Discoteca Brasílica – Praia-Palma, De ponta a ponta tudo é

discoteca brasílica Lá pelo meio de Terra em transe, uma das obras primas de Glauber Rocha, uma tomada de câmera mostra, visto de lado, um palanque vazio, pronto para ser ocupado para um comício. A câmera gira para a esquerda, e então é vista uma imensa multidão expectante. Uma tomada rápida, de apenas alguns segundos, e que não volta a se repetir. O que é bastante estranho, pois é sabido que Glauber, autor da famosa frase-definição do Cinema Novo (tanto de sua riqueza conceitual quanto de sua pobreza financeira), uma câmera na mão e uma ideia na cabeça, não teria como contratar uma quantidade de pessoas como aquela apenas para uma cena tão curta. Dá para desconfiar que esta tomada não foi feita para este filme. E não foi mesmo. A origem desta curta cena, preparativa da campanha política a governador do estado do Alecrim na república de Eldorado, é o documentário feito por Glauber no mesmo ano, logo antes, Maranhão 66, em que é retratada a posse para seu primeiro mandato do então jovem governador do Maranhão, José Sarney (aliás, a bandeira do Maranhão é visível à direita da tela logo no princípio da tomada). Segundo conta o próprio Sarney, ele convidou Glauber para fazer o registro do acontecimento (outra versão, mais plausível, diz que ele teria convidado Luiz Carlos Barreto, que por sua vez chamou Glauber). Glauber, porém, em vez do esperado vídeo laudatório, publicitário convencional, alterna as imagens do palanque com outras retratando a miséria do estado, sob o fundo do discurso otimista e populista de Sarney. O resultado é inesperadamente dúbio: será um filme em que o discurso de Sarney, que cita as misérias retratadas, é levado a sério, e portanto positivo para o político? Ou será um filme denúncia, em que o discurso de Sarney é desmascarado pelas imagens? Impossível decidir com absoluta certeza. As imagens corroboram e contradizem uma e outra possibilidade, mas esta indefinição é mais destruidora que qualquer certeza panfletária. Sarney o elogiou vivamente, mas depois sabotou sua distribuição. No fim, por mais que registro do nascimento de uma dinastia quase feudal que ainda permanece dominando grande parte do estado, ainda que tendo perdido as últimas eleições, valesse por si historicamente, a leitura aberta que Glauber faz torna Maranhão 66 um filme de valor inestimável – e que de resto serviu como laboratório para Terra em transe, onde estas questões foram levadas muito adiante. (aqui, uma boa crítica de Maranhão 66). E aqui, o próprio.

Este continua a ser um blog de análise musical voltado para a canção. Mas a menção a Glauber e, mais precisamente, a estes dois filmes, se justifica porque eles – e mais particularmente Terra em transe, de que ainda falaremos – vieram à minha mente imediatamente ao ouvir as canções de Thiago Amud. Antes ainda de tratar da que dá título a este texto, e que nomeia seu segundo álbum, é preciso falar da canção de seu primeiro álbum, Sacradança, e que me despertou primeiro esta questão: A marcha dos desacontecimentos.

A marcha dos desacontecimentos é uma marretada. E o mais surpreendente é que seja uma marretada voltada para a esquerda do espectro político, mas sem por isso se identificar plenamente com o outro extremo deste espectro. Neste sentido, parafraseando e invertendo a famosa frase de Fernando Collor, ela deixa a esquerda indignada e a a direita perplexa. Sua crítica terrível a grande parte das estratégias de pensamento e ação da esquerda (em especial talvez a chamada esquerda festiva, citada quase nominalmente nos abraços à Lagoa), denuncia o que esta tem de inócuo e inútil, o que nelas não passa de tentativa vã e egoísta de tranquilizar a própria consciência. Não por acaso, aproveita o formato festivo da marcha carnavalesca (que no entanto foi e é meio de crítica política) e transfigura-o num arranjo de guitarras cheio de tensão, não bastasse a melodia de curvas inesperadas característica de Thiago, e de que falaremos adiante. E não à toa o clipe gravado no meio do Cordão do Boitatá, bloco carnavalesco carioca. O próprio Thiago explica em entrevista, falando de sua subversão do termo MPB em Música Purgatorial Brasileira:

Às vezes escrevo canções diabólicas, não como adesão a potências disruptivas, mas, ao contrário, para exibir em tons sinistros o avesso da bondade, a fim de que esta ressalte como absolutamente necessária. É uma máscara, um jogo dramático (N. do T. Notar as máscaras alegre/triste do clip da Marcha). Foi assim que fiz Sal Insípido, A Marcha dos Desacontecimentos, mais tarde A Marcha do Grande Lider (…) E é assim que tramo diversos arranjos: sinto que eles são a metade agônica de um silêncio luminoso que ainda virá.

A posição de advogado do Diabo, porém, não deve ser confundida com a de franco atirador. A produção de Thiago não se presta a ser uma metralhadora giratória, e Thiago recusa o papel de enfant terrible. O que não a torna mais confortável, não apenas para ele, mas para seus alvos principalmente. Como em Glauber, o fato de Thiago recusar-se à tentação de tomar partido amplifica a virulência de sua crítica. E a Marcha dos desacontecimentos não deixa de ser uma boa porta de entrada para compreendermos os procedimentos musicais de Thiago, e os caminhos tomados por sua música. E aí tenho de passar a um relato pessoal, que foi o que me permitiu entendê-los melhor. Conheci Thiago pessoalmente neste carnaval, não no Cordão do Boitatá, mas num semi-retiro no interior. Passei uma tarde em companhia dele, seu pai, músico amador de diversas e divertidas composições, e o violonista Luís Carlos Barbieri. Uma tarde agradável falando de música e fazendo um quadrado de violão (uma roda com quatro…), revezando-nos em canções próprias ou de autores que admiramos. Thiago então tocou, reproduzindo harmonias e arranjos em nível de detalhe reverente e delicado, composições de Tom Jobim (As praias desertas, Derradeira Primavera), Dorival Caymmi (Sargaço mar) e Edu Lobo (não lembro ao certo, talvez Choro Bandido), entre outras, que se inscrevem na linha principal da tradição da MPB. A demostração do conhecimento aprofundado de Thiago de algumas das composições mais arrojadas destes compositores, serviu então a meus ouvidos como uma ponte perfeitamente trafegável para suas próprias. E ficou claro para mim que, embora a uma audição apressada as melodias enviezadas de Thiago possam soar como uma negação do cânone, são justamente o contrário, o seu corolário, a demostração do quão longe ele pode chegar. Thiago não é um iconoclasta. O que ele faz é desenvolver o lado obscuro da tradição, mas com a intenção nítida de levá-la adiante. Num certo sentido, até um conservador. Porém, um conservador que leva corajosamente a tradição às últimas consequências, a ponto de não conservá-la – contradição que se resolve na prática. Assim também, a letra da Marcha dos desacontecimentos combate com fúria o relativismo pós-moderno – na medida em que este se torna um bom pretexto para o imobilismo, ou para a ação meramente mimética. Seguimos então para Terra em Transe. Glauber Rocha com a palavra:

Eu detestava todas as coisas apresentadas em Terra em Transe, filmei com certa repulsão. Lembro-me do que dizia ao montador: estou enojado porque não acho que haja um único plano bonito neste filme. Todos os planos são feios, porque se trata de pessoas prejudiciais, de uma paisagem podre, de um falso barroco. O roteiro me impedia de chegar à espécie de fascinação plástica que se encontra em Deus e o Diabo. Às vezes, pode ser que eu tenha tentado escapar a este ambiente, mas o perigo consistia em atribuir valores aos elementos alienados.

Terra em Transe é certamente um filme inovador. Caetano Veloso chega a afirmar no livro Verdade Tropical que se o tropicalismo se deveu em alguma medida a meus atos e minhas idéias, temos então de considerar como deflagrador do movimento o impacto que teve sobre mim o filme Terra em transe. Porém, antes de cairmos na dicotomia inovador / conservador, notemos o que há em comum entre ele e boa parte da música de Thiago, a busca pelo lado obscuro, mesmo feio, de uma estética. Aliás, Caetano mesmo, falando da Tropicália mais tarde, afirma que, enquanto compositores tradicionais como Tom e Chico continuavam buscando uma arte do belo, ele, Gil, Tom Zé procuravam uma que fosse de alguma forma feia. A divisão apolíneo / dionisíaco pode soar dicotômica aqui – e não deixa de ser. Mas é possível pensar que Thiago, tendo seguido o caminho de Tom e Chico, tenha tomado mais tarde a bifurcação, permitindo esta decisão uma infinidade de possibilidades – inclusive o trânsito entre estes dois caminhos. Além disso, Terra em Transe é o marco da filmografia brasileira que é por sua capacidade de captar o zeitgeist de sua época. Há nele o retrato de uma busca identitária, mas uma busca ferozmente crítica. Nada, ninguém se salva. Nem o político reacionário e golpista, nem o populista de esquerda, nem o dono dos meios de comunicação, nem mesmo o intelectual/artista perdido em meio à barafunda de relações perigosas, imaginando-se capaz de influenciar o rumo dos acontecimentos, mas apenas servindo de joguete de forças maiores. Há muito em comum entre o teor crítico da Marcha dos Desacontecimentos e o de Terra em Transe; porém este, pela envergadura da obra, alcança um círculo muito mais vasto. E então chegamos finalmente à canção título do segundo álbum de Thiago e deste texto.

Por que lembrei quase imediatamente de Terra em transe ao ouvir De ponta a ponta, a canção? O título do filme é citado na letra, entre muitas outras obras, e já falarei desta sequência de citações. Mas antes fala Thiago, em entrevista ao Brasil Post.

Minha relação com o Brasil é conflituosa justamente porque, embora eu leve em conta que os ‘gerentes’ do Estado e os ‘engenheiros comportamentais’ da Mídia de massas vivem agenciando certos mitos culturais para que o país se mantenha docilmente administrável, sei que nem todos esses mitos são fabricados a partir do nada. Creio que existe uma latência, uma vida especificamente brasileira. Se sua manipulação rende dividendos políticos e econômicos para os agentes do poder, eis um excelente motivo pelo qual precisamos estar aptos a reconhecer onde a sociedade é ela mesma: que modos originais de convívio, trocas e valorações foram formando sua singularidade. Somente assim poderemos identificar as possíveis pretensões totalizadoras e manipuladoras do Estado, dos mega-agentes econômicos e da grande mídia. (e complementando o aforismo de Simone Weil que está no encarte do álbum, “Mas uma nação como tal não pode ser objeto de amor sobrenatural. Ela não tem alma. É um grande animal.”): “A caridade pode e deve amar, em todos os países, tudo o que é condição do desenvolvimento espiritual dos indivíduos”. É preciso que saibamos amar o que nesse país deve ser amado.

O que Thiago fala poderia ser aplicado com pouquíssimas adaptações a Terra em transe, inclusive a enumeração dos agentes do poder. De formas diversas, Terra em transe e De ponta a ponta são alegorias de Brasil. Se Glauber sintetiza em personalidades as grandes correntes de poder e suas relações, pintando um quadro expressionista, Thiago faz em sua canção uma espécie de inventário do imaginário brasileiro, via obras que ajudaram a forjá-lo. A lista de referências sutis em sua letra é significativa: Além da carta de Caminha no título e o filme de Glauber, Mário de Andrade em Macunaíma (Muita saúva e pouca saúde, os males do Brasil são.); Asa Branca, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira; Sei lá, Mangueira , de Paulinho da Viola e Hermínio Bello de Carvalho; Canção do exílio, de Gonçalves Dias; Maracangalha, de Dorival Caymmi; Grande Sertão: Veredas, de Guimarães Rosa; e possivelmente deixei passar outras. Mas a paisagem pintada por Thiago não tem apenas elementos na letra. Desde o pandeiro melancolicamente solitário que a introduz e encerra, num uso da percussão que é muito bem apontado por Pedro Cazes em seu magnífico ensaio sobre o álbum, substituindo a costumeira levada que facilmente identifica o estilo por arranjos de acompanhamento com uma dinâmica rítmica fragmentada, recortada, recusando estereótipos e idiossincrasias neste reconhecimento de terra estranha (uma cena do filme de Glauber traz o senador golpista, ao assumir o poder, aportando numa praia deserta. Avança com uma bandeira negra, acompanhado por um sacerdote e um homem com uma fantasia de carnaval em que logo reconhecemos uma estilização da corte portuguesa. É recebido por um índio, também estilizado, sob um cruzeiro. A cena é acompanhada por um canto de terreiro de candomblé, talvez sinalizando o elemento ainda ausente neste momento do descobrimento redivivo. Mas a canção de Thiago me soa como uma trilha sonora perfeita para esta cena). Assim também, ao iniciar a parte B, que faz as vezes de refrão, enquanto o acompanhamento rítmico passa a soar dobrado, a divisão da voz de Thiago, em estrofes que culminarão falando do inferno no céu ou do Grande Sertão, segue sempre propositalmente atrasada em relação a ele, numa sucessão de tempos acéfalos que chega ao desconfortável, como algo que avança aos trancos, que avança sempre na direção de um anticlímax, terminando numa cadência harmônica que se estende sem se resolver. Como em Glauber, não é possível classificar o discurso em direita e esquerda. É algo além. Glauber faz a crítica não sistemática e simultânea de todas as tendências políticas brasileiras ao retratá-las imbricadas e ao mesmo tempo costuradas numa espécie de imperativo cultural maior. Este retrato emaranhado é o que Thiago faz. Mas Thiago deixa para trás as disputas políticas para abarcar – ou talvez a palavra correta seja apenas vislumbrar – o fenômeno de formação e destruição contínua de um país – aqui tudo parece que é ainda construção e já é ruína, disse Caetano Veloso. O pandeiro que termina a canção, após a repetição do verso inicial, é o mesmo que iniciou? A praia deserta do início dá lugar a um cenário de devastação? E no entanto, De Ponta a ponta é, ao fim e ao cabo, uma canção de amor, que se recusa a um olhar distanciado, mas, ao contrário, aproxima-se desmesuradamente de seu objeto, até mostrar a quantidade de fios e ligações internas e antigas entre aparentes forças opostas, o retrato detalhado de um nó inextrincável – o que não deixa de trazer o tempero de uma certa desesperança. Porém, ai, porém, assim como a construção se torna ruína, da ruína pode surgir o imponderável. Ou, nas palavras de Glauber:

Terra em Transe é um filme sobre o que existe de grotesco, horroroso e pobre na América Latina. (…) Temos que afrontar nossa realidade com profunda dor, como um estudo da dor. Não existe nada de positivo na América Latina a não ser a dor, a miséria, isto é, o positivo é justamente o que se considera negativo. Porque é a partir daí que se pode construir uma civilização que tem um caminho enorme a seguir.

Ou nas palavras de Thiago, respondendo à pergunta Por que compor?

Compor para conduzir os impulsos inventivos por entre fantasmas, espelhos, antepassados. Assim talvez possamos esconjurar o desespero, que é a vitória do ‘sem sentido’.

E lembro imediata e novamente de Paulo Martins, personagem de Jardel Filho em Terra em transe, o jornalista e poeta que se arvora em tentar influenciar os destinos de seu país e perde-se na rede de intrigas que ajuda a tecer, abdicando da poesia por um fazer que o destrói. Thiago procura o outro caminho, tornando seu fazer artístico sua própria forma de atuar na construção do imaginário que reúne em si. Em seu álbum De ponta a ponta tudo é praia-palma, centralizado na canção que o nomina, realiza um ambicioso mas não exaustivo inventário do imaginário de um país que se constrói pela imagem de si mesmo, para se demolir ali adiante e recomeçar. Devastação, a canção seguinte, é aberta pelo violoncelo fazendo a frase inicial de Matita Perê, de Tom Jobim e Paulo Cesar Pinheiro, mas estendendo-a para o agudo, como que tomando-lhe o bastão. Passos seguintes no inventário que nunca termina.

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Um comentário em “Discoteca Brasílica – Praia-Palma, De ponta a ponta tudo é

  1. Senti, ao ouvir e conversar com o Thiago aqui em BH na 4a. mostra de Cantautores, isso mesmo que vc colocou muito bem Túlio. Devastação e construção, outro caminho que seria possível mas não havia sido, e já que você tocou em alegoria, inevitável pensar no conceito de história a contrapelo de Walter Benjamin. Nesse país entre falências e desatinos, ainda podemos inventar o sol. De novo.

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