O cante sem mais nada

Se diz a palo seco cante sem guitarra; o cante sem; o cante; o cante sem mais nada; se diz a palo seco a esse cante despido: ao cante que se canta sob o silêncio a pino.

(O poema A Palo Seco, de João Cabral de Melo Neto, do livro Quaderna, de 1960, pode e deve ser lido inteiro aqui.)

Cante – Utilizado como abreviação de “Cante Flamenco”, denomina o conjunto de composições musicais em diferentes estilos que surgiram entre o último terço do séc. XVIIIe a primeira metade do séc. XIX, devido à justaposição de modos musicais e folclóricos existentes na Andaluzia. Palo – Nome que recebe cada estilo de cante. Palo Seco – Estilos de cante sem o acompanhamento da guitarra. (fonte: site Cuadra Flamenca)

Em 1973, no álbum O Romance do Pavão Mysteriozo, Ednardo canta A Palo Seco. https://www.youtube.com/watch?v=YzHV7-YGtm0 Não literalmente. Ao contrário, Ednardo se faz acompanhar pela guitarra – não flamenca, mas elétrica – de Heraldo do Monte, arranjador do álbum ao lado de Hareton Salvanini e Isidoro Longano. A Palo Seco, a canção, não tem nenhum elemento musical relacionado ao cante flamenco – nem mesmo o violão rasgueado de acompanhamento da primeira parte, nem a harmonia, nada. Nada, a não ser seu espírito. Nada, a não ser a crueza tanto de seus versos quanto de sua interpretação. Nada, a não ser a guitarra de Heraldo dando a primeira nota como uma faca cortando a carne. Ou a virada feroz da bateria para a entrada na segunda estrofe. Nada a não ser a voz rascante de Ednardo (o pássaro araponga / que inventa o próprio ferro, no dizer de João Cabral), sem vibrato, às vezes descalibrada, e que termina a canção no fade out da guitarra (que retorna adiante hendrixiana para o golpe final) cantando à capela, sem acompanhamento. A Palo Seco. 1973. Ednardo canta: Tenho 25 anos de sangue, de sonho e de América do Sul. Em 1973 iniciam-se as ditaduras civil-militar uruguaia (27 de junho e chilena (11 de setembro), esta com o golpe de Augusto Pinochet pondo fim à experiência de socialismo democrático de Salvador Allende. Na ditadura chilena foram torturadas quase 40 mil pessoas. No Brasil, vigoravam os Anos de Chumbo, período mais sangrento da repressão, que só terminaria junto com o governo Médici, em março de 1974. 1973. Ednardo canta: Por conta deste destino, um tango argentino me cai bem melhor que o blues. Em 1973, encerra-se uma das encarnações da ditadura argentina (iniciada em 1966), com a eleição do candidato peronista Hector J. Cámpora (25 de maio). Porém, o percurso da democracia continuaria acidentado. Ele renunciaria logo depois em prol de novas eleições em que Perón, impedido pelos militares na primeira, pudesse concorrer. Perón vence as novas eleições, mas morre menos de um ano depois, sendo sucedido por Isabelita Perón, sua vice. E em 1976 Isabelita é deposta por outro golpe, e um novo período ditatorial se estenderia agora até 1983. E em 1976, Belchior apresenta sua versão para A Palo Seco no álbum Alucinação.

Diante da contundência da gravação de Ednardo, o canto de Belchior soa suave, quase melancólico. O grito áspero e a guitarra distorcida são substituidos por uma cama de teclados e a voz anasalada que em alguns momentos parece sequer levar a sério o que ela própria diz. Aqui cabe uma curta análise melódica: se os versos citados nos parágrafos anteriores são os de notas mais agudas da canção, externando claramente os momentos de maior tensão (além deles, os versos finais se iniciam na mesma nota aguda – trato deles mais tarde), já os versos intermediários sei que assim falando pensas que esse desespero (expresso nas notas agudas) é moda em 73 (76 para Belchior) recuam para uma região mais grave, como se ditos num aparte ao próprio discurso. Na voz de Ednardo, este verso soa como uma fraca contraposição, em que a hipótese é desvalorizada: mesmo que o ouvinte pense isso, está errado. Já cantado por Belchior, a possibilidade de este desespero ser realmente algo não tão levável a sério se torna mais real, como se ele se permitisse de algum modo zombar do próprio desespero. No próprio verso que compara o tango argentino ao blues americano, que em Ednardo tem ares de luta antiimperialista (a discussão paralela de que o blues, lamento negro tanto quanto o tango, seria também a música do explorado, e assim a dicotomia aqui seria mais sutil, entre os explorados daqui e os de lá, corre paralela), em Belchior a menção ao tango ganha ares dramáticos no limite do kitch. É incrível pensar que estas mudanças de significação não tão sutis ocorrem não apenas por causa das mudanças de arranjo, mas sim de intérprete, e a carga pessoal que eles trazem para a canção. E mais interessante é perceber que tanto Ednardo quanto Belchior têm em suas canções e gravações implicações políticas de teor próximo. Então de onde vem a diferença tão clara entre as duas leituras? Penei até me dar conta. Em Belchior a dimensão existencial se sobrepõe à política. E aqui me ocorre imediatamente a ligação direta que há entre o canto geracional de Belchior, citando diretamente a juventude (e de forma às vezes irônica) ou falando em nome dela em várias canções: que coisa adolescente, James Dean (Medo de avião); Nunca mais meu pai falou: “She’s leaving home” e meteu o pé na estrada, “Like a Rolling Stone…” (Velha roupa colorida); Saia do meu caminho, eu prefiro andar sozinho, deixem que eu decida a minha vida (Comentário a respeito de John); mas mais que todas, Minha dor é perceber que apesar de termos feito tudo, tudo o que fizemos, ainda somos os mesmos e vivemos como nossos pais (Como nossos pais). Em todas elas, a crônica de uma juventude belíssima e libertária, porém desperdiçada ou em vias de sê-lo. Uma geração perdida, entre outras coisas, na luta armada. Mas algo de caráter eminentemente político como este fato, sem que lhe seja negada esta dimensão, tem seu efeito individual, sua vivência pessoal ressaltada antes do caráter coletivo. Outro exemplo, de Galos, noites e quintais:

Eu era alegre como um rio, um bicho, um bando de pardais; Como um galo, quando havia… quando havia galos, noites e quintais. Mas veio o tempo negro e, à força, fez comigo o mal que a força sempre faz. Não sou feliz, mas não sou mudo: hoje eu canto muito mais

A referência ao golpe militar aí é óbvia. Mas por incrível que pareça, não é o foco. Não se trata da típica linguagem cifrada da MPB de oposição à ditadura e às voltas com a censura, mas a descrição do efeito destes acontecimentos sobre o eu lírico – ainda que não deixando de lado a ação política e a luta, como os versos finais deixam claro. Esta característica de Belchior imprime sobre toda sua leitura de A Palo Seco seu viés particular. Seu desespero não é tanto pelos rumos do país ou mesmo da América do Sul, mas da própria vida e de sua geração neste cenário de incompreensão. Esta leitura pode a princípio parecer desengajada ou mesmo alienada, e portanto de pouco alcance poético. Ledo engano. Cantar a juventude e sua trajetória, criticamente inclusive, é uma das armas de longo alcance artístico do rock’nroll. Quero uma balada nova falando de brotos, de coisas assim, diz Belchior (em Todo sujo de batom). Smells like teen spirit, diria Kurt Cobain anos depois. Mas no Brasil, a banda que mais se aproximou da capacidade de leitura geracional de Belchior, inclusive com a característica de sua crítica política eventualmente ficar encoberta por ela, foi a Legião Urbana, que não por acaso é responsável pela verdadeira atualização de Como nossos pais que é Pais e Filhos. Muitos paralelos poderiam ser feitos aqui entre Belchior e Renato Russo, incluindo as múltiplas referências literárias espalhadas por suas canções (Belchior, além de dialogar diretamente com Beatles e outras bandas, cita Hemingway, Edgard Allan Poe, Olavo Bilac, e por aí vai. Já o próprio título Pais e Filhos é o da obra prima do escritor russo Ivan Turgenyev). Mas o que mais importa aqui é a visão de juventude de ambos, mesmo algo romântica, e uma forma de cantar seus dilemas que no caso da Legião contribuiu decisivamente para a formação de um público fiel e que se renova, mesmo anos depois da morte de Renato. Pois, como a vida dá voltas, mais adiante uma banda com características próximas – talvez devamos dizer herdadas – da Legião veio interferir novamente na leitura de A Palo Seco.

A característica herdada de Legião pelos Los Hermanos não é tanto a poética ou a forma musical (sim, ambos bandas de rock, mas de características diversas – já tratei um pouco destes aqui), mas a legião (com trocadilho) de seguidores que se identificaram com sua poética… geracional. E são os Hermanos que vão resgatar (palavra que detesto, aliás, que ninguém a tinha sequestrado) A Palo Seco – e segundo eles próprios, partiram da gravação de Belchior, o que faz todo o sentido. A primeira vez que a apresentam em público é num programa chamado Sarau MTV, com um arranjo acústico aproximado do reggae que torna a canção surpreendentemente leve, em contraposição com sua letra densa. Mas a versão acima, apresentada no programa Altas Horas em 11 de maio de 2003 com o próprio Belchior, é surpreendente por outros e melhores motivos. Porque nela, além da visão existencialista que motivou a retomada, a característica crítica e a voz rascante da versão de Ednardo é novamente ouvida, e o desespero existencial é Belchior é respondido. Ednardo é ouvido na voz leve de Marcelo Camelo e em sua guitarra que volta e meia abandona a levada do reggae para se desabrir em peso. E os metais do arranjo ressoam a melancolia da gravação de 1976 no espírito dos fãs dos Hermanos e Legião, que cantaram ironicamente: Deixa eu brincar de ser feliz / Deixa eu pintar o meu nariz (Todo carnaval tem seu fim). Mas a exultação contagiante de Belchior no palco não deixa dúvidas: a geração seguinte sempre redime a anterior, ainda que para incorrer nos mesmos erros mais tarde. Mas há ainda algo, que não é da voz de Ednardo nem de Belchior, que se impõe nesta versão renovada. É o retorno do Palo Seco, o cante. Não o cante em si, sem acompanhamento da guitarra, à capela. Mas a contundência invocada por João Cabral de Melo Neto nos últimos versos de seu poema. Pois João Cabral, o poeta que diziam não gostar de música (e que no entanto descreve tão magnificamente uma forma musical, ainda que nela a expressividade venha paradoxalmente do silêncio que a acompanha), já ao final de cuida de estender o conceito do que descreve:

A palo seco existem situações e objetos: Graciliano Ramos, desenho de arquiteto, as paredes caiadas, a elegância dos pregos, a cidade de Córdoba, o arame dos insetos.

E é esta contundência, força estética capaz de sobrepujar interpretações em busca de algo mais profundo, que retorna no coro que encerra esta versão conjunta – ou que se faz mais potente, mas na verdade nunca deixou a canção. Pois a frase final de A Palo Seco, com sua melodia iniciada logo na nota mais alta, em três intervalos ascendentes seguidos como facadas – E eu quero é que esse canto – para logo depois descer uma quarta, porém permanecendo suspenso na harmonia – torto feito faca corte – até o fim da frase, até cravar-se finalmente na carne de vocês, este último e quilométrico porém lacônico verso, que vai sendo atrasado ritmicamente em relação ao acompanhamento – este verso, que remete a outros poemas de João Cabral como Uma faca só lâmina, ele por si só contém em si a definição de a palo seco. E esta se faz ouvir, para além de questões políticas ou existenciais. Para além de compreensões ou anállises, como João Cabral gostaria, a pura sensação. O cante. O canto.

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2 comentários em “O cante sem mais nada

  1. Caro Túlio,
    por favor não entenda como se eu estivesse a apontar uma “falha” em seu texto, de resto muito bom. Mas talvez você não saiba que Fagner também gravou a canção, se não me engano em seu segundo LP, Ave noturna (não tenho mais o disco, cito de memória).

    Parabéns por mais este texto.
    Um abraço

    • Roberto, de modo algum vou entender contribuições como apontar falhas, e se fosse isso ficaria agradecido, de qualquer modo. O critério de escolha das gravações a abordar é sempre difícil, e não é possível tratar de todas sem tornar o artigo superficial. Neste caso, escolhi a do autor, por motivos óbvios; a do Belchior por ter sido a de maior sucesso, e a dos Hermanos pela ressignificação que fez, anos depois. Mas a gravação do Fagner (é do Asa Noturna mesmo, de 75) é também crua e urgente, bom lembrá-la. Abraço e esteja sempre em casa por aqui.

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