terno. A letra enorme e autorreferencial tem pontos de contato direto com a obra de Luiz Tatit (vide Essa é pra acabar), além de relações com o discurso próximo da fala do Maurício Pereira de canções como Trovoa e Um dia útil (estas, sem dispensar o humor, exploram muito mais um lirismo que 66 deixa de lado). O momento de maior radicalidade neste sentido provavelmente está na estrofe que fala da impossibilidade de escrever sem que uma métrica se imponha – e logo depois esta métrica é impiedosamente violada num verso que vai sendo esticado cada vez mais com uma sucessão de frases que dizem que ele está sendo esticado cada vez mais. Enquanto isso, a harmonia desta estrofe que se encomprida também vai sendo acrescentada de acordes que vão aos poucos se afastando da tonalidade até deixar o ouvinte efetivamente em dúvida sobre se e como vão conseguir voltar a ela (conseguem, através de uma inesperada dominante substituta acompanhada de uma pausa súbita que parece uma freada à beira do abismo, para depois voltar à tônica como se nada tivesse acontecido). Não há dúvida de que Tim domina o tempo de comédia.

Se o formato aproximado de 66 é de um AABAAB, com as devidas e inúmeras modificações e adaptações ao sabor do texto (o segundo B sendo na verdade um B’), há um contraste nítido entre as duas estruturas principais: se as A são quase faladas, baseadas em uma melodia de duas notas conjuntas (segundo Tatit, a melodia mais próxima da fala corrente com suas pequenas variações naturais), mas subindo para o agudo e escalando a tensão no desespero de versos como Vão dizer que eu tô maluco, as partes B seguem uma forma típica do rockabilly, fiel à influência do rock dos anos 50 e 60 na sonoridade do Terno, já preparando a surpresa final da letra: a grande novidade, o novo embalo quente (e o vocabulário de jovem guarda já dá também a pista) que pode ser o próprio Terno, tem mais de 40 anos!

E o Terno, como o músico popular, caminha sobre a linha da faca, anda na beira de dois abismos: entre inovação e nostalgia, maluquice e quadradice, o compositor quer investigar a forma e se fazer entender, quer continuar a tradição que se impõe e insinua no meio de criação e ao mesmo tempo desafiá-la fugindo dela como o diabo da cruz, tarefa dificultada nos dias de hoje pelo acúmulo de décadas, séculos de criação artística e pela exigência imediatista do novo imediatamente reconhecido e logo em seguida descartado, envelhecido precocemente. Contradição do plágio diferente. A melhor banda dos últimos tempos da última semana. As portas fechadas da grande mídia difusora da música popular nas últimas décadas, a desestruturação e reestruturação da indústria fonográfica, a garotada redescobrindo pela enésima vez o passado: eu vejo um museu de grandes novidades. Tudo novo de novo.

O encerramento de 66 tem dois elementos: primeiro, um solo de guitarra bem barulhento, acompanhado no clipe por uma espécie de ataque epilético tanto dos músicos quanto da edição: instrumentos despedaçados (e nem isso é novidade), paródia de radicalismo, ilusão da juventude que queria morrer antes de envelhecer, e agora é jovem outra vez. Como toda 66 transita próxima da paródia – não do pastiche, que não inclui humor, nem de de uma obra ou estilo específico, e sim pela consciência aguda de percorrer um território já explorado, e por isso mesmo poder olhá-lo tão familiarmente, não levá-lo a sério, tomar com ele tantas liberdades: Pois já fizeram coisa boa no passado / Que eu misturo como eu quero / Com mais tudo que eu quiser.

E como chave de ouro, a crise da música no século XX aporta com tudo. O encerramento repete e deseja ao público: dodecafonia, dodecafonia, o sistema de organização não tonal das doze notas musicais criado por Schoemberg. Tendo a palavra dodecafonia seis sílabas, sua repetição em notas que não se repetem criam uma série dodecafônica – ou melhor, uma paródia desta, pois inserida num universo tonal que a desmoraliza totalmente. Nada que Arrigo Barnabé já não tenha feito de verdade. A massa ainda comerá o biscoito fino que fabrico. 66 sintetiza em metalinguagem o ofício cotidiano do músico popular: reciclar o velho em novo, inovar repetindo, reinventar a tradição, ser descartável e perdurar. Um leão por dia em versos musicados. E de novo, e de novo. Pra você.

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Um comentário em “Nada de novo, tudo de novo em 66

  1. Mauro Aguiar disse:

    Entre a cruz e caldeirinha, Adorno já declarava sobre a música ligeira ( música industrial popular de mass media ) em “Introdução à Sociologia da Música”:

    “A função do elemento assincrônico dos bits, bem como o vínculo entre a sagacidade e uma produção frivolamente inadequada e um tanto diletante, deve ser compreendida no sentido de que a música ligeira, que não se mede senão pelo seu efeito sociopsicológico, tem de satisfazer, graças a tal efeito, a desideratos que se opõem entre si. Ela tenciona, por um lado, chamar a atenção do ouvinte, diferenciando-se de outros bits quando precisa vender-se e alcançar plenamente o ouvinte. Por outro lado, não deve ultrapassar o habitual a fim de não repeli-lo: a música ligeira tem de permanecer despercebida e não extrapolar aquela linguagem musical que parece natural ao ouvinte médio visado pela produção, quer dizer, a tonalidade da época
    romântica, ainda que esta, em todo caso, possa estar apetrechada com acidentes impressionistas e outras alterações tardias. A dificuldade com a qual se depara o produtor da música ligeira é ade equilibrar tal contradição, escrever algo que seja impregnante e, ao mesmo tempo, popularmente banal.”

    Aí, aquela geração de 60/70 vem e faz forma e conteúdo novos, com fórmulas antigas preservadas e expandidas, estruturas remexidas, temas virados do avesso mil vezes. Liam a vida e não as telas. Perguntem a eles: como? Polissemia, sempre! Beatles e Chico Buarque, Cartola e Bob Dylan, Stones e Luís Gonzaga, Caetano e Sidney Miller, irmanados pelo mergulho na diferença que brota das entranhas do mesmo. O mundo ainda dá muito pano pra manga. As palavras estão lá em forma dicionária ou em forma salivar para o apetite dos criadores. Quem chegar por último é mulher do podre.

    Abração, Túlio.

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