O assovio ao vento escuro de Macabéa

Pedro Sá Moraes e João Cavalcanti começaram a escrever a letra de A hora da estrela sem saber que a escreviam – ou melhor, sem saber que recontavam em uma canção a história de Macabéa, escrita por Clarice Lispector no livro homônimo. Até quase a metade da letra, ou no mínimo a terceira estrofe, poderiam estar falando de qualquer outra menina anônima perdida na grande cidade. O que é tão a propósito para a anônima Macabéa, a que nunca seria ninguém, que é possível dizer, pelo avesso, que era exatamente dela que a canção já falava desde o início, sem que seus autores soubessem.

A hora da estrela, último romance de Clarice Lispector, é um estudo da condição humana, que para isto segue a vida de uma pessoa no limite da humanidade. Clarice muitas vezes em sua vida referiu-se à admiração, quase uma inveja, dos animais – tinha vários cachorros – e sua capacidade de fruição inconsciente da vida. Por que é que o cão é tão livre? Porque ele é o mistério vivo que não se indaga. Ou, como nestes excertos de seu magnífico conto O ovo e a galinha:

Ser galinha é a sobrevivência da galinha. Sobreviver é a salvação. Pois parece que viver não existe. Viver leva à morte. Então o que a galinha faz é estar permanentemente sobrevivendo. Sobreviver chama-se manter luta contra a vida que é mortal. Ser galinha é isso. A galinha tem o ar constrangido. (…) Ela era só para se cumprir, mas gostou. O desarvoramento da galinha vem disso: gostar não fazia parte de nascer. Gostar de estar vivo dói. (…) A galinha vive como em sonho. Não tem senso de realidade. Todo o susto da galinha é porque estão sempre interrompendo o seu devaneio. A galinha é um grande sono. – A galinha sofre de um mal desconhecido. O mal desconhecido é o ovo. – Ela não sabe se explicar: “ sei que o erro está em mim mesma”, ela chama de erro a vida, “não sei mais o que sinto”, etc.
“Etc., etc., etc.,” é o que cacareja o dia inteiro a galinha. A galinha tem muita vida interior. Para falar a verdade a galinha só tem mesmo é vida interior. A nossa visão de sua vida interior é o que chamamos de “galinha”. A vida interior na galinha consiste em agir como se entendesse. (…) A galinha é sempre tragédia mais moderna. Está sempre inutilmente a par. E continua sendo redesenhada. Ainda não se achou a forma mais adequada para uma galinha. Enquanto meu vizinho atende ao telefone ele redesenha com lápis distraído a galinha. Mas para a galinha não há jeito: está na sua condição não servir a si própria. Sendo, porém, o seu destino mais importante que ela, e sendo o seu destino o ovo,  a sua vida pessoal não nos interessa.

É assustador, ao ler esta seleção de trechos, perceber que eles poderiam estar perfeitamente, com a única exceção das referências ao ovo,  falando de Macabéa, de sua vida exígua, seu viver quase totalmente inconsciente. E no entanto esta mesma condição é o que desperta em Clarice uma profunda compaixão, um carinho por esta heroína sem nenhuma personalidade que será compartilhada na canção de Pedro e João. Em ambas as versões desta história, o narrador se desvela. Ainda que Clarice se esconda atrás do biombo de um narrador do sexo masculino chamado Rodrigo, narra na primeira pessoa, revela seus sentimentos. E assim também Pedro, como veremos.

Porém, antes mesmo da letra recontar a história de Macabéa, o tema melódico de Pedro é por si só uma história. Pedro é um cancionista dos mais tradicionais, e conhece bem as regras da arte. Seu objetivo sempre parece ser o de uma melodia que conte uma história por si. Assim, A hora da estrela é uma canção de desenvolvimento completamente clássico, como a maioria das demais do segundo álbum de Pedro, Além do princípio do prazer.

Pedro é um compositor motívico, da escola de um Francis Hime. Isto significa que muitas de suas canções apresentam, desde as primeiras notas, a célula melódica que se desdobrará ao longo de toda ela, mas movendo-se, modificando-se, transformando-se ao sabor das mudanças harmônicas que vão se impondo, mudanças estas que, por sua vez, obedecem a uma arquitetura formal rigorosa – em suma, o motivo é um personagem defrontando-se com o desenrolar de seu destino. Assim como Macabéa, as cinco primeiras notas de A hora da estrela  (cuja letra, uma menina, alinha-se exatamente ao apresentar logo de saída aquela que ainda não se sabia Macabéa nem para seus autores) serão as protagonistas da canção que contará sua história, com uma diferença: enquanto Macabéa será esmagada por seu destino, nunca conseguindo afirmar uma personalidade, o motivo melódico de Pedro, ao fim das intempéries de modulações e de enfrentar o arranjo tempestuoso, emergirá vitorioso ao final, triunfará, como que vingando a menina que cantou.

E os arranjos tempestuosos e de sonoridade principalmente eletrônica são exatamente o segundo elemento determinante do álbum de Pedro. O violento contraste entre eles e a estruturação clássica das canções é um risco calculado, mas ainda assim enorme, que Pedro decidiu correr. Lembra-me uma sala de decoração minimalista, móveis de aço, mas com uma cristaleira do século XIX, ou vice-versa (e aqui cabe também mencionar a mixagem de Roger Freret no Brasil e a masterização feita por Joe Laporta nos estúdios Sterling Sound, em Nova Iorque, que permitiram a sobreposição de camadas que é ouvida). O risco era que as canções terminassem submersas, afogadas na plêiade de detalhes, ruídos incidentais, distorções e climas que compõem os arranjos. Este contraste entre arranjo e composição atua de forma diferente em cada uma das canções de Além do princípio do prazer. Mais que (ou além de) arranjos, o que Pedro e o produtor/arranjador Ivo Senra criam são ambiências por onde passeiam e com quem contracenam as melodias, e, no caso de A hora da estrela, não apenas uma melodia, mas uma pessoa atravessa este cenário que representa a grande cidade.

Um exemplo: as levadas dos instrumentos em polirritmia com as letras, com os tempos fortes deslocados batendo em pontos diversos em relação aos versos, geram um desconforto no ouvinte, que podem vir a servir como reforço contrastante do empuxo conseguido na chegada do refrão, quando os tempos voltam a se ajustar um ao outro – isto ocorre em Eunuco, entre outras. Em A hora da estrela, o recurso serve para ampliar a noção de desajuste de Macabéa, seu sem-lugar no mundo, quando é utilizada na segunda vinda da parte B, que se inicia em Mas a vidente.

O arranjo pode simbolizar tanto o externo – a cidade grande onde Macabéa se perde – quanto o interno, sua própria confusão mental. Sua abertura acontece com um trecho do livro de Clarice em código morse, sobre o qual se sobrepõe a voz claríssima de Pedro. Além do desenvolvimento impecável do tema, é ela que impede que caminho seja perdido de vista. Se o código morse, incompreensível para o ouvido, soma-se ao arranjo acidentado como símbolo de incomunicabilidade (e efetivamente, na primeira escuta do álbum o ouvinte comum corre o risco de se perder ou ao menos tontear sem encontrar as canções sob as camadas de instrumental), Pedro guia o ouvido narrando as histórias de forma impecável, e sua própria entonação descomplicada e excelente dicção fazem contraste com o arranjo, tomado decididamente posição ao lado das composições – e neste caso, mais uma vez, ao lado de Macabéa, o que aumenta o grau de empatia com ela.

Porém, no próprio arranjo há, algo ocultos, elementos de identificação. Lado a lado com o código morse na abertura e por toda a parte A da canção, um baixo ascendente, seguindo no caminho contrário à sequência descendente de acordes que seriam uma harmonização muito mais familiar ao ouvido, é também um crescendo de tensão dramática já na abertura, como prenunciando algo – como uma escada que se sobe, degrau a degrau, levando apenas à queda – e o som incidental de vidros partindo-se complementa-se a esta sensação, tanto antecipando o final trágico de Macabéa (o próprio Pedro diz que a intenção era remeter ao atropelamento), quanto, mantendo a simultaneidade da simbologia externo/interno podendo simbolizar o estilhaçamento dos frágeis sonhos de Macabéa. Como o final do arranjo, logo ao finalmente ganhar um alento e um impulso – sincronicamente Macabéa sai da cartomante cheia de esperanças e a levada instrumental, até aí no que Pedro define como uma mistura de funk e maculelê que só se revela depois de uns dois minutos, engrena, já na terceira repetição da coda numa anacrônica discoteque, vem a freada brusca, o choque, o fim.  Morreu na contramão atrapalhando o tráfego.

Pedro é formado em Psicologia e é mestrando em Teoria da Literatura. A canção A hora da estrela está na interseção entre estes dois saberes. Embora  parte da crítica interprete a decisão de Clarice de contar a saga de uma nordestina do Rio como uma concessão à literatura regionalista então em voga, o que ela de fato faz é um aprofundado estudo psicológico de um ser humano a quem toda atenção é negada. A arte tenta dar conta de Macabéa, a quem a psicanálise citada no título do álbum de Pedro dificilmente poderia ajudar, ela que mal se dá conta da própria existência e não saberia transformar em linguagem suas próprias aflições – Ela não sabe gritar, diz um dos treze subtítulos que Clarice deu ao livro – outro dá título a este artigo. O livro é, ao modo de Clarice, pouco mais que um fiapo de história objetiva que cabe inteira na canção de Pedro, e muito mais um mergulho na vida interior de alguém que aparentemente nem a tem, e no entanto um mundo se revela. A canção é algo cinematográfica, imagem sobre imagem – frases sem verbo, só a enumeração dos fatos

E no entanto bem mais que a mera enumeração, porque emocionada. A descrição de Pedro e João nunca é neutra, e, assim como Clarice se coloca no narrador fictício que cria para seu livro, a voz de Pedro se coloca quase como um personagem secundário na trama que canta, em versos como na cavidade do meu anseio, nas esquinas da minha cabeça, como cinema em minhas retinas – e estas frases dão a pista: a história de Macaéa se desenrola dentro de Pedro. A menina do primeiro verso que não é nomeada em momento algum, que começa a história sem se revelar e vai se desvelando aos poucos ao equiparar sua história à contada por Clarice, acontece, à maneira mesma de Clarice, na subjetividade do narrador, em sua imaginação dançarina / entidade que me contamina. A uma menina torna-se minha menina, e adquire uma força insuspeitada e desmesurada ao ser reconhecida, não necessariamente como Macabéa, mas como pessoa, simplesmente, consumando em forma de livro e canção o ser humano que ela tão pouco soube ser. Realizando, afinal o grande e verdadeiro sonho que ela nunca soube que tinha.

Sítio do Pedro Sá Moraes, onde pode ser escutado o álbum Além do princípio do prazer e baixada a faixa A hora da estrela:

http://www.pedrosamoraes.com/

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