O teu refrão não nega, Lamartine

A marcha O teu cabelo não nega, de 1932, que talvez seja o maior sucesso da história do Carnaval brasileiro, também é objeto de muita controvérsia em tempos de politicamente correto e combate ao racismo. Os versos do refrão, que afirmam ser possível amar a mulata porque “a cor não pega”, hoje causariam ojeriza numa canção inédita. Ainda assim, trata-se de uma composição tão inspirada que continua levantando os blocos carnavalescos, mesmo com versos datados e referenciais como Fui nomeado teu tenente interventor (os governadores dos estados nomeados por Getúlio Vargas, que acabara de ascender ao poder). Porém, tão grande quanto a atual é a polêmica que a cercou na época de seu lançamento: pois trata-se de um plágio!

Esta história começa em 1928,  quando os Irmãos Valença, ou seja, os compositores recifences João e Raul, compõem o frevo-canção Mulata, que logo torna-se um sucesso nos bares da capital pernambucana e chega a extrapolar para outras cidades. Mulata é inspirada em uma mulata real, popular nos bares do bairro Santo Antônio, e em motivos folclóricos e tem uma letra cheia de piadas referenciais à região, como no verso Passa a corrente da trama (trata-se da empresa inglesa Pernambuco Tramways, responsável pela distribuição de energia elétrica no estado).  O frevo faz tanto sucesso em sua divulgação informal que os irmãos decidem enviar sua partitura para a RCA Victor, a poderosa gravadora do Rio de Janeiro.

Em 21 de dezembro de 1931, O teu cabelo não nega é gravada por Castro Barbosa, e lançada para o carnaval do ano seguinte. O sucesso estrondoso logo a leva aos ouvidos dos Irmãos Valença. O disco de 78 rotações traz as seguintes informações: Motivos do norte – Arranjo de Lamartine Babo com o grupo da Velha Guarda (na verdade o arranjo, com a sensacional introdução que se incorporou à música, é de Pixinguinha). Nenhuma menção aos autores originais

Só que o refrão de O teu cabelo não nega, repetido do título, é o de Mulata, além de vários compassos (seis, segundo o próprio Lamartine Babo admitiu mais tarde) tomados do frevo dos Irmãos Valença. O que acontecera, na prática, é que Lamartine ajustara a canção deles para torná-la um sucesso, e, assim como os Valença utilizaram temas populares para compor sua canção, Lamartine usou a canção que tinha à mão para compor a sua… plágio, claro, aplicação tardia da famosa máxima de Sinhô: Samba é que nem passarinho, é de quem pegar primeiro.” De frevo canção para marcha-rancho, dois ritmos derivados dos dobrados das bandas militares e aplicados à folia, foi um pulo.

Mas não, isso não ia ficar assim. Os Irmãos Valença entraram com um processo. A RCA Victor ainda tentou contemporizar, entregando a Carlos Galhardo, um dos nomes principais de seu cast, dois frevos dos Irmãos para ele gravar. Não adiantou, e os autores pernambucanos venceram em todas as instâncias, recebendo a quantia de 40 contos de réis, uma pequena fortuna à época. Porém, concordaram que a versão de Lamartine, a esta altura difundida por todo o Brasil, melhorara a composição, e a deixaram como estava, com a condição de terem seus nomes incluídos em todas as futuras gravações.

Mas a história não acaba aí. Em 1934, com o imbróglio decidido, Francisco Alves lança no carnaval a marcha A melhor das três, de Lamartine, que, citando seus outros sucessos carnavalescos Linda Lourinha e Linda Morena, faz troça do acontecimento:

Só porque o cabelo não negava
toda a gente só falava
na Mulata Original
E a Mulata
foi para o Supremo Tribunal
Foi ver seu Pai
e de lá não sai

Mas e a Mulata original? Esta ficou nos arquivos da RCA Victor por anos, só sendo gravada, e mesmo assim parcialmente, em 1976, num projeto de resgate da obra dos Irmãos Valença (aliás, sem parentesco direto com Alceu Valença). A primeira estrofe de Mulata é cantada por Expedito Baracho quase que apenas para registro, e o arranjo tem pressa em passar logo à introdução de Pinxinguinha e cantar a versão de Lamartine. Ouvi-las em sequência talvez ajude a desvendar os caminhos misteriosos que uma fenomenal canção percorre até tornar-se o que é.

Mulata – O teu cabelo não nega – gravação de Expedito Baracho

Me deste um curto-circuito – que fruido!
E se queimou-se os fusive – incrive!
Porque nesses teus dois quartos de fama, mulata
Passa a corrente da trama

Nestas terras do Brasil – aqui
Não precisa mais prantá – qui dá
Feijão muito dotô e giribita
Muita mulata bonita.

O teu cabelo não nega, mulata
Que tu és mulata na cor
Mas como a cor não pega, mulata
Mulata, eu quero teu amor

Artigo publicado em março de 2016 na revista digital Acorde! O aplicativo da revista pode ser baixado gratuitamente aqui, dando acesso a diversos e excelentes colunistas e matérias em vídeo, áudio e escritas.

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