O viajante conhece o candombe

Na tarde/noite do dia seis de janeiro de 2016, o blog esteve na Calle Isla de Flores, na capital uruguaia, e assistiu ao desfile de nada menos que 34 comparsas de candombe, em comemoração ao dia de Reis – ou, mais especificamente, nas Llamadas de San Baltazar, o rei mago negro segundo a tradição (mouro, para ser exato). O que se segue é o relato particular das impressões deste observador sem maiores pretensões, mas com a motivação de deixar registrada da maneira mais detalhada possível uma espetacular manifestação popular.

Antes de mais nada, deixo registrado meu espanto com o fato de que, até onde consegui perceber, as Llamadas simplesmente não tenham nenhuma cobertura do jornalismo cultural ou qualquer outro. Chegando em Montevideo no dia 5 à noite, não consegui achar menção ao desfile em nenhum lugar da internet, salvo um site especializado no carnaval uruguaio, que tinha o local, horário e ordem de desfile das comparsas (que não foi lá muito respeitada). No site apontado por meu hospedeiro local como o mais completo para eventos culturais em todo o Uruguai, não havia sequer uma menção. A invisibilidade de um acontecimento deste porte, o modo aparentemente subterrâneo com que é realizado, foi motivo de estranhamento para um carioca, acostumado a ver as manifestações deste gênero valorizadas em sua cidade. No mesmo site onde consegui a informação do desfile deste ano, um post de um ano antes avisava do cancelamento do desfile de 2015, por causa do tempo chuvoso. Para minha sorte, este ano fazia sol.

O desfile propriamente dito consiste na sucessão ininterrupta das comparsas. O público assiste nas calçadas e em plena rua, a dois passos dos agrupamentos e frequentemente seguindo atrás deles, enquanto outra comparsa já vem logo atrás. Desfilam tão juntas uma da outra que frequentemente a abertura da que vem atrás dança ao som da bateria da que está logo à frente, e não da sua própria. As comparsas tem a seguinte formação: à frente, o estandarte abrindo o desfile. Em seguida, as enormes bandeiras, três ou quatro, manobradas por rapazes que as passam por sobre as cabeças do público, que estende as mãos para tocá-las, e fazem diversas manobras. As cores das bandeiras são as das comparsas, mas geralmente três, quatro ou mais, e com combinações curiosas como telha, laranja, azul claro e preto. Em seguida, as dançarinas, meninas e mulheres com roupas coloridas e padronizadas como uma ala de escola de samba, dançam em geral com passos marcados, coreografados.

Logo depois, os velhinhos – um, dois ou três casais, ele de bengala e cartola, ela vestida emulando uma roupa de época, dançam exagerando a decrepitude, ele apoiando-se na bengala trêmula caricatamente – mas muitas vezes nem sequer são velhos, mas jovem cumprindo este papel. O próximo é o malabarista de bastão, jogando-o para o alto, girando-o no ar, equilibrando-o no nariz. Estas partes da comparsa são talvez as mais tradicionais, porém hoje são apresentadas muito estilizadas, ou até mesmo não estão presentes. O Escobero, ou Bastonero, era um dos responsáveis pela animação da plateia com seus malabarismos, e havia enfrentamentos entre os escoberos das comparsas, duelos em que valia quase tudo para fazer com que o adversário deixasse cair seu bastão. Já o Gramillero e a Mama Vieja representam a reverência à ancestralidade, analogamente às baianas e à Velha Guarda nas Escolas de Samba – ou os pretos velhos na Umbanda.  Porém, alguns destes elementos são dispensados ou estilizados, dependendo do tamanho da comparsa. Vi alguns sem malabaristas, outros sem os velhinhos com caracterizações parciais, ou mesmo apenas um rapaz com a bengala e uma moça de vestido, enquanto outros vinha a caráter. Obrigatórios, os estandartes, as bandeiras, as meninas e, finalmente, a bateria – ou, mais apropriadamente, a corda de tambores.

Formada unicamente por atabaques/congas de três tamanhos, que tocam misturados e não organizados em naipes: chamam-se piano, o grave; repique, o médio; e chico, o agudo. Porém, mesmo dentro desta classificação há variações de tamanho. A forma é de barril, com o meio rombudo e a extremidade de saída pequena. São tocados com baquetas e com a mão, à maneira do repique de samba, o que permite uma variedade sonora bem grande, pois, mesmo na conga piano, bater próximo à lateral tira um som bem agudo, e percute-se também a lateral de madeira do instrumento. Ainda assim, o resultado sonoro é extremamente homogêneo. Se a bateria de uma escola de samba é como uma orquestra, com sua diversidade de timbres que vão dos membranófonos ao agogô e ao ganzá, a corda de candombe tem a unidade de um grupo de cordas ou metais, formados por uma só família de instrumentos – e isto torna o resultado final ainda mais impressionante. Não há canto, só a percussão. Cada comparsa tem sua sutil identidade rítmica, mas os integrantes mudam seus padrões durante o desfile, cabendo a cada um algumas possibilidades – e há ao menos três toques diferentes, com suas bases e frases características. O líder também toca, na primeira fila, em geral o piano, mais grave. Vi crianças de 7, 8 anos integrando as baterias junto com os adultos. Cada uma tem desde apenas 20 até mais ou menos 80 integrantes.

Algumas vezes no desfile, a comparsa estaciona para a bateria evoluir. Há diversos padrões para isto, mas faço aqui um roteiro médio aproximado: comandada pelo maestro, a corda diminui muito o volume do toque, passando a soar mais suave e mesmo diminuindo um pouco o andamento (algumas substituem pelo breque completo). Após algum tempo, os naipes graves param e os chicos tomam a frente com padrões de marcação específicos para este momento. A reentrada triunfal dos graves para o tutti vem com viradas e convenções diversas, e às vezes com mudanças de lugar e pequenas coreografias dos integrantes, além de uma aceleração do andamento. É o momento empolgante do desfile, que arranca palmas e saudações do público – quando uma parte dele não abandona a plateia para seguir aquela comparsa.

O leitor imagine agora o narrado acima acontecendo 34 vezes seguidas. Porém, esta é apenas a descrição de um único dia de desfile, uma única llamada. Elas acontecem não apenas no Dia de Reyes, mas também no Carnaval, quando são maiores,ainda mais numerosas e têm regras mais rígidas, e em outras data comemorativas. Trata-se de um pedaço quase despercebido da cultura latino-americana, assim como a cultura negra no Uruguai permanece invisível, algo que poderia e deveria atrair ainda muito mais pessoas que as que acorrem numa Montevidéu esvaziada em janeiro (inúmeros estabelecimentos comerciais simplesmente fecham na primeira quinzena do ano), a ponto de ser cancelado peremptoriamente por causa de chuva. Não se trata de transformar as llamadas num evento turístico como no Rio de Janeiro, mas apenas de conceder a elas a visibilidade que elas merecem.

Estas acima são apenas anotações pessoais de um passante interessado, porém sabedor do própria ignorância diante de um verdadeiro mundo de informação. Um pouco mais sobre o candombe pode ser encontrado neste site. Há também um canal do Youtube dedicado ao candombe. Mas nada pode substituir a impressão de estar presente num acontecimento deste porte e dar-se conta do quanto somos próximos de nossos vizinhos de outra língua ao reconhecer o samba no meio dos toques, e ao mesmo tempo perceber as tantas diferenças que nos tornam mais e mais ricos. Você já foi a Montevideo, nego? Não? Então vá.

Demonstração dos três toques principais do Candombe – Ansina, Cuareim e Cordón

Alguns exemplos de llamadas

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