Makely Ka e o tamanho do Sertão

PrestençãoO Sertão é do tamanho do mundo. A frase de Guimarães Rosa em sua obra prima, Grande Sertão: Veredas, é uma das mais potentes definições que posso imaginar, prenhe de tantos significados quanto o mundo pode ter. Este texto se destina a tratar de Cavalo Motor, o álbum de Makely Ka, e logo se fará claro porque o abro com este texto. Mas antes, permito-me contar duas pequenas histórias, uma de um gênio à altura de Rosa, a outra mais pessoal.

– No pequeno conto Os dois reis e os dois labirintos, Jorge Luiz Borges conta a história do rei da Babilônia, que ao receber a visita de um rei árabe, para mostrar sua superioridade  mostra-lhe o labirinto que mandou construir soltando-o lá dentro, o que o faz passar a tarde perdido entre paredes, portas e escadas. Humilhado, o rei árabe se despede, mas retorna mais adiante com suas tropas e conquista a Babilônia. Avisa então que retribuirá a gentileza, mostrando por sua vez o seu labirinto. Leva o rei vencido amarrado ao centro do deserto, e diz-lhe: Em Babilônia mostraste-me seu labirinto de bronze, com portas, muros e escadas. Pois agora mostro-lhe o meu, que não tem necessidade de nenhuma destas coisas. E abandona-o lá, onde morre de fome e sede.

– Uma vez visitei Canudos, a cidade emblemática ao norte da Bahia, pleno sertão. Deliberei conhecer as ruínas da velha cidade, e lá fui de carro com ar-condicionado, caminho de terra adentro. Acontece que tomei uma bifurcação errada, e então me meti numa estrada que não chegava a lugar algum, mas tambem não tinha fim. Depois de cerca de 40 minutos avançando rumo ao nada, eu ia sendo engolido por algo imensamente maior que eu, que se mostrava mais desafiador a cada curva que dava em mais caminho indiferente. Finalmente, humilhado, me convenci que não podia ser por ali, dei meia volta a custo na estrada estreita com cerrado alto dos dois lados e retornei.

Makely Ka afirma em uma entrevista que Cavalo Motor não é um álbum conceitual sobre Grande Sertão: Veredas. Não é mesmo. É um álbum conceitual sobre o Grande Sertão e suas infinitas Veredas. E o Sertão toma nele o tamanho que for necessário.

Makely, entre julho e setembro de 2012, partiu na expedição audaciosa e solitária de repetir, montado em sua bicicleta, a trajetória de Riobaldo Tatarana, o protagonista do livro de Guimarães Rosa, pelos vilarejos e aldeias do interior de Minas Gerais na divisa com Bahia e Goiás. O registro fotográfico e videográfico está em seu site. O ponto de partida de seu álbum está aí, mas o final se estende além, em diversos sentidos.

A primeira canção, Carrasco (o título refere-se a um dos biomas entre o cerrado e a caatinga, como informa a letra), se inicia e permanece até o fim com o som ambiente gravado por Makely em viagem, enquanto um didgeridoo, instrumento australiano, emula o berrante. É a primeira pista de até aonde a viagem pode ir. Makely não canta à capela, e sim sobre sons sertanejos gravados, que são literalmente o arranjo da faixa. Arto Lindsay, convidado por ele a fazer intervenções com sua guitarra distorcida avassaladora sobre esta canção e a seguinte, a canção-título do álbum, tem participação surpreendentemente tímida. Arto preferiu comentários discretos, como que não se atrevendo a rasgar este universo, preferindo contracenar e não competir com a gravação das cigarras na noite do sertão.

A decisão de Arto pela complementação ao invés do contraste entre entre supostos opostos dá o tom do álbum.  Além dele, um time completo de músicos – o conhecido Uakti, oscilloID (codinome eletrônico de Lucas Miranda), M-UT (idem para Patrícia Rocha) e O Grivo (projeto do duo Nelson Soares e Marcos Moreira Marcos envolvendo música, instalações e performances) – fazem suas interferências sonoras, contracenam com este fundo do sertão, seja acrescentando-lhe ou substituindo-o em outras canções, em camadas de paisagens sonoras, no dizer do próprio Makely. O ancestral e o contemporâneo convivem como a bicicleta de Makely, com um gerador de eletricidade acionado pelo seu pedalar, carrega as baterias do laptop e do celular/modem que o mantém em contato com o Mundo, de dentro do Sertão, ou que levam o Sertão a todo o Mundo.

Mas para esta convivência estética entre mundos díspares acontecer, é necessário um lugar também estético que as acolha. E este lugar é criado em duas abcissas, dois componentes que dão credibilidade a estes encontros permitindo que esta viagem Sertão adentro e afora aconteça simultaneamente: as composições de Makely, e a sua voz.

Tem que caber pra becapar / Tem que caber pra becapar / Tem que caber pra becapar no HD – o baque de maracatu, no verso tão aliterado que poderia dispensar a percussão, faz-se ouvir no meio do coco rasgado de Fio Desencapado, fazendo a fusão entre arcaico e experimental – neste caso com a divisão clara entre verso futurista e música tradicional (mas numa letra de resto bastante coloquial e até com referência urbana, confessadamente inspirada na parceria Guinga / Aldir Blanc e até com a típica coda usada por eles também em Canibaile e Baião de Lacan). Mas a fronteira fica menos clara em outros lugares, como em Ibero América, composta com referências à música árabe na península, mas que os gregos consideraram uma espécie de pagode grego…

As canções, pelo uso da modalidade, típica das tradições brasileiras, mas também da música árabe ou da música contemporânea, entre tantas outras tradições, que lhe permite traçar pontes entre elas. Pela multiplicidade de referências que podem mesmo fazer o ouvinte se perder.

Mas eu sou tão cafuso
é tanta melanina
tudo tão confuso
é muita cajibrina
entrando em parafuso
é tudo made in China
eu vou trocando o fuso
e vai mudando a rima

E lá vamos nós pelo labirinto do deserto, sem paredes para nos escorar. A poética de Makely se sustenta então pela sintaxe muito própria, com rimas a meio caminho entre o repente e o rap e uma profusão de referências díspares que, sobrepostas, dão novos sentidos umas às outras. Ele próprio avisa, d’aprés Tom Zé: eu não vim explicar / sou um complicador. Letras que à primeira audição ganham destaque diante das melodias aparentemente simples pela proximidade  da tradição popular, parecendo soluções fáceis ao ouvido desavisado, mas, a exemplo dos temas de Alceu Valença, ao contrário muito bem trabalhadas, inseridas no jogo de referências ao tomar as primeiras notas de Assum Preto, de Luiz Gonzaga, para logo torná-lo o Assum Cinza, ou a ciranda de Lia de Itamaracá para sua Roda da Fortuna; ou o coro em ôôôô das duas primeiras faixas, que retorna na antepenútima canção, Idade da Terra, como um eco de outras eras que reforça o conteúdo da letra na sequência do álbum.

E o outro ponto de encontro entre os diversos mundos, o próprio Makely, ou melhor, sua voz. Makely está longe de ser um grande cantor. Na verdade, não pode sem mesmo ser considerado um bom cantor, tecnicamente falando. Mas sua voz é o fio de barba que vale por um documento. Nela está implícita sua história pessoal, sua família sertaneja vinda para a cidade, o êxodo de mais de um século em direção às capitais e parcialmente revertido nos últimos anos. Se em Autófago, seu álbum anterior, a voz de Makely soava até certo ponto acessória, aqui ela é central, para o bem e para o mal. Seu grave muito expressivo e meio rascante, embora soe apropriadamente rústico para a crueza de seus versos, desta vez, diante de melodias mais delicadas e justamente pelos tons modais, pode dar ao ouvinte a sensação de alguma sutileza estar sendo desperdiçada. Ou, por outro lado esta mesma imprecisão por outras vezes sugere nuances talvez não pensadas na composição, assim como a imperfeição formal de cantadores, rezadeiras e mestres são também sugeridores de outras formalidades.

Este jogo de perde-ganha de uma voz não domesticada por vezes deixa questões em aberto – o que não é ruim. Mas fica a impressão de que um maior controle de seu material vocal, sem abrir mão de suas características, faria o material composicional render ainda mais do que já rende. Por duas vezes Makely recorre a vozes femininas, uma vez para terçar com ele o Itinerário Tatarana, e outra para repetir a faixa final, a curta Sertão – não por acaso, duas canções chaves no álbum. Mesmo assim, no fim das contas sua voz é a fiel desta balança, que traz em si o Sertão e o estende pelas canções, amarra as setas apontando para direções diversas e lhes dá unidade.

De certa forma, todo Cavalo Motor espelha o movimento de êxodo invertido que mencionei, tanto em termos de fenômeno populacional quanto em termos pessoais de Makely – a história de sua família e sua viagem, mas também estéticamente, depois de álbuns em que cantava primodialmente a metrópole (Autófago e A outra cidade, este em parceria com Pablo Casto e Kristoff Silva). Se Autófago era um álbum de e para a cidade, mas também sobre aquilo que persiste e permanece de sertão na cidade, Cavalo Motor faz o caminho inverso, mas como uma continuação do movimento anterior, levando para o sertão a cidade e suas programações eletrônicas e referências urbanas, mas esta labirinticamente trazendo dentro de si ainda o sertão).

Estruturalmente, três canções balizam o álbum: Carrasco, Itinerário Tatarana e Sertão. As três trazem o fundo gravado por Makely na noite interiorana; abertura e encerramento trazem, do título à letra, a descrição do ambiente – a primeira, de forma literal e quase objetiva;  a última como impressão subjetiva e quase transcedental. E quase no centro exato do álbum, como um pau de barraca sustentando o teto, o mapa do caminho, numa canção cuja letra é quase exclusivamente a lista das cidades percorridas por Riobaldo / Makely. O caminho objetivo, de bicicleta ou avião, se torna subjetivo e dá a senha para a transubstanciação do sertão. O mapa se alarga desmesuradamente para incluir não apenas a cidade grande que o visita, mas também a Nova Iorque do Baião para Gershwin, parceria com um músico de rua norteamericano; a já citada Íbero América; a Grécia que inspirou Idade da Terra, e as citações espalhadas pelas letras – bairros do Rio de Janeiro, México, Faixa de Gaza. Tudo é Sertão, assim como o ruído branco imemorial do sertão ao fundo pode ser o da eletrônica. Ou o do Big Bang. Ou os últimos versos do álbum, de Sertão:

Nada disso                                                      e além

Assim como duas histórias para abrir, duas para fechar, ambas do próprio Makely.

-Este ano, 2014, durante a Copa do Mundo no Brasil, ele tornou e embarcar com sua bicicleta em uma nova expedição, e chegou a lugares do Brasil onde a Copa era um eco distante. Mas o trajeto foi interrompido por uma boa razão. Em suas palavras, contadas no Facebook,

Eu planejei pedalar do sul do Piauí, próximo da nascente até a foz do Parnaíba. Mas cheguei aqui em Aroazes, terra do meu avô, depois de quase mil quilômetros percorridos, e resolvi que o resto do tempo que tenho de viagem vou passar com o velho Zé Honório, com quem convivo tão pouco. Meu avô nasceu em 1920 e tem uma memória prodigiosa. Aos 94 anos se lembra ainda de fatos ocorridos no início da década de 20. Ele foi vaqueiro, caçador, coletor de impostos, prefeito e continua sendo um ótimo contador de histórias. Vou ficar aqui na varanda, quieto, só ouvindo.

– Os últimos versos do álbum na verdade não são os que encerram a letra de Sertão, e sim os da rezadeira Dona Belizária, gravados in loco enquanto ela os pronunciava para benzer o pé inchado do cinegrafista que filmou um trecho da viagem. Vale a pena conhecê-los inteiros e seu trajeto de expurgo do mal de dentro para fora com pontos em comum com a medicina oriental, embora a incompletude deles no fade out seja igualmente significativa das profundezas inexploradas destes saberes:

Enzipa enzipela
Sai do tutano vai pro osso
Sai do osso vai pra carne
Sai da carne vai pro nervo
Sai do nervo vai pro sangue
Sai do sangue vai pro couro
Sai do couro vai pra pele
Sai da pele vai pra zona do mal
Com o poder de Deus
Enzipa, nem maldita, nem enzipela vale nada
O que vale é o poder de Deus
Que veio ao mundo pra nos ajudar
Te livra de todo o mal que tiver
Da cabeça aos pés

O avô e a benzedeira contam suas histórias, e sempre há uma que não conhecemos. Neles os caminhos se abrem e se fecham. Indo, vindo, de onde para onde? Sem direção de casa. Sertão é dentro da gente. O sertão não tem janelas, nem portas. O sertão é sem lugar. Tudo é labirinto, mas não estamos perdidos. Cidadãos do mundo, estamos sempre voltando para casa. O mundo é do tamanho do Sertão.

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Um comentário em “Makely Ka e o tamanho do Sertão

  1. Damiana Campos disse:

    Certeiro assim.
    Ouvi falar sobre Makely pela primeira quando soube que um moço doido saiu lá de Belo Horizonte e veio parar aqui em Chapada Gaúcha de bicicleta, atravessando areião e cortando gerais. Diziam que ele era músico, mas que gostava era de sair por este Sertão a fora de bicicleta ouvindo e contando prosa. No rastro de quem anda e de quem encontra, encontrei o moço meses depois. Daí pra frente, foram andanças e muitas lutas pelo Cerrado, pelo Sertão Gerais.
    Parabéns pelo texto e pela sensibilidade aqui trazida.
    Seguimos em frente por mais cavalos motores.

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