Vida e morte cirandeira

Entre o dilema moral e o problema de saúde pública, a discussão do aborto no Brasil perde-se em meio a discussões acirradas entre feministas, fundamentalistas religiosos, biólogos e biólogos de permeio, e segue nebulosamente envolta em perigosos clichês. “O corpo é meu”, “Todos os que defendem o aborto já nasceram”, frases de efeito escamoteiam o debate unilateralmente, escolhendo cada um dentre as múltiplas implicações do assunto as que servem seus argumentos.

Escapar destes reducionismo implica em encarar uma tragédia. Seja no aborto ocorrido em segurança ou nos números alarmantes de mortes de mães em clínicas clandestinas, trata-se aqui de uma relação entre mãe e filho que existe sem existir, a complexa relação de amor e rejeição, a culpa e o alívio diante do nascimento que é uma morte. Independente de condenações ou exaltações, o aborto envolve sempre, em algum nível, a dor muito humana de sobreviver à sua descendência.

A Ciranda do Aborto, de Kiko Dinucci, é provavelmente a canção mais radical dentre a radicalidade que é o álbum Encarnado, de Juçara Marçal. Álbum que é todo ele dedicado à temática da morte. Mas como no tarot, a morte é também transformação e eventualmente prenúncio de renascimento. Assim como, assinala Rômulo Fróes no release do álbum, significa o espírito ocupando temporariamente um corpo humano, assim como significa tornar-se carne. A justaposição destes significados, a encarnação que não chega a ocorrer e o corpo em formação que se torna um mero pedaço de carne, o início e o fim simultâneos, é um tema terrível, que Juçara, Kiko e Rodrigo Campos (com a rabeca de Thomas Rohrer) encaram com imensa coragem.

Ciranda que é antecedida por uma saudação à mãe arquetípica Iemanjá. A mãe cujos filhos são peixes, como ecoa Juçara suavemente sobre o rumorejar de ondas sonoras quase atonais. A água de onde vem a vida, no útero como no mar. A invocação à mãe rainha se funde com a introdução à Ciranda, e, no dizer exato de Rômulo, vai servir também como um pedido de ajuda para atravessar o momento tão doloroso descrito a seguir.

A ciranda é talvez o único ritmo brasileiro que não tem em si o travo da tristeza. Quase todos, capitaneados pelo samba, mas também o maracatu e o choro desde seu nome são em algum nível formas retrabalhadas do banzo, da saudade da terra perdida pelo negro escravizado, pelo branco exilado, pelo índio perseguido. A ciranda, associada que é tantas vezes à infância, não. Cantada pelas mulheres dos pescadores enquanto os esperam voltar, a ciranda, como diz sua mestra maior Lia de Itamaracá, acompanha as ondas do mar. Um canto de alegria que aqui é virado ao avesso. O mar que gera a vida vai assistir à sua negação.

Encarnado é um passo adiante numa sequência de álbuns realizados tanto por Juçara como por seus parceiros Kiko e Rodrigo, entre outros, nos grupos Metá Metá e Passo Torto. Estes trabalhos têm em comum um tratamento de arranjo que privilegia não o acorde bossanovístico, nem exatamente o riff do rock, mas desenhos em contraponto entre melodias que se somam, se contrastam e mesmo se enfrentam, construindo uma teia sobre a qual a canção se eleva (também alçando voo pela voz de Juçara, da qual já falarei). Porém, na Ciranda do Aborto, e não apenas nela, esta delicada costura é feita do arame farpado de timbres distorcidos. Todos os três instrumentos soam com efeitos de pedais e estúdio como o overdrive, e são navalhas e bisturis cortando o ouvido.

A melodia desta ciranda é típica do gênero, com seu desenho ondulado e suas divisões sincopadas, o que, ironicamente, acaba sendo um elemento a mais de crueldade na composição. Se fizermos um exercício de imaginação, eliminando a letra e o arranjo e cantarolado sua melodia, veremos que ela é um bocado ensolarada. O contraste entre esta melodia e seu tema é como um contraponto a mais a se somar ao instrumental, e um elemento dramático decisivo na canção. A melodia circular (como a roda do sansara, o ciclo das encarnações?) de dançante torna-se hipnótica como a contemplação do terror. Inicialmente comedida em tom menor, a canção modula para maior na estrofe final e a melodia ascende uma quinta, elevando a tensão continuamente. Cada uma das três estrofes tem um clima específico e bem definido, e o chamamento da central em notas alongadas anuncia o desabrimento emocional que se escancarará na derradeira, na constatação do fato consumado.

A voz da Juçara é algo a ser tratado à parte. Temos no Brasil atualmente o fenômeno do surgimento de cantoras a granel, em grande parte dotadas de excelente técnica vocal. Isto não deveria ser, mas é um problema, porque falta a muitas a capacidade de cantar além da própria técnica. Muitas vezes o que se ouve não é a canção, mas o prazer daquela cantora cantar aquela canção. O resultado é que canções sofridas são interpretadas com um sorriso feliz, tanto quanto canções esparramadas recebem tratamentos delicados em excesso. Correndo o risco de parecer grosseiro, resumo a questão: falta útero.

Nesta canção, sem a menor intenção de trocadilho, faltar útero seria um pecado mortal. Assim como Mário de Andrade dizia Quem não souber urrar, não leia (seu poema) Ode ao Burguês, uma interpretação visceral é absolutamente indispensável à Ciranda do Aborto, intensa desde seu início de angústia refreada até seu final desesperado. E o melhor da voz de Juçara talvez seja o fato de não se perceber nela o menor sinal de técnica. Não porque não haja, mas porque está inteiramente a serviço da música. A voz de Juçara não toma providência, canta com a naturalidade da voz falada, o que lhe dá uma imensa credibilidade. Juçara não canta o prazer de cantar, não canta nem mesmo a canção, mas canta com a canção, canta o que canta a canção. Na Ciranda, Juçara é pura dor e não tem medo que a voz falhe – e ela não falha, e se falhasse, sua falha também estaria a serviço, e portanto não seria falha. Juçara corre o risco com a voz, sua voz é uma voz a mais mergulhada no contraponto, mas a autoridade de seu canto faz com que seja mais que uma voz a mais.

O crescendo de pressão atinge seu ápice finalmente, e então a até agora firme arquitetura do acompanhamento instrumental (volto a citar o release de Rômulo, que definiu o cavaquinho de Rodrigo como hitchcockiano. Por sua vez, a rabeca de Thomas secunda o lamento de Juçara) se dissolve, retornando ao mar semi-atonal de Odoya, mas agora não na marola suave e sim em tempestade aberta, enquanto a letra, que não chegara a falar de mar, fala de chão como o fim, a cova aberta como a ferida, mas onde toda vida desaparece. Tudo aqui é o grito de dor da mãe que não chega a ser mãe, porque seu filho não é filho. Não há julgamentos ou defesa de teses, há apenas um mar de sofrimento, amor, ódio, medo, sentimentos primários misturados numa teia que, antes estruturada, agora soa inextrincável. O caos primordial gerador da vida recebe-a de volta, para possivelmente iniciar seu ciclo novamente adiante. Mas agora isto não é ainda perceptível. Há apenas o lamento. O horror, o horror.

E após o fim, o suspiro de Juçara ao “sair da personagem” revela não apenas o esforço emocional de sua interpretação, mas vai mais longe, pois nele está a identificação do drama comum, a empatia revelada do protagonismo desta história. A faixa seguinte no álbum é um acalanto para outra mãe arquetípica, a Canção para ninar Oxum, de Douglas Germano, não para desanuviar, mas para permitir ao sofrimento finalmente acamar, descansar. A Ciranda do Aborto é uma microtragédia de proporções colossais, comum à condição de mulher e de ser humano.  O reconhecimento desta condição é o que a faz um libelo sem acusação e lhe empresta uma universalidade de obra-prima. Reconhecimento que deveria ser o ponto de partida do debate do aborto desde sempre, mas longe do qual todos parecem fazer questão de passar. Todo aquele que defende a legalização do aborto precisa ouvir sua Ciranda. E todo aquele que a combate também.

Este artigo foi originalmente publicado na Revista Polivox, em maio de 2014.

Anúncios

Um comentário em “Vida e morte cirandeira

  1. Galvão disse:

    Mas que blog maravilhoso! Como não sabemos da existência, de algo necessário pra quem quer compreender música?! obrigado

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s