Carnaval Recife/Olinda: anotações

Este blog carioca passou o Carnaval de 2016 em Recife/Olinda. Lá escutou maracatu de baque virado, maracatu rural, coco, samba (pouco), baião, boi, caboclinho, rock, manguebeat, ijexá, salsa (!), e frevo, frevo, frevo até dos ouvidos passar pra corrente sanguínea, ser absorvido pelas células e se integrar ao corpo. Uma diversidade muito maior que a do Rio de Janeiro, sem dúvida, terra do samba em suas inúmeras versões, que dividem espaço com a marcha durante a folia (mas estas deixaram completamente de se renovar, enquanto o samba tem se reinventado continuamente. Trato da dos caminhos da marchinha nesse outro artigo). O que farei neste é, passando ao largo, tanto quanto possível, das impressões meramente turísticas, elencar desorganizadamente algumas das impressões musicais do que possivelmente é o carnaval mais diversificado do mundo.

  • Sobre a diversidade: ela está literalmente na rua, sejam em blocos que se sucedem quase ininterruptamente (se no Rio de Janeiro é preciso se programar para chegar cedo em determinados blocos, em Recife/Olinda basta parar numa esquina dos centros históricos, e em vinte minutos três blocos terão passado por você – não falo dos consagrados como o Galo da Madrugada, mas dos inúmeros menores, em que se pode ficar ao lado da bateria), sejam nos inúmeros palcos montados e espalhados pelas prefeituras das duas cidades e com programações muito diversificadas. Na praia em frente à Praça do Carmo, por exemplo, havia um exclusivo para coco, em homenagem a Dona Selma, que se foi em 2015. Já nos blocos ouve-se fundamentalmente frevo e maracatu de baque virado. Enquanto isso,  no Recife, próximo ao grande palco do Marco Zero, acontecia o festival RecBeat, com DJs, música eletrônica e nomes da cena mais recente como Karina Buhr e Liniker – e a salsa citada acima, da banda da trompetista holandesa/colombiana (!) Maite Hontele.
  • Sobre o maracatu rural, ou maracatu de baque solto: estes nomes foram cunhados relativamente há pouco tempo, em termos históricos, e não pelos próprios praticantes, que em geral o chamam de cambinda. O maracatu rural recebeu este nome de quem não o faz, referenciado ao maracatu de baque virado ou maracatu nação, praticado mais ao litoral, e que não tem relação direta com ele – o maracatu rural está para a herança índia como o de baque virado está para a africana, e isto é claramente perceptível pela diferença de divisões rítmicas, o de baque virado privilegiando a síncope dos tambores, e a cambinda com um compasso próximo do unário típico da cultura indígena.
  • Sobre maracatu rural e caboclinhos (coisas bem diferentes entre si, em rítmica e preceitos): eles vão à cidade para o carnaval, mas são efetivamente manifestações do interior. Surgem para o público do carnaval em dois formatos, ambos algo conflituosos: nos palcos da prefeitura, e nos desfiles competitivos (além deles, há escolas de samba, entre outras modalidades). No primeiro caso, não têm mobilidade para cumprir sua movimentação nem tempo para desenvolver a poética de seus improvisadores; há muitas agremiações, e cada uma tem cerca de dez míseros minutos. O que ocorre então é que sobem todos com suas roupas majestosas no palco por uma rampa, dançam no mesmo lugar enquanto o mestre faz meia dúzia de versos, descem todos para que outro grupo tenha sua vez de subir e fazer a mesma coisa, o que pode tornar-se até mesmo entediante para a platéia, que não tem a menor possibilidade de entender o real sentido daquilo, reduzido daquela forma à lógica do espetáculo. Já nos desfiles – em passarelas com arquibancadas – há a possibilidade da evolução na pista e mais tempo para fazê-lo. Mas aí a lógica passa a ser da competição, pois o vencedor, segundo critérios que não necessariamente respeitam as tradições, leva mais dinheiro para compor suas fantasias no ano seguinte, e com isso novamente a festividade perde a espontaneidade para se ajustar a uma outra lógica, que tende a deformá-la ao longo do tempo. Ainda assim, é um espetáculo impressionante, que, pelo menos no caso da cambinda, tive oportunidade de assistir mas à vontade na quarta-feira, como conto adiante.
  • Sobre o maracatu nação: Surpreendente para minha enorme ignorância a imensa proximidade entre o maracatu nação e os afoxés, ambos ligados à religiosidade africana indissoluvelmente. Vi ao menos um bloco de maracatu passar para o ritmo do ijexá sem transição, o que me mostrou o quanto suas células rítmicas básicas são próximas, embora as sonoridades finais sejam diversas. Além disso, nos desfiles, há diversas representações de orixás africanos, com vestimentas completas. Vi uma Oxum com seu espelho, um Oxalufã com seu Opaxorô, e na Noite dos Tambores Silenciosos, que acompanhei apenas parcialmente, após o desfile de diversos blocos de maracatu, as luzes se apagam e o que se ouve são cantos de candomblé e saudações aos orixás. Claro, a palavra nação inclusa no nome não é à toa, tem o mesmíssimo significado do candomblé, e a maioria dos blocos tradicionais é ligado a uma casa. O maracatu não é desconhecido no Rio de Janeiro, mas parece ter chegado aqui desprovido de toda a carga religiosa, quase anoréxico. Por sinal, entre os inúmeros blocos que desfilaram nas ruas das duas cidades, ao menos três eram de ligados a entidades religiosas… protestantes, e faziam batuques muito bem ensaiados, com jovens entusiasmados, mais ou menos próximos ao maracatu. Um deles, em determinado momento, parou, organizou-se em um grande círculo, ouviu uma canção convencional de louvor a Deus, de formato próximo da música romântica, e depois uma pregação do pastor em plena rua interditada para o carnaval, com evidente proposta proselitista, num caso de apropriação cultural descarada.
  • Sobre o frevo: Embora tenha sido o ritmo que mais ouvi, o número de composições executado é incrivelmente pequeno, seis ou sete ao todo repetidas à exaustão. Tocam o tempo todo no carnaval, mas durante o resto do ano mal são ouvidas. Até onde percebi, não há sequer um concurso de novas composições, cancelado há anos. Ou seja, não há novos frevos, e os que existem não chegam ao público – mais ou menos como as marchas de carnaval hoje. Em compensação, no Rio de Janeiro o samba, em suas inúmeras modalidades, é ouvido o ano inteiro, inclusive invadindo outras paragens – mas não a marcha, que pode ser considerado o ritmo irmão do frevo. Ambos foram gerados dos dobrados militares convertidos à folia e têm ciclos de vida muito próximo, ascendendo e declinando na mesma época, mas sem influência direta de um no outro – talvez apenas com relação aos frevos-canção, mais lentos e cantados nos blocos líricos – outra surpresa para minha ignorância. Por sinal que, embora o frevo seja a matéria primordial que fermentou os trios elétricos baianos (e isto é reconhecido com uma ponta de orgulho), o frevo baiano é simplesmente desconsiderado pelos pernambucanos. Chuva, suor e cerveja, de Caetano Veloso, por exemplo, foi ouvida por mim uma única vez o carnaval inteiro, enquanto Frevo Mulher, de Zé ramalho (que é paraibano) tocou várias vezes. Já Banho de Cheiro, o frevo do novo baiano Moraes Moreira que fez um sucesso estrondoso em 1980 com Elba Ramalho (e que fala em sua letra da Bahia e não de Pernambuco), é ignorado solenemente até mesmo no Museu do Frevo, que assinala numa linha do tempo exaustiva todas as composições fundamentais do gênero. Deve ter sido tocado no show de Elba, que encerrou o carnaval (e que não cheguei a assistir), e só. Entenda-se, não se trata de abaianar o frevo, mas de reconhecer seus frutos, apenas.
  • Sobre mais algumas coisas: Na quarta feira, havia ainda o encontro de bois, nas ruas da velha Olinda. Fui sem saber do que se tratava exatamente, com alguma referência do boi do Maranhão na cabeça, mas achando que devia encontrar algo bem diferente – o que aconteceu. O que encontrei, além de diversos blocos de boi, com um ritmo mais próximo do forró que do boi maranhense (mas cada um tinha seu boi, ou seja, uma pessoa com a fantasia característica) foram também blocos de ijexá e de maracatu rural – que então pude acompanhar melhor. Além do ritmo, há uma grande diferença entre eles com relação ao canto: no maracatu nação o canto não é indispensável, com predomínio absoluto da percussão. No rural a percussão também é fortíssima e acompanhada de metais que fazem desenhos estabelecidos (mas também são irreverentes e podem fazer os temas do Popeye ou do He-Man sobre a levada da percussão quando menos se espera), mas se interrompe abruptamente, frequentemente no meio do compasso, para o versejar dos mestres, improvisado na hora, e que pode tratar de qualquer coisas, incluindo a disputa entre Náutico e Santa Cruz ou a crise política. Quem disse que a tradição não se atualiza?

Enfim, muitos problemas e senões, mas ao mesmo tempo uma vivacidade espantosa, e um renovar-se que não significa ficar no mesmo lugar – e isto vale também para o frevo, a contragosto que seja. Em praticamente todas as apresentações e blocos que vi havia crianças, quase sempre em pé de igualdade com os adultos, batendo nas alfaias no ritmo. No bloco de maracatu rural que segui, com o pessoal vindo de Nazaré da Mata, além de Siba, outros dois mestres improvisadores tinham cerca de vinte anos. E num dos palcos principais do Recife Antigo assisti apresentações empolgantes das Netas de Dona Selma do Coco e da Família Salustiano, estes herdeiros do maior rabequeiro de Pernambuco, Mestre Salu, falecido em 2008. Sim, é verdade, O Galo da Madrugada para homenagear Chico Science chamou ninguém menos que Wesley Safadão. Mas em Olinda segui o bloco Mangue Beat, em que a fantasia consiste em se sujar de lama (declinei desta parte) e batucar, aí sim, na levada criada pela Nação Zumbi. E fora tudo isto descrito acima, ficou a sensação de ainda uma enormidade de coisas não conhecidas (como os blocos La Ursa, que não chegamos a ver e mal soubemos o que é), ou os rituais indígenas das tribos que fazem o caboclinho. Ao mesmo tempo sendo deturpada e se transformando, às vezes ao mesmo tempo ou de forma indistinta, a tradição sobrevive e se torna outra. Tradição ,do latim traditio, tradere = entregar, passar adiante.  Nada como ver isto acontecendo.

Maracatu rural

Maracatu nação

Boi

Caboclinhos

O blog agradece à cantora Renata Rosa pelo papo na sexta-feira depois do carnaval, que mostrou lados do carnaval que não eram visíveis para mim. E a Paula Ceci, que dividiu o carnaval comigo e atentou para boa parte do que vai escrito aqui – além de ter tido a ideia da viagem…

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Esta entrada foi postada em Música.

Um comentário em “Carnaval Recife/Olinda: anotações

  1. Maravilha de registro. Deu MUITA vontade!
    Tô me programando há algum tempo… quem sabe no próximo ano?!
    Abraço

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