Imaginando o que o menino quis dizer

Maurício Pereira tem um grande talento para resumir suas canções em uma ou duas palavras. Para ele, Imbarueri, feita para os Mulheres Negras (a segunda menor big band do mundo, composta por ele e André Abujamra), é um sonho. Um dia útil, uma noite de insônia. E Mergulhar na surpresa, canção título do seu álbum de 1998, uma foto.

Discordo. Não é foto, mas é realmente cinematográfica. Um curta metragem de alguns segundos, ou três minutos, que é a sua duração, ou dez, como indicado na letra. Ou talvez realmente uma foto, porque nestes dez minutos muito pouca coisa acontece, externamente ao menos. Antes que uma foto, Mergulhar na surpresa é um momento de suspensão do tempo, um curta-metragem de um aftershock, dos segundos imediatamente após o impacto, em câmera lentíssima.

Mergulhar na surpresa é uma canção inteiramente construída como preparação para a revelação de uma única frase. Mas o pulo do gato desta canção está no que ela não diz, ao passar mais da metade de sua curta letra descrevendo o redor em seus mínimos movimentos, em contraste implícito com o que ocorre no pensamento do eu lírico, que só surge no quinto verso. Enquanto isso, tudo o mais na composição descreve este pensamento que gira em torno de si mesmo, ou em torno, melhor dizendo, de uma frase desconcertante e desabridora de mundos.

A começar pelo arranjo de piano de Daniel Szafran, fundado em um motivo de apenas duas notas, ideia fixa que atravessa se adaptando suavemente às sutis mudanças harmônicas – que no entanto demoram a vir, e o acorde da tônica se repete por cinco compassos seguidos a cada vez que soa, sobrando apenas quatro compassos de um estranho ciclo de nove (mas que soa absolutamente natural) para o desenrolar dos apenas cinco acordes da harmonia.

À ideia fixa do motivo do piano, Maurício contrapõe uma melodia igualmente monotemática, mas com uma delicadeza particular, por ter quase a aparência de improvisada. A frase descendente enunciada no primeiro verso se repete com variações em todas as seguintes, ora iniciando-se terça acima, ora desdobrando-se em ornamentações, ora terminando-se ascendente, mas mantendo o mesmo desenho e conduzindo o ouvinte por um território que se anuncia familiar pela repetição, como também pela entonação coloquial de Maurício, que no entanto cuida de manter o interesse pela melodia, tanto quanto suas variações.

Mas no tema repetido pelo piano, assim como no violoncelo que vai se insinuando aos poucos e ganhando volume e intensidade, há também o suspense implícito de algo a ser anunciado. Um pensamento que vai revolvendo na cabeça e que é ao mesmo tempo enunciado e não enunciado ao longo da canção. Não enunciado em toda a letra, que se detém numa descrição fragmentada exterior, uma sucessão de enquadramentos cinematográficos (enquadrados pelas longas pausas entre os versos), como que fugindo da frase final que provocou a contemplação, ou procurando na paisagem a significação, o sentido para ela, que no entanto ainda não foi explicitada para o ouvinte. Mas sim, foi dita, pela melodia que se repete, pelo piano que a repete sem pronunciá-la.

Voltamos então ao pulo do gato. Que consiste em tratar minuciosamente de uma frase, extrair dela tudo que ela pode dar, mas antes de revelá-la e sem cometer o pecado que a estragaria – tentar explicá-la. Mauricio desdobra a frase que ouviu do menino sem aventar uma só hipótese. Sua canção nem é sobre a frase, mas sobre o que a frase causou nele. Sobre o efeito do raio paralisante que fez o mundo andar em câmera lenta, enquanto seu pensamento voava alto como os superjumbos que passavam, sobre a capacidade infantil de olhar o mundo como se fosse pela primeira vez – exatamente o que ele tenta fazer pelos dez minutos seguintes – tentativa que é a própria canção.

Mergulhar na surpresa consiste num exercício de minimalismo na canção e se apoia inteiramente na sua dicotomia básica constituinte, letra/música, brincando de esconder e mostrar com ela. O que ela esconde é seu mote principal, escondido pela letra para ser revelado no fim, e dito com todas as letras e sem nenhuma palavra pela melodia – pois toda a melodia e arranjo da canção são exatamente um mergulho na surpresa. O jogo de omissões e revelações que a estrutura é a própria representação do que ela canta, a capacidade de maravilhar-se, a contemplação do mistério, o destemor pelo desconhecido, a frase-título que Maurício passou três minutos a sublinhar tendo a sensibilidade de não tentar desvendar, limitando-se a compartilhar conosco seu fascínio. O que foi mais do que o suficiente.

Um cachorro parou na porta. Latiu.
O biscoito que eu tinha nas mãos, quebrado.
O pé de serra, a borda da mata. Lua cheia.
Quatro superjumbos cruzam o céu no espaço de dez minutos, piscando.
Na verdade ainda estou parado na porta
Com um biscoito quebrado nas mãos, imaginando.
Imaginando o que o menino quis dizer com
Mergulhar na surpresa.

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