A canção do fim do mundo (como o conhecemos)

Document, de 1987, foi o quinto álbum do R.E.M, e o que deu à banda projeção mundial, principalmente graças à canção The one I love, frequentemente interpretada erradamente como uma canção de amor convencional, a despeito dos seus únicos três versos trazerem outra visão: Esta vai para aquela que deixei para trás, um jeito simples de passar o tempo. Mas o álbum trouxe também outra canção, de feitura mais complexa e interpretações ainda mais interessantes.

It’s the end of the world as we know it (and I feel fine) é um retrato caótico do caos. Com sua letra quilométrica recitada em alta velocidade e linha reta, cria uma sensação vertiginosa – não por acaso, capaz de incendiar as pistas de dança das casas noturnas desde sempre. Dançar enquanto o mundo acaba: realização do título e refrão da canção. Mas antes de analisá-la, há uma história de sua composição a ser contada. It’s the end… é originária de outra canção do REM, composta em 1984/85, porém gravada apenas em 2003, como bônus numa coletânea do grupo. Inicialmente chamada PSA (Public Service Announcement, ou seja, Anúncio de utilidade pública, acabou recebendo o nome definitivo de Bad day.

A semelhança entre as duas é flagrante. Mesmas cadências, letras igualmente discursivas tratando do estado de fim dos tempos nos dias de hoje. Mas com uma diferença sutil no tratamento: Bad day apresenta a marcha dos acontecimentos (As luzes apagaram, o óleo secou / Nós culpamos outro cara) que vai desembocar no colapso, os momentos imediatamente antes do fim (Ugh, isto significa guerra), It’s the end… parece descrever o próprio apocalipse acontecendo em tempo real. Interessante notar que o clipe de Bad day, de 2003, mostra Stipe os demais integrantes da banda como apresentadores de um telejornal, como todos os tiques típicos, relatando um evento incomum: tempestades e furacões passam a acontecer dentro dos edifícios, e não fora. A situação cômica é ela própria perfeitamente cabível na não-sequência de acontecimentos de It’s the end…, como um prelúdio póstumo a ela.

Por sua vez, Peter Buck, guitarrista da banda, disse uma vez que classifica It’s the end… como uma canção na tradição discursiva de Subterranean homesick blues, canção de 1965 de Bob Dylan.

Subterranean homesick blues não é a primeira canção discursiva, ora, mas tem em comum com as duas canções do REM, mais as referências múltiplas, um modo de se dirigir diretamente ao ouvinte dando-lhe comandos quase sempre irônicos – Não siga líderes / Observe os medidores dos parquímetros, ou Tente evitar escândalos / Não queira ser um vagabundo. Ou em It’s the end…, Acenda uma vela, faça uma promessa ou Ofereça-me soluções, ofereça-me alternativa / E eu recuso. Em ambos os casos, o eu-lírico não acredita nas receitas que ele mesmo prega.

Mas o que todas têm em comum, e que pode ser a marca desta canção, é a falta de disposição para contar uma história, fundamentalmente porque o que as três contam, cada uma delas de forma mais viva, é o final caótico de uma história. A letra de It’s the end… é desorganizada como um discurso alucinado gritado de improviso no meio de uma rua movimentada. E seu clip tem com ela um formidável nível de alinhamento: em uma casa semidestruída, um rapaz muito jovem vasculha o chão completamente tomado por quinquilharias e as vai mostrando para a câmera, como um inventário pessoal da catástrofe. Enquanto isso, a Michael Stype vai alternando a enumeração de catástrofes naturais (Legal! Começa com um terremoto, o primeiro verso) com ordens ao ouvinte e alusões a personalidades. A transição de sentido muitas vezes se dá mais pela sonoridade ou por associação livre que pelo sentido, como em Leonard Bernstein, Leonid Brezhnev, Lenny Bruce e Lester Bangs, ou em Birthday party, cheesecake, jelly bean, BOOM!

Ainda assim, alguns destes nomes valem a pena serem pesquisados. Lenny Bruce, citado duas vezes – a primeira é logo no terceiro verso (o último da introdução da canção), Lenny Bruce não está com medo – acaba trazendo uma ligação curiosa com ainda uma outra canção do REM. Senão, vejamos: Lenny foi um humorista das décadas de 1950 e 60, condenado por obscenidade em 1964 e absolvido postumamente pelo estado de Nova Iorque. Um dos melhores comediantes das história dos EUA, mas também um polemista de primeira, que usava seu humor para corroer preconceitos e instituições falidas. Segunda wikipedia, uma lista de seus temas prediletos, para se ter uma ideia: jazz, filosofia, política, patriotismo, religião, Direito, Racismo, aborto, Drogas, Ku Klux Klan, e Judaísmo. O diretor Bob Fosse, de All that jazz, filmou sua vida em 1974, com Dustin Hoffman no seu papel, e teve indicações ao Oscar de melhor filme, diretor e ator. (abaixo uma cena do filme, em que Lenny vai ao limite da ofensa aos negros para ironizar o racismo – em inglês, mas dá para pôr legendas)

Mas e daí? Daí que no álbum Automatic for the people, de 1992, o REM gravou outra canção que fala de outro humorista que também gsotava de desafiar as regras, Andy Kaufman. E que também teve sua vida tranasformada em filme, desta vez de Milos Forman e com Jim Carrey no seu papel. A canção entrou na trilha sonora. Lenny e Andy, de modos diversos e estilos muito diferentes, humoristas transgressores, denunciadores da falta de lógica da realidade, de como a realidade é falseada. Tanto em It’s the end… quanto em Man on the moon (nesta com Stype tomando-o como interlocutor direto, como que havendo uma cumplicidade entre eles), comediantes são reveladores de que o rei está nu, sendo que em It’s the end…, frente aos acontecimentos, o bobo da corte não tem medo de tudo ruir, já que sabe bem que são apenas cenários, não pode ter medo do fim do mundo (como o conhecemos) – sabe que ele é falso.

E depois disso, vem a enxurrada, a avalanche de versos cantados em linha reta, quase sem pausas entre as frases, alinhavando desastres naturais, ações humanas e algumas instruções sintomáticas, irônicas ou não: o mundo serve a suas próprias necessidades, idiotas servem a suas próprias necessidades. Deriva de continentes, automóveis incendiados, escute a batida do seu coração. A velocidade avassaladora, como uma corrida desenfreada rumo ao abismo, traz em si já o germe de uma celebração, uma euforia, que vai se materializar definitivamente no refrão. Este tem dois versos apenas, o que dá título à canção – É o fim do mundo como o conhecemos – e eu me sinto bem -, e outro, cantado por trás pelo baixista Mike Mills: É hora de eu ter algum tempo sozinho. Prenúncio de um cenário pós-apocalíptico com poucos sobreviventes?

Ou talvez não, porque, embora a descrição dos cataclismas da letra seja bem física, o que o refrão aponta é uma transformação. E isto desde a melodia assobiável, contrastando fortemente com as estrofes intermediárias. Embora o refrão seja o ápice da canção, é também um respiro na sucessão ininterrupta de versos, e também o momento de reafirmação de tudo o que foi dito, sintetizado – o bom refrão é assim, e este é ótimo – mas também ressignificado. Aqui, destruição torna-se transformação. O mundo que acaba é o que conhecemos, e este, sabidamente, não vai bem. Como não se sentir bem com o seu fim? E se é hora de ter algum tempo sozinho, esta transformação pode de algum modo ser interna, e não externa? As ordens contraditórias (veja seu calcanhar ser esmagado / isto significa não ter medo, cavaleiro) não falam menos de uma catástrofe que de uma reviravolta pessoal? Ou serão ambas?

E finalmente… o falso fim. A canção termina, para recomeçar. Nada mais significativo, numa canção que fala do fim, que um falso fim. Enquanto o menino acha seu skate na casa destruída e começa a fazer manobras no meio dos destroços, a câmera vai se afastando. O mundo não acaba, ou talvez nunca acabe de acabar, porque quando acaba, recomeça, com tudo virado do avesso. O que possivelmente nos permitirá, assim como nas piadas cáusticas de Lenny Bruce e Andy Kaufman, ver as coisas como realmente são, e, quem sabe, sentir-se bem.

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